Entrevista

Cacá não descarta candidatura independente de João Leão a governador da Bahia: "Ninguém pode dizer que 'dessa água não beberei'

[Cacá não descarta candidatura independente de João Leão a governador da Bahia: "Ninguém pode dizer que 'dessa água não beberei']
21 de Setembro de 2021 às 15:53 Por: Victor Pinto*

O deputado federal Cacá Leão não descartou (PP), em entrevista ao BNews diretamente de Brasília, uma candidatura independente de seu pai, o atual vice-governador da Bahia, João Leão, a governador do Estado no próximo ano. "Ninguém pode dizer que "dessa água não beberei", afirmou à reportagem na sala de reunião da liderança do PP na Câmara Federal.

Durante a conversa, o parlamentar, que é líder do partido na Câmara Federal, disse não ver constrangimento na sigla fazer parte do governo Bolsonaro e, simultaneamente, se aliar ao PT na Bahia. "A gente é grande justamente por respeitar as diferenças que acontecem nos Estados. [...] A nossa posição na Bahia será respeitada a nível nacional".

Confira abaixo a entrevista com o deputado concedida ao editor Victor Pinto:

BNews: Como o senhor tem acompanhado essa mudança da legislação eleitoral? A gente tem uma PEC tramitando no Senado e uma reforma na Câmara.

Cacá Leão: São duas coisas distintas, né? A PEC trata de uma reformulação na questão eleitoral, volta de coligações; e o código regulamenta a questão eleitoral, que é uma coisa que era feita ultimamente muito por resolução do próprio TSE, né? A gente ficou à mercê há dois anos, por exemplo, de uma resolução do TSE faltando menos de dois meses pra eleição, quando eles colocaram a questão das cotas pra negros e pardos. A gente já tava pra ir pro processo eleitoral, entendeu?

Então a gente fez um esforço muito grande. A relatora, deputada Margarete Coelho (PI), que é do nosso partido, fez um trabalho brilhante. São 900 artigos, é um trabalho muito grande, que começou a ser discutido aqui desde fevereiro, quando o presidente Arthur Lira (PP-PI) assumiu o mandato, e acho que traz uma regulação muito importante pro código, pro processo eleitoral como um todo. Acho que o trabalho ficou muito bem feito. É claro que tem alguns pontos que são polêmicos, que ainda vão ser discutidos no Senado.

Eu, particularmente, não acho que vá conseguir ficar pronto até o mês que vem, respeitando a questão da anualidade. Eu acho que não vai dar tempo para valer para a próxima eleição. Eu acho que a PEC, o Senado tá discutindo, inclusive, tá tendo reunião de líderes agora, onde tá fazendo essa discussão, já foi pautada na CCJ, o senador Jorginho Melo pediu vista e deve devolver nessa próxima semana e deve ser votada nos próximos dias. E, aí, a gente tá aguardando o que é que o Senado vai decidir. São duas Casas, apesar de terem funções parecidas, mas são duas Casas distintas e a gente vai ter que respeitar a posição dos senadores. Eles pensam diferente da posição daqui da Câmara.

BNews: Depois da radicalização do presidente Jair Bolsonaro no dia 7, a página já está virada aqui no Congresso? O assunto já foi pacificado e os projetos importantes do governo serão tocados?

Leão: A Câmara nunca deixou de votar os projetos que a maioria dos deputados, a gente vive numa democracia, entendem que são importantes pro Brasil, né? A gente votou medidas provisórias importantes, a gente votou a questão da capitalização da Eletrobrás, a gente votou a privatização dos Correios. Então, a gente votou matérias importantes, e algumas dessas matérias ainda não caminharam no Senado. Então, eu não vejo essa dificuldade política aqui dentro da Câmara dos Deputados.

É uma dificuldade maior que o governo tem tido de relacionamento com o Senado Federal. Mas, eu acho que foi um gesto importante o do presidente da República. Eu não faço coro com os que criticam. As manifestações do dia 7 - apesar de terem sido pacíficas, de respeito à bandeira do Brasil, à democracia, uma das datas mais importantes que a gente tem - eu, particularmente, fiquei feliz quando o presidente voltou atrás em algumas das declarações que deu. Principalmente, na parte que diz respeito às instituições, né? São Poderes distintos que precisam ser respeitados.

