Salvador
Publicado em 16/09/2026, às 05h00 Divulgação / CTB Thiago Teixeira
O Laboratório de Arqueologia e Paleontologia da Universidade Estadual da Bahia (LAP/Uneb), localizado no Campus VII, em Senhor do Bonfim, no Centro-Norte da Bahia, vai abrigar e analisar as 235 peças do sítio arqueológico histórico encontrado no Campo Grande durante as obras de expansão da Linha 1 do Sistema Metroviário de Salvador.
A informação foi divulgada com exclusividade na edição da BNews Premium do último domingo (13). Fundado em 2005, o LAP/Uneb é um centro de salvaguarda e pesquisa no semiárido baiano, responsével pela preservação do patrimônio cultural e produção de conhecimento científico.
O laboratório abriga um acervo de mais de 218 mil peças catalogadas, incluindo fósseis, artefatos líticos e cerâmicos de ocupações humanas. O LAP/Uneb foi a instituição de guarda e pesquisa que forneceu o endosso institucional durante as escavações do sítio arqueológico localizado em frente ao Largo do Campo Grande, e ao lado do Forte de São Pedro.
A área possui 188,41 metros quadrados e é formada, principalmente, por vestígios da ocupação da região durante o século XIX. Ao todo, foram identificadas 235 peças arqueológicas, entre fragmentos de faiança (material cerâmico poroso, de massa branca ou marfim), porcelana, cerâmica, vidro, metal, ossos e telhas.
A descoberta foi registrada durante os estudos arqueológicos preventivos apresentados para o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em agosto deste ano, pela Companhia de Transportes da Bahia (CTB), empresa pública vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (Sedur).
O Iphan explicou ao BNews, que o sítio vai passar por novas escavações arqueológicas na próxima etapa da pesquisa a ser realizada. Para isso, uma empresa especializada em arqueologia será contratada e um cronograma deve ser apresentado pela CTB ao Iphan.
Já a CTB, por sua vez, detalhou que não apenas as 235 peças já coletadas, mas também outras que eventualmente sejam encontradas serão encaminhadas ao LAP/Uneb. Entre as ações estão previstos painéis com informações sobre a história local, o sítio arqueológico e os artefatos encontrados — que serão disponibilizados para visitação pública.
Em conversas com o BNews, a coordenadora do LAP/Uneb, a professora Cristiana Santana, informou que caberá à equipe de arqueologia da CTB encaminhar as peças ao laboratório da universidade já curateladas, catalogadas e acondicionadas. Até então não há um cronograma definido pelo Governo da Bahia.
Ao chegar à Uneb, o acervo será incorporado à nossa Reserva Técnica de Arqueologia, cadastrada junto ao Iphan para a recepção de acervos arqueológicos oriundos de todo o estado da Bahia. A data de recebimento dependerá do cronograma estabelecido pela CTB", informou a docente.
A Uneb informou que seu laboratório realiza, periodicamente, estudos sobre suas coleções, inclusive por meio de atividades vinculadas aos cursos de graduação e pós-graduação. Diante disso, frisou que "o material proveniente do sítio arqueológico do Campo Grande certamente também será objeto de estudos e pesquisas futuramente".
Além da produção de pesquisas, o laboratório mantém um espaço físico destinado a atividades de extensão e outros espaços virtuais voltados à divulgação da Arqueologia. Contudo, antes de ser encaminhado ao LAP/UNEB, esse material deverá ser exposto à comunidade soteropolitana pela CTB, em atividade de educação patrimonial", informou a coordenadora ao BNews.
Os pesquisadores analisaram os Poços de Ventilação e Saída de Emergência (VSE) São Raimundo, Santa Rita e Estação Campo Grande — que compõem o projeto de expansão do metrô. Antes de identificar o sítio arqueológico no coração de Salvador, os arqueólogos encontraram 278 artefatos no VSE Poço São Raimundo.
No entanto, após investigarem até a profundidade de 3,50 metros, eles concluíram que a amostragem "embora contenha artefatos dispersos, carece de contexto arqueológico, não apresentando, portanto, relevância histórica ou científica". Devido a isso, constaram não haver impedimentos à execução das obras no local.
Diante da constatação de que a Área Diretamente Afetada não apresenta material arqueológico em contexto, mas apenas artefatos deslocados de outras localidades, conclui-se que a implantação da unidade do empreendimento metroviário VSE Poço São Raimundo não acarretará impactos ao patrimônio arqueológico in situ", aponta o relatório.
Por outro lado, na futura Estação Campo Grande a história é bem diferente — literalmente. Após os arqueólogos vasculharem até 2 metros de profundidade, foram encontrados 235 artefatos históricos que remontam a Salvador de 200 a 300 anos atrás.
Do total, 220 foram localizados logo na primeira das 27 sondagens realizadas na estação. De acordo com o relatório arqueológico, "em boa parte do sítio, os artefatos encontram-se em seu contexto arqueológico preservado, evidenciando diferentes níveis de ocupação".
O eixo do poço que será escavado para a construção da Estação Campo Grande incide diretamente sobre o trecho preservado onde foram encontrados os vestígios. Apesar da maioria dos achados remeter ao século XIX, também foram identificadas peças arqueológicas dos séculos XVIII e XX.
Logo de cara, os pesquisadores encontraram uma série de artefatos em camadas de ocupação bem delimitadas, incluindo um contrapiso a cerca de 69 centímetros de profundidade e outro nível com evidência de uma fogueira com aproximadamente 1,15 metro.
Diante da vastidão do valor histórico dos achados, os pesquisadores concluíram que a implantação da Estação Campo Grande "apresenta interferência direta sobre o setor preservado do sítio arqueológico, uma vez que seu eixo incide sobre o barranco no qual foram identificados os vestígios arqueológicos".
Dessa forma, a execução das escavações necessárias à implantação dessa estrutura produzirá impacto direto sobre parte do Sítio Arqueológico Campo Grande, com remoção dos depósitos arqueológicos existentes na área afetada", afirma o relatório.
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