Política
Publicado em 05/10/2026, às 09h20 Reprodução Lucas Pacheco
O resultado do primeiro turno das eleições 2026 na Bahia, neste domingo (04), surpreendeu grande parte dos apoiadores do ex-prefeito de Salvador, ACM Neto (União). O político liderou quase todas as pesquisas eleitorais até o final do campanha, mas o resultado das urnas lhe impôs um revés. Os números foram piores do que os do pleito de 2022, quando ele também enfrentou Jerônimo Rodrigues (PT), na época um mero desconhecido. E a diferença de votos em Salvador chamou a atenção.
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Neto construiu em Salvador uma das suas principais vitrines eleitorais. Foi eleito em 2012 e reeleito em 2016 com uma votação histórica, quase 74%. Em 2020, depois de deixar o Palácio Thomé de Souza, conseguiu eleger Bruno Reis (União), que foi reeleito em 2024. Entretanto, o resultado das urnas em 2026 evidencia que essa força, embora ainda exista, já não se mostra mais com a mesma folga quando Neto encara uma disputa estadual.
Neste domingo, primeiro turno do pleito de 2026, ACM Neto venceu novamente na capital baiana, mas, desta vez, com 54,3% dos votos válidos, contra 44,5% de Jerônimo Rodrigues. O ex-prefeito recebeu 769.752 votos, enquanto o governador ficou com 630.677. A vantagem de Neto foi de aproximadamente 139 mil votos.
Esse resultado chama atenção principalmente quando colocado lado a lado com a eleição de 2022. Há quatro anos, no segundo turno, ACM Neto havia conquistado 1.013.094 votos em Salvador, equivalentes a 64,51% dos votos válidos. Jerônimo teve 557.418 votos, ou 35,49%. A diferença entre os dois candidatos chegou, naquele momento, a 455.676 votos.
Em 2026, portanto, o ex-prefeito de Salvador não teve apenas uma redução expressiva no número absoluto de votos, cerca de 243 mil a menos, como viu sua vantagem sobre Jerônimo despencar em aproximadamente 316 mil votos.
Salvador não deixou de votar em ACM Neto. A capital baiana continua sendo seu principal reduto eleitoral, mas a dimensão da vantagem é outra. Se em 2022 a dianteira foi com 15,91 pontos percentuais sobre Jerônimo, em 2026, essa distância caiu para cerca de 9,8 pontos.
O contraste com o histórico eleitoral
A redução pode até parecer pouca, mas, em 2016, ainda disputando a Prefeitura de Salvador, Neto foi reeleito no primeiro turno com 73,99% dos votos válidos, alcançando 982.246 votos. Na época, o PT não quis nem lançar candidato, abriu mão da cabeça de chapa, deixou o posto para a deputada federal Alice Portugal (PCdoB), que ficou com 14,55%.
Aquela eleição deu um recado claro. Neto dominava Salvador. Consolidou uma imagem forte e venceu com uma diferença de quase 60 pontos percentuais. Com essa força elegeu com tranquilidade seu vice-prefeito, Bruno Reis, em 2020. Bruno alcançou 64,20% dos votos válidos, contra 18,86% de Major Denice (PT). E, na reeleição, em 2024, Bruno Reis foi a 78,67% dos votos válidos, ou 1.045.690 votos, consolidando a continuidade do grupo político.
Claro que são eleições diferentes, candidatos distintos e contextos diversos. Ainda assim, alguns fatores ajudam a dimensionar a diferença entre a capacidade eleitoral do grupo na disputa municipal e a transferência dessa força para uma eleição estadual. Um deles é a cobrança sobre o ritmo da segunda gestão Bruno Reis, que tem sido publicamente criticado e questionado. Há uma percepção de desgaste evidente.
Inclusive, em agosto, no início da campanha eleitoral, o atual prefeito de Salvador, prometeu conseguir vantagem de 500 mil votos para ACM Neto sobre Jerônimo na capital. Conseguiu 139 mil. Nem a metade. Promessa é dívida, diz o ditado popular.
E há outro dado relevante. A capital continua sendo um ativo importante, mas não é mais uma garantia de vantagem ampla. Na prática, Salvador não conseguiu entregar a ACM Neto uma diferença suficientemente grande para neutralizar o resultado obtido por Jerônimo fora de Salvador. Muito pelo contrário. Não conseguiu sequer entregar números para estreitar o resultado
Mesmo vencendo na cidade que lhe projetou politicamente e onde seu grupo governa há décadas, Neto não reproduziu nas urnas estaduais a mesma margem que alcançou nos pleitos soteropolitanos. O desempenho de Salvador não foi ruim, mas acendeu um alerta pelo susto. Não à toa o discurso da derrota na noite de domingo foi em tom de irritação e decepção.
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