Polícia

Quando proteger também adoece: Bahia registra mais suicídios de policiais do que mortes em confrontos em 2024

Devid Santana/BNews
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública destaca a saúde mental dos policiais como uma questão crítica, com fatores como assédio moral e pressão institucional contribuindo para o aumento dos suicídios.  |   Bnews - Divulgação Devid Santana/BNews
Adelia Felix

por Adelia Felix

adeliafelix@bnews.com.br

Publicado em 24/07/2025, às 13h24 - Atualizado em 18/09/2025, às 00h50



Mais policiais da ativa tiraram a própria vida do que morreram em confrontos durante o serviço em 2024, na Bahia. Foram registrados cinco suicídios entre policiais militares no estado, contra dois agentes mortos em ação: um policial militar e um civil.

Os números, analisados pelo BNEWS, são do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O cenário desmonta o paradigma de que o perigo mora somente nas ruas. O confronto direto com a criminalidade é apenas uma parte do risco. É uma ferida que corrói silenciosamente a saúde mental dos policiais.

Para o psiquiatra Antonio Pedreira, com mais de 45 anos de experiência, o estigma da profissão é um obstáculo que atrapalha quem precisa de ajuda.

“A profissão policial requer da pessoa uma imagem de força, e por conta desse estereótipo, a busca por ajuda pode ser vista como um sinal de fraqueza, levando os policiais a aguentarem até não poder mais, desconsiderando os seus limites”, observa Pedreira.

O médico enfatiza que a falta de confiança nas instituições também pesa. Já que muitos policiais não acreditam que os serviços de apoio ofereçam confidencialidade ou sejam realmente eficazes.

“A pouca confiança de que os recursos existentes podem não ser confidenciais ou não lhes oferecerem o devido apoio pode ser um obstáculo para a busca por ajuda. O receio de que a identificação de qualquer transtorno na saúde mental possa prejudicar a carreira deles, ou mesmo vir a sofrer alguma discriminação ou punição, pode levar-lhe a preferir ocultar os sofrimentos psíquicos e silenciar”, completa.

SUICÍDIOS X CONFRONTOS
De acordo com o estudo, em 2023, o estado baiano registrou três suicídios entre policiais militares e nenhum caso de morte de policiais civis em serviço ou por suicídio.

Já em 2024, além dos cinco suicídios, houve um aumento também nas mortes violentas fora de serviço, especialmente entre PMs, que passaram de oito para nove casos, envolvendo confrontos ou lesões não naturais.

Devid Santana / BNEWS

Em termos proporcionais, a taxa de suicídio entre policiais da ativa no estado se manteve em 0,1 por mil, mas o crescimento percentual foi de 66,7%. Já as mortes em confronto em serviço representaram menos da metade desse número.

POR TRÁS DOS NÚMEROS
Os dados sobre suicídios entre policiais têm revelado uma realidade dolorosa, mas que, por vezes, permanece invisível para a sociedade e para as próprias instituições.  No documento, foram destacadas “seis condicionantes laborais”: assédio moral; a admissão do papel de “policial herói”; o desgaste físico e mental em razão do contato continuado com situações de perigo; a cobrança institucional pelo cumprimento de metas; o endividamento; e a insegurança jurídica.

A pesquisa observa que a profissão de policial carrega especificidades que a diferenciam de outras ocupações e que, podem agravar ainda mais a saúde mental desses profissionais. Além da exposição ao risco, a análise indica que os policiais vivem sob um conjunto rígido de normas e responsabilidades que nem sempre são visíveis para o público.

“Os policiais, principalmente os militares, não têm a opção de escolher viver em qualquer lugar, mesmo que o lugar seja aquele em que foi criado e passou toda sua vida. Podem não matricular seus filhos na escola mais próxima de sua casa ou  frequentar determinados ambientes. Não porque não possam, mas por uma questão de segurança própria e dos seus”, diz trecho da análise feita por especialistas no estudo.

Essa rotina, de acordo com a análise, traz um desgaste contínuo que vai além do aspecto físico, atingindo o psicológico de maneira profunda. A vulnerabilidade constante afeta não só os policiais, mas também seus familiares, criando um ciclo difícil de romper.

