Salvador

Morte de criança em UPA de Itapuã expõe falhas e suspeita de falsificação de prontuário: 'Meu filho não resistiu', desabafa mãe

Mãe acusa UPA de falhas no atendimento  |  Reprodução/ Acervo pessoal

Publicado em 19/09/2025, às 05h00 - Atualizado às 05h59   Reprodução/ Acervo pessoal   Bruna Rocha

Cinco meses após a perda do filho, Priscilla Vaz, mãe de Marcos Túlio, que tinha 5 anos, denuncia três médicos da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Itapuã, em Salvador. Ela afirma que o menino morreu no local devido a falhas no atendimento dos profissionais.

Ao BNEWS, Priscilla recordou que levou a criança para atendimento de urgência no dia 27 de março deste ano, Marcos vomitava, sentia febre e mal-estar.  Foram feitos uma avaliação e a criança foi liberada com diagnóstico de dengue. 

Siga o BNews no Google e receba as principais notícias no seu celular

Marcos estava com dor de cabeça, febre, vômito, respiração ofegante e muita moleza no corpo. Por isso, levamos ele para a UPA de Itapuã, na quinta-feira à noite, por volta das 18h. Ele foi atendido por duas médicas, Ana Paula e Ana Verena. Recebeu soro, remédio para enjoo e dipirona. Também fizeram exames de sangue, com suspeita de dengue”, recorda com emoção. 

Priscilla aponta que o exame do filho foi alterado. “Esse exame, feito ainda na quinta-feira, já estava todo alterado. O teste para dengue deu inconclusivo por falta de material. Marcos estava desidratado, e houve dificuldade para colher as amostras. Hoje eu consigo dizer isso porque temos o inquérito concluído e o prontuário dele daquela noite”, conta. 

“Na sexta-feira, Marcos continuava no mesmo estado em que estava quando recebeu alta na quinta, tomando apenas a mesma [dipirona] medicação. No final do dia, ele piorou, e levamos novamente para a UPA. Quem o recebeu foi a mesma médica, Ana Verena, que havia dado alta no dia anterior. Marcos chegou com a pulseirinha vermelha, saturação de 56, e foi direto para a sala de reanimação, já em parada cardíaca. Teve a troca de plantão, e a médica deixou o atendimento, mas Marcos já estava muito mal. Contar tudo isso é muito difícil para mim, porque é reviver aquele momento doloroso”, lembrou Priscilla. 

O laudo do IML apontou que a criança morreu de meningite. A mãe contratou um advogado e, após reunir documentos da unidade de saúde, afirmou ter encontrado indícios de homicídio e falsidade ideológica, já que a médica responsável não era pediatra. O caso foi registrado na 12ª Delegacia Territorial da Polícia Civil da Bahia, que identificou problemas como falsificação de documentos e alteração de prontuários na UPA de Itapuã.

Ela não é médica clínica. Para ser clínica, é preciso fazer residência em clínica médica. Ela é médica generalista. Todo médico recém-formado é generalista, não clínico. Mesmo assim, ela assinava como pediatra, o que configura falsidade ideológica. Esse é um dos crimes apurados pela delegacia, e pelos quais ela deverá responder”, denuncia a mãe da criança. 

Segundo a mãe, já existe relatório remetido à Justiça. No indiciamento feito pela delegada da 12ª Delegacia Territorial, a médica Ana Paula foi enquadrada por homicídio culposo. Já a médica Ana Verena responde por homicídio culposo, falsidade ideológica e falsificação de documento público, pois registrou no prontuário que Marcos havia feito um raio-X no dia do falecimento da criança — exame que, segundo as investigações e a família, nunca aconteceu.

Além disso, o diretor da UPA também foi indiciado por falsificação de documento público, após entregar um relatório no qual afirmava que Marcos tinha melhorado e, por isso, recebido alta. De acordo com a mãe, tudo já foi apurado pela delegacia, documentado e pode ser comprovado. Ao todo, três médicos foram indiciados no caso. 

Clique aqui e se inscreva no canal do BNews no Youtube

O BNEWS questionou a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) sobre o ocorrido e como pretende avançar a partir da denúncia e das provas policiais contra os médicos da unidade.

A pasta informou que "já adotou as medidas legais e administrativas cabíveis quanto ao ocorrido". Além disso, a SMS ressaltou que tratar de procedimento em andamento, as informações seguem em caráter sigiloso, conforme prevê a legislação. A SMS reafirma seu compromisso com a transparência, a responsabilidade e o fortalecimento contínuo da qualidade da assistência prestada à população". 

Quando procurada sobre o caso, a Polícia Civil da Bahia informou que o inquérito policial foi concluído com o indiciamento de duas mulheres por homicídio culposo. Uma delas também está sendo indiciada por falsidade ideológica, assim como um homem, que é suspeito dessa prática criminosa. O procedimento foi encaminhado ao Poder Judiciário no dia 11 de setembro deste ano. 

Classificação Indicativa: Livre


TagsBahiaSalvadorPolícia CivilItapuãmeningiteUPAu

Leia também


Médica de UPA afastada após acusação de negligência relata ameaças de marido de gestante


Família denuncia morte de homem em UPA dos Barris enquanto aguardava regulação