BNews: Como fica a situação do PP, de certo modo integrando o governo Bolsonaro, que é um rival do PT? Não tem nenhum constrangimento quanto a isso?

Leão: Olha, o PP, hoje, é o terceiro maior partido do Congresso. Estamos entrando hoje com 42 deputados. Somos 41 atualmente, mas hoje foi oficializada a cassação do deputado Boca Aberta (PR), que é do PROS, e vai assumir no seu lugar o deputado Osmar Ferrari, que é do PP. Então, a gente, a partir de hoje, volta a ter a terceira maior bancada na Câmara dos Deputados.

Então, a gente é grande justamente por respeitar as diferenças que acontecem nos Estados. Cito como exemplo as eleições de 2018, onde o nosso partido, ele tinha a candidata à vice-presidente na chapa do Geraldo Alckmin [senadora Ana Amélia (RS)], e na Bahia o partido tomou a decisão que lhe cabia e que desejava naquele momento, que era acompanhar a candidatura do Partido dos Trabalhadores, acompanhar o nosso grupo político, que nós fazemos no Estado.

Elegemos quatro deputados federais, sete deputados estaduais, depois passamos pra dez deputados estaduais, com os partidos que não atingiram a cláusula de barreira, três deputados estaduais migraram pro nosso partido. Então, a gente tem hoje um dos maiores partidos do Estado da Bahia e a nossa posição na Bahia será respeitada a nível nacional.

BNews: Agora sobre a chapa. Esse tensionamento de Leão dizendo que vai ser governador não tensiona o grupo e pode provocar um racha?

Leão: Não. Eu acho que esse é o momento de discussão, onde os partidos que compõem a nossa base aliada - que hoje é capitaneada pelo governador Rui Costa (PT) - apresente os seus nomes e, aí, é mais do que natural que o Partidos dos Trabalhadores apresente o nome do ex-governador Jaques Wagner, o senador Otto Alencar (PSD) também se coloque - apesar dele próprio nunca ter se colocado diretamente, mas seus aliados o colocam também como pré-candidato ao Governo da Bahia. E o nosso partido tem o vice-governador João Leão como o seu maior expoente no Estado hoje.

É um homem que foi prefeito, foi deputado federal por cinco mandatos e é vice-governador há oito anos de um projeto de sucesso. Então é natural que o nosso partido, capitaneado pelo vice-governador, também deseje participar desse processo, capitanear esse processo. Essa é a defesa que o partido Progressistas faz dentro da nossa base, conversando e construindo isso dentro dos partidos que compõe nosso arco de aliança.

Eu, particularmente, dialogo muito bem com os amigos do PSB, do PCdoB, até do próprio PDT. Eu tenho uma relação muito boa com o deputado Félix [Mendonça, presidente estadual], o PL, o Podemos, do deputado Bacelar, o Avante. Eu aprendi, rapaz - isso é uma coisa minha, não é bem de política, é de vida -, eu acho que a gente tem que fazer amigos. Ninguém faz nada sozinho. Ninguém chega a lugar nenhum se for sozinho, querendo ser dono de si. Eu, particularmente, procuro transitar. Tenho grandes amigos na oposição, não escondo de ninguém a relação de amizade que tenho com expoentes que compõem a oposição hoje.

Mas, entendo que a gente vive um momento de discussão, da chapa majoritária, um momento de discussão política. Até o ano que vem o que vai prevalecer é exatamente dialogar, conversar, fazer com que as coisas fiquem mais claras pro processo eleitoral que está por vir. A gente tá a pouco mais de 12 meses a um ano do processo eleitoral. A gente vai chegar aí próximo dessas discussões no mês de abril. Elas vão se afunilar mesmo é próximo a junho, julho, que são as convenções partidárias. Então, a gente vai caminhar. Eu acho que este momento é um momento de dialogar, de construir. É isso que o vice-governador João Leão está fazendo. Conversando com todos, dialogando com todos, tentando apresentar o seu projeto pra que, no momento oportuno, esse projeto possa ser abraçado pela nossa base aliada. Esse é o desejo de todos.