Frente a esse quadro, o psiquiatra Antonio Pedreira reforça a necessidade de programas permanentes de atendimento psicológico, revisão de escalas e redução da sobrecarga de trabalho.

O médico explica que a implementação dessas práticas é fundamental para redução significativa do estresse e dos casos de Burnout. Ele defende que sejam criadas políticas claras de suporte à saúde mental, garantindo que os policiais busquem ajuda sem medo represálias ou punições inesperadas.

DIVULGAÇÃO / PF

O QUE A PM TEM FEITO?
Em nota enviada para reportagem, a PM destacou que os policiais e seus familiares têm acesso a atendimentos clínicos e psicoterápicos, individuais e em grupo, com foco na regulação psicoemocional. A corporação promove ainda ações preventivas, como palestras, rodas de conversa, mesas redondas, simpósios e colóquios, que incentivam o diálogo sobre saúde mental e valorização da vida. 

Um destaque é o Programa de Acompanhamento e Apoio ao Policial Militar, voltado para agentes envolvidos em ocorrências com resultado morte, que inclui avaliação técnica, acompanhamento psicológico e atividades de capacitação. A PM também adotou um protocolo específico para prevenção e posvenção de suicídios, padronizando procedimentos diante de ideação, tentativa ou consumação, e garantindo atendimento em todo o estado, inclusive por teleatendimento e clínicas conveniadas em regiões mais distantes.

COMO A POLÍCIA CIVIL TEM AGIDO?
Segundo o diretor do Departamento de Gestão de Pessoas, Saúde e Valorização Profissional da Polícia Civil (DPSV), Gésse de Souza Silva, a PC oferece atendimento psicológico e social contínuo para policiais e familiares, com equipes de psicólogos, assistentes sociais e enfermeiros que realizam buscas ativas nas unidades por meio do projeto DPSV ao Seu Lado. 

Além disso, a corporação também realiza atendimentos estratégicos em unidades como DHPP e Complexo do Ongujá, além de teleatendimento para policiais do interior. Entre as ações de prevenção, o diretor destaca o curso de 20 horas sobre Abordagem e Prevenção do Suicídio, que já formou mais de 200 profissionais, e o programa Apoio aos Enlutados, voltado a policiais e familiares após falecimentos.

Gésse destacou também que a polícia prepara a formalização do Programa de Atendimento a Policiais que vivenciam situações traumáticas, que sistematizará o acompanhamento pós-trauma na capital e no interior.

"Esse acompanhamento já acontece na prática, mas a portaria vai permitir sistematizar melhor as ações, tanto na capital quanto no interior do estado. No interior, por exemplo, já contamos com salas de atendimento nas sedes das Coordenações Regional de Polícia do Interior, além do serviço de teleatendimento, que possibilita acolher os policiais de forma mais rápida e acessível", disse.

CENÁRIO NACIONAL
No Brasil como um todo, o total de suicídios entre policiais da ativa caiu de 137 para 126 entre 2023 e 2024, uma redução de 8%. Ainda assim, o número segue alto, evidenciando que a situação da Bahia não é isolada, mas parte de um problema estrutural.

Com base nos dados enviados pelos entes federativos ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os 10 estados que tiveram um aumento no número de suicídios de policiais da ativa (somando Polícia Civil e Polícia Militar) no período analisado são:

  • Paraná: Os casos dobraram, subindo de 6 para 12.
  • Rio Grande do Sul: O estado registrou um aumento de 5 casos, de 11 para 16.
  • Distrito Federal: Salto de 1 para 5.
  • Bahia: O número de casos subiu de 3 para 5.
  • Ceará: Registrou um aumento de 8 para 10.
  • Pernambuco: Os casos subiram de 4 para 6.
  • Minas Gerais: Teve um aumento de 1 caso, de 9 para 10.
  • Alagoas: Os casos subiram de 1 para 3.
  • Santa Catarina: O estado registrou um aumento de 1 caso, de 2 para 3.
  • Mato Grosso do Sul: O número de casos subiu de 3 para 4.

Classificação Indicativa: Livre

Facebook Twitter WhatsApp Google News Bnews


Cadastre-se na Newsletter do Bnews (Beta)