Meio Ambiente
Publicado em 23/06/2026, às 05h00 Divulgação/Enel Antonio Dilson Neto
Para produzir a mesma quantidade de energia, o setor elétrico brasileiro emite apenas 8% das emissões registradas na China, 16% do volume dos Estados Unidos e cerca de 23% do que é gerado pelos países da União Europeia. Os números, divulgados pela Empresa de Pesquisa Energética no Balanço Energético Nacional 2026, com base no ano de 2025, colocam o Brasil em uma posição que poucos países do mundo ocupam: uma matriz elétrica de grande escala com baixíssimo índice de carbono.
Em 2025, foram emitidos 64,8 kg de CO₂ equivalente para cada MWh produzido no país — índice que reflete décadas de investimento em hidrelétricas, complementadas mais recentemente pelo avanço expressivo da energia solar e eólica.
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A energia solar foi um dos principais destaques do ano. Considerando a geração centralizada e a distribuída, a fonte produziu 88,1 TWh em 2025, crescimento de 24% em relação a 2024, e a capacidade instalada atingiu 64.793 MW — expansão de 33,7% em apenas um ano.
A energia eólica também avançou: a geração chegou a 116,5 TWh, alta de 8,2%, com potência instalada de 34.707 MW, crescimento de 17,5%.
Com esse desempenho, a participação das fontes renováveis na oferta interna de energia elétrica alcançou 86,8% em 2025 — um patamar que o Brasil sustenta há anos e que o coloca em posição muito superior à média mundial e à dos países da OCDE.
Nathália Brasil, técnica de manutenção do Parque Eólico de Tucano, no Nordeste, explica o que está por trás desse avanço. Segundo ela, o destaque do Brasil deve-se à utilização histórica das usinas hidrelétricas e à implementação de políticas públicas que fomentam o investimento nas energias renováveis.
Esse cenário, aliado a condições climáticas de altos índices de radiação solar e ventos constantes, levou as fontes solar e eólica a crescerem em ritmo acelerado, complementando de forma estratégica a matriz elétrica tradicional", afirma.
Apesar do avanço renovável, 2025 registrou também um crescimento expressivo na geração termelétrica. O volume chegou a 169,9 TWh, alta de 12,3% em relação ao ano anterior, acompanhada de aumento de 22,7% no consumo de gás natural para geração de eletricidade. Vale destacar que 38,9% dessa geração térmica foi proveniente de biomassa — o que ameniza o impacto sobre as emissões.
O avanço das termelétricas não contradiz a trajetória renovável, mas responde a uma demanda crescente do sistema. Com o aumento do consumo de energia e a necessidade de maior flexibilidade operativa, as usinas térmicas funcionam como complemento nas horas em que sol, vento e chuva não são suficientes para atender à demanda.
Entre as biomassas utilizadas está o licor negro — subproduto do processo industrial de fabricação de papel e papelão, rico em potencial energético e capaz de gerar eletricidade suficiente para alimentar unidades industriais inteiras, com excedentes direcionados ao sistema nacional.
Para além dos grandes números, a expansão das renováveis transforma a realidade de comunidades inteiras, especialmente no semiárido nordestino. Nathália Brasil observa que a instalação de complexos eólicos e solares funciona como motor de atração de investimentos privados e impulsiona a arrecadação de impostos municipais em regiões distantes dos grandes centros.
No semiárido nordestino, a instalação desses complexos transforma a realidade socioeconômica de comunidades rurais ao gerar picos de emprego local na fase de construção e injetar renda contínua para pequenos proprietários por meio do arrendamento de terras", explica.
O retrato que o Balanço Energético Nacional 2026 apresenta é, portanto, o de um país que avança — com contradições, gargalos e um caminho ainda longo pela frente, mas com uma base renovável que poucos países no mundo conseguem ostentar.
Se os números são positivos, os desafios estruturais persistem. Nathália Brasil aponta a insuficiência da infraestrutura de transmissão como um dos maiores obstáculos ao avanço ainda mais rápido das renováveis no Brasil.
Segundo ela, esse déficit resulta no fenômeno dos curtailments — situações em que o Operador Nacional do Sistema é obrigado a restringir a geração das usinas para garantir estabilidade na rede, mesmo quando há energia disponível.
Além desses fatores domésticos, a transição global esbarra na burocracia extrema para o licenciamento de novos projetos e no forte lobby político dos combustíveis fósseis", afirma a técnica.
No plano global, a COP28 estabeleceu a meta de triplicar a capacidade renovável até 2030. Para a especialista, o Brasil atua como protagonista desse processo, mas precisa destravar os gargalos de transmissão para manter o ritmo de crescimento e, ao mesmo tempo, equacionar a dependência econômica do petróleo com a agenda de transição ecológica.
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