Política
Publicado em 29/08/2026, às 07h13 Divulgação Redação Bnews
O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) deu declarações falsas, enganosas ou sem comprovação durante entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo, na noite desta sexta-feira (28). Há problemas em falas do senador sobre os atos de 8 de Janeiro, sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, urnas eletrônicas, tarifaço dos Estados Unidos, Pix e mudanças climáticas.
Entre as afirmações classificadas como falsas estão a de que nenhuma arma foi encontrada durante os ataques às sedes dos Três Poderes, em Brasília, e a de que Flávio nunca questionou o processo eleitoral brasileiro.
O candidato também apresentou informações consideradas enganosas ou sem contexto ao falar do financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro, da relação entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Vorcaro e da influência humana no aquecimento global.
Ao contestar a condenação do pai, Jair Bolsonaro (PL), Flávio afirmou que não houve uma organização criminosa armada durante os atos de 8 de Janeiro de 2023. “Não foi encontrada uma arma no 8 de Janeiro, Tralli”, declarou.
A afirmação é falsa. Registros apontam que manifestantes roubaram armas do GSI (Gabinete de Segurança Institucional) naquele dia. Depoimentos prestados à CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) que investigou os atos também indicaram a presença de granadas e coquetéis molotov.
Além disso, seugundo o Estadão, armas brancas e improvisadas foram apreendidas durante os atos. Em operações posteriores, a PF (Polícia Federal) encontrou armas de fogo com suspeitos de financiar o movimento.
Flávio também foi contestado ao falar sobre a relação com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. “A única relação que eu tinha com ele, Renata, era sobre esse filme e mais nada”, disse.
Conversas entre os dois, porém, mostram uma proximidade que ia além de contatos pontuais com um potencial investidor. Flávio e Vorcaro se tratavam como “irmão” e tentaram marcar um jantar na casa do banqueiro, em São Paulo.
Em novembro de 2025, quando o Master já enfrentava questionamentos, Flávio escreveu a Vorcaro: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”.
O senador também confirmou posteriormente que esteve com Vorcaro após a primeira prisão do banqueiro. Segundo Flávio, o encontro ocorreu para encerrar a participação dele no filme.
Outro ponto questionado envolveu a prestação de contas de Dark Horse, cinebiografia ficcional de Jair Bolsonaro.
Flávio afirmou que uma perícia demonstrava que os recursos do projeto haviam sido aplicados no filme e que não havia dinheiro público.
Há falta de contexto. O laudo contratado pela GoUp Entertainment não rastreou a origem dos recursos transferidos pelo fundo Havengate Development, dos Estados Unidos.
O responsável pela avaliação técnica afirmou que não teve autorização para auditar o fundo. Também não foram apresentados no documento notas fiscais, recibos e extratos bancários detalhando todas as despesas.
A PF considera importante analisar o caminho desses recursos. O Havengate recebeu cerca de US$ 10,6 milhões, aproximadamente R$ 61 milhões, em aportes de Vorcaro solicitados por Flávio.
Ao comparar o financiamento do filme com negócios envolvendo empresas do Grupo Globo, Flávio declarou que o Will Bank, instituição que era controlada pelo Banco Master, teria feito um patrocínio de R$ 160 milhões para um programa de Luciano Huck. Não há comprovação desse valor.
O número surgiu de uma estimativa de mercado segundo a qual o investimento poderia variar entre R$ 120 milhões e R$ 160 milhões, considerando o horário e a duração do quadro patrocinado. Não há evidência apresentada no material de que R$ 160 milhões tenham sido efetivamente pagos.
Flávio também citou um investimento de R$ 50 milhões relacionado a um evento do Valor Econômico, em Nova York. A checagem do Estadão informou que não encontrou comprovação desse pagamento.
Durante a entrevista, Flávio disse que pediu a instalação de uma CPMI para investigar o Banco Master e afirmou ter assinado a iniciativa. A declaração omitiu parte do histórico.
Houve cinco requerimentos relacionados à investigação do banco. Flávio assinou dois deles, mas não apoiou outros três pedidos.