BNews: Corre o risco de, caso Leão não seja alçado a candidato a governador, dele ser candidato independente na disputa?

Leão: Olha, o processo tá muito longe. Há, obviamente, um desejo do vice-governador João Leão de ser candidato a governador, mas eu prefiro afirmar, nesse momento, o desejo dele de construir e de ser candidato dentro do nosso grupo político. Agora, ninguém pode dizer que "dessa água não beberei".

BNews: Não falta ao PP renovação de nomes e quadros pra ter uma oxigenação e, aí, ter um leque na hora de, por exemplo, a vice ser ofertada pra vocês?

Leão: Isso é natural da política, né? Ninguém quer voltar atrás dentro dos processos. A gente pode ver aí o exemplo do Partido dos Trabalhadores. Jaques Wagner fez seu sucessor, Rui Costa, e agora trabalha seu retorno, entendeu? Mas acho que o nosso partido trabalha essa questão da renovação de deputados estaduais. A gente tem aí grandes figuras na Assembleia Legislativa do Estado, o próprio Nelson Leal, o líder do partido, deputado Eduardo Salles. A gente tem aqui a nossa função de líder da bancada na Câmara dos Deputados. A gente tem os outros três deputados federais do partido ocupando posições importantes aqui dentro da Câmara dos Deputados e do Congresso Nacional: deputados Mário Negromonte Júnior, Ronaldo Carletto e Cláudio Cajado.

Então, esse sentimento de renovação e essa renovação ela acontece. Agora, faz parte do processo. São figuras que, apesar de já estarem na casa dos 70, são figuras jovens de vida e mentalidade. O próprio vice-governador João Leão tem mais energia que nós dois juntos, que, somados, não temos a idade dele. O vice-governador João Leão costuma brincar e dizer que vai viver 200 anos, né? Pela causa da sua vitalidade, vontade de fazer e de construir. Então, essa vontade que o vice-governador João Leão tem anima o nosso partido e faz com que as lideranças que estão surgindo acompanhe essa pluralidade e essa vontade. E a renovação vai acontecer na hora certa. 

BNews: O PDT saiu da base do governador Rui Costa e aderiu à base do ex-prefeito de Salvador ACM Neto (DEM). A tendência é que o PP consiga "abocanhar" esses deputados que o partido foi pra oposição, mas eles ainda querem continuar na situação?

Leão: Olha, há um diálogo com o deputado Alex [Santana] e com o deputado Samuel Júnior. Nós fizemos, inclusive, uma conversa na última segunda-feira, onde, textualmente, foi feito o convite a eles pra ingressarem no partido. Eles ainda tem um processo de expulsão pela frente pra enfrentarem. Isso não é uma coisa que deve se resolver de um dia pro outro. Mas são duas grandes figuras, dois amigos. O deputado Alex é  um parceiro que eu tenho aqui em Brasília. Volta e meia, apesar de ser do PDT, tá aqui na liderança no meio dos deputados.

Então, eu acho que é uma vontade que não é só nossa, é uma vontade que já existe há algum tempo, dessa aproximação. E assim também é com o deputado Samuel Júnior lá na Assembleia. Ele tem uma amizade com os nossos deputados estaduais. Caso se concretize a vinda dos dois para o Progressistas, eles serão muito bem-vindos ao nosso partido. 

BNews: Você acha que em 2022 não vai haver a nacionalização na Bahia, com um candidato a presidente puxando o candidato a governador?

Leão: Eu acho que ainda tá muito cedo pra gente ter a noção disso. Isso vai depender muito da força das candidaturas majoritárias. Por exemplo, eu tenho a sensação de que na última eleição o governador Rui Costa foi quem puxou a candidatura do Fernando Haddad, como Wagner foi puxado por Lula lá atras, que acabou Wagner puxando Dilma. Então, isso é, na minha opinião, um processo de quem vai ter mais força naquele momento.

*O editor de política do BNews viajou a Brasília para cobertura da CPI da Pandemia

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