Economia & Mercado

O que é recuperação judicial? Entenda o recurso usado por Casas Bahia, Habib’s e Braskem

Grupos Casas Bahia, Braskem e Habib's são alguns dos nomes que pediram Recuperação Judicial para enfrentar dívidas bilionárias no Brasil  |  Reprodução/Redes sociais/Unsplash

Publicado em 05/09/2026, às 07h00   Reprodução/Redes sociais/Unsplash   Antonio Dilson Neto

Em agosto deste ano, quatro nomes conhecidos dos brasileiros entraram para a lista de empresas em recuperação recuperação judicial no país. O Grupo Casas Bahia pediu recuperação judicial para reestruturar cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas. O Grupo Gennius — dono do Habib's, Ragazzo e Tendal Grill— também deu entrada no pedido, com uma dívida declarada de R$ 265,2 milhões.

A Marabraz, tradicional rede paulista de móveis e eletrodomésticos, entrou com pedido semelhante para reorganizar cerca de R$ 140 milhões. E a Braskem, gigante petroquímica, protocolou um pedido de recuperação extrajudicial, ganhando 90 dias de proteção para negociar um plano de reestruturação de uma dívida de R$ 54 bilhões.

Siga o BNews no Google e receba as principais notícias no seu celular

Mas afinal, o que significa, na prática, uma empresa entrar em recuperação judicial — e por que isso está acontecendo com tanta frequência?

📲 Mantenha-se informado! Siga o CANAL DO BNEWS NO WHATSAPP e receba as principais notícias diretamente no seu dispositivo. Clique e não perca nada!

Recuperação Judicial | Reprodução/Unsplash
Recuperação Judicial | Reprodução/Unsplash
Recuperação Judicial | Reprodução/Unsplash
Recuperação Judicial | Reprodução/Unsplash

O que é a recuperação judicial, afinal

O advogado Alberto Carvalho, sócio da PPF Advocacia, explica que a recuperação judicial é um instrumento legal que permite a uma empresa em dificuldade financeira negociar, sob supervisão da Justiça, uma forma de quitar suas dívidas sem precisar encerrar as atividades — o que aconteceria em caso de falência.

"Quando uma empresa se encontra numa dificuldade financeira de grandes proporções, ela apresenta à Justiçaum Plano de Recuperação, que é uma proposta de como ela vai quitar o que deve, quem são os credores e de quantas parcelas ela precisa para quitar cada uma das dívidas", explica Carvalho.

Esse plano pode seguir dois caminhos. Em alguns casos, ele é submetido diretamente aos credores, que se reúnem em assembleia para aprová-lo ou rejeitá-lo. Em outros — geralmente quando a empresa é muito grande e tem múltiplos credores —, o próprio juiz pode aprovar ou homologar a proposta.

Se for homologado e aprovado esse plano de recuperação judicial, a empresa vai seguir operando normalmente sob a fiscalização do juiz até que todo esse passivo regularize a situação financeira e efetivamente se recuperem", detalha o advogado.

Recuperação e falência

Um ponto que gera confusão para quem não é da área jurídica é a diferença entre recuperação judicial e falência. Carvalho comenta que são processos com lógicas opostas.

A falência é quando a empresa não tem efetivamente capacidade nenhuma de se recuperar. Na recuperação judicial, não. É uma forma da empresa ganhar um fôlego com a decisão judicial, homologando, dizendo aos credores: 'vocês não vão poder cobrar esses valores seja judicialmente, seja extrajudicialmente, enquanto ele estiver em recuperação judicial'", afirma.

Na prática, isso significa que os pagamentos passam a seguir exatamente o que foi definido no plano aprovado e a empresa ganha, segundo o advogado, "um fôlego relevante" para reorganizar as contas sem o risco imediato de perder bens ou ser forçada a fechar as portas.

Um recorde que não para de crescer

O que aconteceu em agosto é parte de uma tendência que os números confirmam há meses. De acordo com o Monitor RGF-BizDoc, que acompanha dados de insolvência empresarial no Brasil, o país fechou 2025 com 5.680 empresas em recuperação judicial, alta de 24,3% em relação a 2024 e recorde histórico da série.

Só no quarto trimestre daquele ano, foram 510 novas empresas entrando em recuperação — o maior volume trimestral já registrado.

Os dados mais recentes, referentes ao segundo trimestre de 2026, já mostram 5.535 empresas em recuperação judicial no país, com 419 novos pedidos protocolados no período.

O número é ligeiramente menor que o pico de 2025, mas ainda reflete um patamar historicamente elevado — sinal de que o fenômeno não é passageiro.

Os gigantes que caíram antes

Os casos de agosto, por mais expressivos que sejam, ainda estão longe dos maiores pedidos de recuperação judicial já registrados no Brasil. Nos últimos dez anos, cinco processos se tornaram referência pelo tamanho da dívida envolvida — e cada um deles teve um desfecho diferente.

A Odebrecht, hoje rebatizada como Novonor, pediu recuperação em 2019 com uma dívida de R$ 83 bilhões e hoje está parcialmente encerrada. A Oi enfrentou duas recuperações judiciais — a primeira em 2016, com R$ 65 bilhões em dívidas, e a segunda em 2023, com R$ 45 bilhões — e teve a falência decretada e confirmada em agosto deste ano.

A Samarco, envolvida no processo após a tragédia de Mariana, pediu recuperação em 2021 com R$ 50 bilhões em passivo e já encerrou o processo. A Americanas, que abalou o mercado em 2023 com uma dívida de R$ 43 bilhões, está em fase final de encerramento da recuperação.

Já a Sete Brasil, que começou o processo em 2016 com R$ 21,7 bilhões — valor que chegou a R$ 36 bilhões ao longo do processo —, teve a falência decretada.

Vale notar que dois desses cinco casos — Oi e Sete Brasil — terminaram exatamente no cenário que a recuperação judicial deveria evitar: a falência. É esse histórico que explica por que credores costumam receber com desconfiança o anúncio de uma recuperação bilionária, e por que analistas de mercado tendem a acompanhar de perto os primeiros meses de qualquer plano homologado.

O nome "recuperação" carrega uma promessa mas, como mostram os números, ela nem sempre se cumpre.

Classificação Indicativa: Livre


TagsOdebrechtBraskemcasas bahiafalênciahabibsRecuperação JudicialNovonorPPF AdvocaciaMarabrazInsolvência

Leia também


Tarifa de embarque do Aeroporto de Salvador ficará mais cara; saiba detalhes


Lito Sousa será o primeiro paciente no mundo a receber remédio experimental para a doença de Creutzfeldt-Jakob