Saúde
Publicado em 12/09/2025, às 06h00 Marcelo Camargo/Agência Brasil Dandara Amorim
“Isso é falta de Deus”, uma das falas que Eliege Santos, de 59 anos, ouviu enquanto passava pelo tratamento de ansiedade, grau 3. Esse tipo de transtorno está entre as causas mais frequentes de afastamento do mercado de trabalho. Entre os 14.065 casos, 4.517 são devido a ansiedade, segundo dados de 2024 do Ministério da Previdência. Em seguida está a depressão (3.313), depressão recorrente (1.701), transtorno bipolar (1.494) e esquizofrenia (998).
Para Eliege, o começo do tratamento foi difícil, uma vez que ela mesma demorou para aceitar que estava com ansiedade e disse ao médico que, por não conhecer a doença, teria se negado a tomar qualquer medicação. Os sintomas que ela sentia fez ela acreditar que era um problema estomacal, pois ela tinha diarreia frequente.
Pensei que era a comida do trabalho, parei de comer lá. Depois pensei que era a água, então parei de beber água no trabalho, mas ainda assim a diarreia continuava. Então, parei de comer em casa e, quando percebi, emagreci mais 30 quilos em um mês”, declarou Santos.
Ela trabalhava na área administrativa de uma empresa, onde as diversas demandas e prazos exigiam dela uma rápida resposta, o que gerou o transtorno. No entanto, Eliege só constatou isso depois de seis meses que foi desligada do trabalho.
“Fiz vários exames, mas não houve nenhuma alteração, tudo estava normal. Até que um médico falou que era ansiedade, e eu disse: ‘não conheço essa doença’. Não iniciei o tratamento. Assim, a diarreia ficava cada vez mais intensa, ao ponto de sair de casa com uma roupa extra, sabonete e papel higiênico”, relembrou Eliege.
Eliege começou a sentir os sintomas do transtorno em 2010, mas apenas em 2011 começou a se tratar, depois de uma crise fulminante de ansiedade. Através da terapia, ela aceitou o transtorno e iniciou o tratamento, descobrindo o porquê essa doença se desenvolveu.
A história dela converge com a trajetória de outra pessoa, que preferiu não se identificar, no mundo das forças armadas. Local que, segundo o desembargador Luís Carneiro do Tribunal Regional do Trabalho da Bahia da 5ª Região, está entre as profissões com maior incidência de risco de burnout e outros transtornos, seguidas por ocupações ligadas à saúde, educação, teleatendimento e transporte.
"Eu tinha dificuldade de me encontrar na vida militar, mas fui tentando por causa da estabilidade e do salário. Porém, teve um momento que não deu mais. Eu saí de mim e surtei. Durante o surto, pensei várias em me matar. Minha família me ajudou", contou a pessoa que passou por um esgotamento profissional extremo devido ao ambiente militar.
Segundo a Agência Brasil, não existe um estudo atual e específico sobre saúde mental nas Forças Armadas brasileiras, como acontece com os policiais civis e militares, por meio do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Na época, a pessoa entrevistada, que fazia parte de uma das forças, não encontrou o acolhimento necessário para se manter dentro da instituição e saiu do trabalho sem o atendimento médico.
Para a psicóloga Ariele Andrade, a rotina do trabalho influencia em como o profissional vai se comportar durante a descoberta do distúrbio e até mesmo na prevenção, “por isso que muitas empresas têm adotado, cada vez mais, o cuidado com a rotina, justamente na orientação do gestor, pensando na conduta correta, a forma de tratamento respeitosa durante um diálogo”.
A conversa entra como um fator motivacional enorme dentro da empresa, porque justamente vai aproximar os laços entre colaboradores e o gestor, fazer com que o dia seja mais leve”, contou Andrade, que atua na área de Recursos Humanos (RH).
Dentro das organizações que Eliege e a militar trabalhavam, não foram identificados os transtornos relacionados ao ambiente laboral durante o período de atuação, apenas depois e através de exames que evidenciaram a relação entre a saúde mental e o trabalho. Assim, com a descoberta e aceitação de ajuda psicológica e medicamentosa, o tratamento possibilitou uma melhor qualidade de vida de ambas.
“Enfrente! Você vai provar para si mesma que consegue, você vai conseguir! Tudo está na nossa cabeça”, falou Eliege, que conseguiu buscar ajuda médica, além de contar com o apoio familiar para encontrar a cura.
Centro de Valorização da Vida
O Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone, e-mail e chat 24 horas, todos os dias.
Ao ligar para o número 188, é possível ser atendido por um voluntário, com respeito, anonimato, que guardará estrito sigilo sobre tudo que for dito. Os voluntários são treinados para conversar com todas as pessoas que procuram ajuda e apoio emocional.
Atendimento gratuito
Para buscar apoio através de atendimento com profissionais de saúde mental, de forma gratuita, na capital baiana, basta recorrer aos serviços oferecidos pela prefeitura de Salvador, por meio da Secretaria Municipal de Saúde (SMS). Atualmente, o município, através da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), dispõe de vários pontos de atenção à saúde mental.
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