Ao ser questionado sobre críticas ao sistema eleitoral, Flávio reconheceu ter errado ao dizer que uma empresa venezuelana havia fabricado urnas utilizadas no Brasil, mas negou ter colocado em dúvida o processo eleitoral. “Jamais questionei a questão do processo eleitoral”, afirmou.
A declaração é falsa. Em 2018, Flávio declarou que seria “impossível garantir a lisura das urnas sem o voto impresso” e disse ter o “direito de desconfiar da urna eletrônica”.
Naquele mesmo ano, compartilhou um vídeo falso que simulava uma urna completando automaticamente um voto em Fernando Haddad (PT).
Em julho de 2026, o senador voltou a levantar suspeitas sobre as urnas ao relacionar os equipamentos brasileiros à Smartmatic durante uma reunião com embaixadores.
Flávio também afirmou ter sido o único agente público brasileiro a viajar aos Estados Unidos para defender o país diante das tarifas impostas pelo governo Donald Trump. “Mais uma vez, o único representante público, o único agente público brasileiro que foi para os Estados Unidos defender o Brasil foi Flávio Bolsonaro”, disse.
A afirmação não corresponde aos fatos apresentados pelas checagens. O governo Lula realizou mais de 30 reuniões desde o primeiro anúncio do tarifaço, em julho de 2025. Parte delas ocorreu presencialmente nos Estados Unidos, inclusive com a participação do chanceler Mauro Vieira. Lula também se encontrou com Trump em maio de 2026.
Flávio participou de uma audiência pública organizada pelo USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos) no início de julho. O governo brasileiro enviou observadores ao evento por considerar que aquela audiência não constituía um canal oficial de negociação.
Ao defender o irmão Eduardo Bolsonaro (PL-SP), Flávio afirmou: “Ele nunca pediu tarifas para empresas brasileiras”. No entanto, não há evidência de que Eduardo tenha feito um pedido formal ao governo americano para impor as tarifas. A declaração, no entanto, omite a atuação do ex-deputado nas discussões sobre o tema.
Eduardo e Paulo Figueiredo afirmaram que a possibilidade de taxação havia sido discutida em reuniões com integrantes do governo Trump. Eduardo também comemorou posteriormente a adoção do tarifaço e passou a defender a medida como forma de pressionar pela anistia de Jair Bolsonaro e dos demais condenados na trama golpista.
Flávio atribuiu ao governo Jair Bolsonaro a criação do Pix e disse que a gratuidade para pessoas físicas ocorreu por exigência do então presidente. “Foi feito na gestão do presidente Bolsonaro.”
E acrescentou: “Não tem taxa no Pix porque o Bolsonaro exigiu que não tivesse”.
O Pix foi lançado em novembro de 2020, durante o governo Bolsonaro, mas sua elaboração começou antes. As primeiras discussões ocorreram em 2014, os estudos de modelo começaram em 2016 e o desenvolvimento efetivo teve início em 2018.
A gratuidade para pessoas físicas foi definida pelo BC (Banco Central) em outubro de 2020. Não há indicação nos documentos citados pelas checagens de que a decisão tenha ocorrido por exigência de Bolsonaro.
Naquele mesmo ano, o então ministro da Economia, Paulo Guedes, defendeu um imposto sobre transações digitais que poderia atingir pagamentos realizados por meio do Pix. A proposta não avançou.
Flávio também relativizou a influência humana no aquecimento global. “Eu acho que tem eventos climáticos extremos. Tem épocas cíclicas que fazem mais calor, tem épocas que fazem mais frio, tem épocas que chovem mais, e eu não acho que isso tem a ver diretamente só com a influência do ser humano”, declarou.
A afirmação contraria o consenso científico. Uma revisão de 88.125 artigos científicos publicada em 2021 apontou que mais de 99% dos estudos analisados atribuem as mudanças climáticas à ação humana.
O IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima) também considera que o aquecimento global é inequivocamente causado pelas atividades humanas, principalmente pela emissão de gases de efeito estufa.
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