☰
✕

Saúde

Quanto custa tratar um câncer de mama? Os gastos que aparecem e os que ninguém conta

Além de consultas, exames e medicamentos, pacientes enfrentam gastos com transporte, alimentação e cuidados com os efeitos colaterais  |  Magnific

Publicado em 23/10/2026, às 05h00   Magnific   Sophia Souza

Receber o diagnóstico de câncer de mama também pode significar enfrentar uma série de despesas que vão além de consultas, exames e procedimentos médicos.

Clique aqui e inscreva-se no canal do Bnews no Youtube.

Siga o BNews no Google e receba as principais notícias no seu celular

Mesmo quando o tratamento é coberto por um plano de saúde ou realizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), os custos com medicamentos para aliviar os efeitos colaterais, alimentação, transporte e acompanhamento após cirurgias podem pesar no orçamento das pacientes e de suas famílias.

Foi o que aconteceu com Greci Campos, diagnosticada com câncer de mama. Ela conta que mantinha um plano de saúde particular, que passou a ser sua principal forma de acesso ao tratamento. A mensalidade, que já representava uma despesa significativa, tornou-se um compromisso financeiro que não poderia ser interrompido após a descoberta da doença.

“Eu tinha um custo só de plano de saúde em torno de R$ 900 a R$ 1 mil, que era um custo bem elevado”, relata.

Embora o plano cobrisse o tratamento oncológico, outras necessidades exigiam gastos adicionais. Medicamentos para controlar enjoos e alterações no funcionamento do intestino, suplementação alimentar e mudanças na dieta passaram a fazer parte da rotina.

Para Greci, esses custos mostram que o valor do tratamento não se resume aos procedimentos médicos.

Medicamentos, alimentação e cuidados complementares

Durante o tratamento, as pacientes podem precisar de cuidados específicos para lidar com os efeitos colaterais da quimioterapia e de outros procedimentos. No caso de Greci, as mudanças no paladar provocadas pela quimioterapia exigiram adaptações na alimentação, com orientação de uma nutricionista vinculada ao plano de saúde.

“Você tem que mudar a alimentação, a alimentação é um pouco mais saudável”, conta. Segundo ela, a quimioterapia interfere na percepção dos sabores e exige adaptações para que a paciente consiga continuar se alimentando adequadamente.

A necessidade de cuidados complementares também aparece no relato de Romilda Medrado, fundadora do Núcleo Assistencial para Pessoas com Câncer (NASPEC), em Salvador. Ela, que já enfrentou câncer de mama nos dois seios, acompanha de perto as dificuldades financeiras de pacientes oncológicos e chama a atenção para despesas que podem passar despercebidas.

“Você tem que ter protetor solar, você tem que ter uma alimentação diferenciada, você tem que cuidar dos dentes, você tem que cuidar da pele, você tem que cuidar de remédio, medicação, o efeito colateral do tratamento”, afirma.

Romilda também destaca os gastos com perucas e sutiãs adaptados para mulheres que passaram por mastectomia e não realizaram a reconstrução mamária. Essas despesas se somam aos custos médicos e podem afetar tanto o orçamento quanto a autoestima das pacientes.

Transporte e fisioterapia aumentam as despesas

O deslocamento para consultas e procedimentos é outro custo que pode se acumular ao longo do tratamento. Greci relata que precisou se deslocar diariamente para realizar sessões de radioterapia durante 15 dias. Depois da mastectomia, também fez fisioterapia por vários meses, prolongando os gastos com transporte e atendimento.

“Eu tive que fazer fisioterapia por longos meses. Aí tinha também o deslocamento, a realização das fisioterapias, que também é uma despesa”, explica.

Para quem mora no interior da Bahia e precisa buscar atendimento em Salvador, a dificuldade pode ser ainda maior. Romilda relata que alguns pacientes precisam pagar por diferentes trajetos para chegar ao local de tratamento, desde o deslocamento de um distrito até a sede do município até a viagem para a capital.

“Às vezes eles têm que pagar van da roça, do distrito, até a cidade, da cidade para aqui para Salvador, da rodoviária para aqui para poder chegar”, conta.

Segundo a fundadora do NASPEC, a falta de apoio para o transporte pode levar pacientes a comprometer os poucos recursos financeiros disponíveis e, em alguns casos, até a interromper o tratamento. Ela também relata situações em que pessoas precisaram vender pertences para custear as viagens.

