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Publicado em 15/07/2026, às 10h22 - Atualizado às 11h05 Reprodução/RedNote Camila Sales
Vendido por menos de R$10 em diversos formatos, o objeto antiestresse conhecido como "Natasha Doll" (Boneca Natasha) contém substâncias como gel, areia ou microesferas para oferecer estímulo tátil. No entanto, o brinquedo viralizou de forma alarmante na internet após adquirentes compartilharem vídeos de manuseio onde a versão com características de uma criança negra se torna alvo de atos de extrema violência.
No Weibo (o equivalente chinês ao X), os usuários filmam a si mesmos amassando, esticando, perfurando, pisoteando o brinquedo, esfaqueando o rosto, fazendo gestos obscenos e de teor sexual na região íntima do produto e pintando o rosto da boneca com pós brancos em tom de deboche.
O comportamento sádico gerou forte indignação e denúncias por parte de quem assiste, transformando o brinquedo no centro de um amplo debate internacional sobre o racismo e a desumanização de pessoas negras.
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A justificativa dada por muitos usuários para o consumo e a agressão específica à versão negra do brinquedo escancara o racismo por trás da tendência.
Segundo relatos nas redes, os agressores preferem a boneca de pele escura porque uma versão de pele clara "pareceria humana demais", o que geraria remorso e dor no coração ao imaginar que estariam maltratando um bebê de verdade. Dessa forma, desprovido de sua humanidade, o corpo negro acaba sendo reduzido a um mero objeto coisificado, passando a ser tratado como um alvo admissível para a prática de violência.
A indignação com o tratamento dado à boneca mobilizou ativistas, pesquisadores e usuários da internet, que alertam para a normalização de comportamentos preconceituosos.
Na rede, críticos apontaram que o desdém em torno da "Natasha Doll" carrega o que chamaram de um "triplo fardo" de discriminação, por atacar simultaneamente alvos historicamente vulneráveis, sendo:
"Um amigo meu vive me mandando aqueles vídeos de deboche com a boneca Natasha. Não acho a menor graça. É muito racista. Tem uns que são filmados exatamente como maus-tratos a crianças", desabafou um usuário.
Outro internauta fez um paralelo direto, afirmando que os atos de violência contra a boneca são equivalentes ao preconceito fenotípico que os próprios chineses enfrentam no exterior.
A "Boneca Natasha" atingiu a popularidade a partir de maio deste ano. Segundo a imprensa estatal chinesa, diversas fábricas já haviam vendido mais de 100 mil unidades. Na época, o chefe de produção de uma das manufaturas comemorou o esgotamento dos estoques e confirmou que a preferência do público era disparada pela versão "marrom" do produto.
Diante da forte repercussão negativa, a reação das autoridades e da imprensa local revelou uma omissão cirúrgica em relação ao debate racial. A agência de notícias estatal Xinhua e os órgãos fiscalizadores de províncias chinesas passaram a inspecionar os fabricantes, mas ignoraram completamente o racismo estrutural motivador da "brincadeira".
O discurso oficial tratou o caso sob duas óticas que esvaziam a gravidade da situação:
Enquanto defensores do produto e fabricantes afirmam que não há intenção discriminatória justificando tratar-se apenas de uma "categoria de brinquedos", os anúncios online seguem ativos, raramente oferecendo outras cores de pele.
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