O impacto financeiro vai além das despesas hospitalares

No caso de Greci, uma das alternativas para enfrentar as despesas foi recorrer ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Ela conta que conseguiu sacar o saldo acumulado ao longo de vários anos de trabalho e utilizar o dinheiro para custear parte dos gastos relacionados à doença.

“Eu saquei uma quantia grande que eu tinha, de vários anos de trabalho, e isso ajudou a custear muitas das despesas para o tratamento”, relata.

A experiência mostra como recursos acumulados antes do diagnóstico podem ajudar a enfrentar os custos que surgem durante o tratamento. Ao mesmo tempo, evidencia que as despesas não se limitam aos valores cobrados pelo atendimento médico. Mesmo com a cobertura do plano de saúde, Greci precisou reservar dinheiro para medicamentos de suporte, alimentação e deslocamentos.

O impacto financeiro também pode atingir a renda familiar. De acordo com Romilda, algumas mulheres enfrentam a perda do emprego ou dificuldades para manter suas atividades profissionais enquanto lidam com os efeitos do tratamento.

“O câncer não é uma doença só do doente, é uma doença que atinge a família, que mexe no bolso da família, mexe no poder aquisitivo e, às vezes, também muitas dessas mulheres são provedoras”, afirma.

Quando a paciente é responsável pelo sustento da casa, a redução da renda pode tornar ainda mais difícil conciliar as despesas domésticas com os cuidados necessários. O dinheiro destinado ao tratamento passa a disputar espaço com gastos essenciais, como alimentação e moradia.

Acesso à informação pode ajudar a reduzir os custos

Greci ressalta que, além de conhecer os recursos de assistência disponíveis, é importante buscar informações sobre os direitos das pessoas diagnosticadas com câncer. Ela cita o saque do FGTS e os benefícios previdenciários entre as possibilidades que podem ajudar a enfrentar o período de tratamento, conforme os critérios aplicáveis a cada caso.

A paciente também recomenda procurar organizações que orientam pessoas com câncer sobre seus direitos e as formas de acesso a benefícios.

“Existem ONGs que dão orientação jurídica em relação aos direitos, direitos trabalhistas, direitos do paciente oncológico que pode dar um norte e orientação em relação aos direitos para minimizar os custos de tratamento”, afirma.

Ela destaca ainda que o SUS oferece medicamentos, tratamentos e terapias, embora a demanda pelos serviços possa dificultar o acesso em determinadas situações. Como já havia iniciado o tratamento pelo plano de saúde, Greci optou por continuar nessa modalidade.

As possibilidades de acesso a benefícios variam conforme a situação de cada paciente e as regras de cada programa. Por isso, a recomendação é buscar informações em canais oficiais antes de contar com determinado recurso para custear as despesas.

Rede de apoio tenta diminuir o peso financeiro

Em Salvador, o NASPEC oferece acolhimento gratuito a pessoas com câncer, especialmente àquelas que vêm de municípios do interior para realizar tratamento na capital. A instituição busca auxiliar com necessidades como alimentação, medicamentos e orientação para o acesso a benefícios sociais.

O trabalho também contempla os acompanhantes, que frequentemente precisam permanecer ao lado dos pacientes durante o tratamento. A instituição se mantém por meio de doações, bazares, eventos, campanhas e parcerias.

Para Romilda, a assistência precisa considerar as condições concretas de vida de quem enfrenta a doença. Afinal, ter acesso a um procedimento médico não elimina automaticamente os gastos com transporte, alimentação e cuidados complementares necessários para dar continuidade ao tratamento.

A experiência de Greci também reforça essa realidade. Mesmo com um plano de saúde que cobria o tratamento oncológico, ela precisou arcar com uma série de despesas adicionais e recorrer a recursos acumulados ao longo de anos de trabalho.

O custo do câncer de mama, portanto, não se limita às despesas diretamente relacionadas ao hospital. Ele também aparece nas viagens, nos medicamentos de suporte, nas mudanças da rotina e na necessidade de reorganizar as finanças para garantir a continuidade do tratamento.

Classificação Indicativa: Livre


Tagscâncermamarenda familiartransportetratamento

Leia também


O trabalho depois do diagnóstico: quais são os direitos da mulher com câncer de mama?


Plano de saúde negou tratamento contra o câncer de mama? Saiba quais são os direitos do paciente