Artigo
por Henrique Brinco
Publicado em 18/02/2026, às 06h01 - Atualizado às 06h02
O Carnaval de Salvador em 2026 foi grandioso em público, números e visibilidade. Isso não se discute. Mas, por trás do discurso oficial de sucesso, acumulou-se uma sequência de episódios que expôs falhas graves de organização e gestão. A desordem deixou de ser pontual e passou a ser estrutural.
Os atrasos sucessivos nos trios elétricos não foram meros contratempos. Viraram rotina. Artistas reclamaram da ordem de saída (divulgada, diga-se, de última hora). Blocos enfrentaram congestionamentos nos circuitos e foliões aguardaram horas além do previsto em filas quilométricas na Barra. A programação, que deveria ser o coração logístico da festa, mostrou-se frágil. E, quando o cronograma falha em um evento dessa magnitude, o impacto é coletivo.
O Crocodilo, liderado por Daniela Mercury, entrou com um mandado de segurança solicitando que seu bloco abrisse os desfiles, em respeito à história de três décadas do bloco. Nos dias seguintes, contudo, o Tribunal de Justiça suspendeu os efeitos da liminar, restabelecendo a ordem oficial previamente definida pela prefeitura, pelo Conselho Municipal do Carnaval (Comcar) e pela Saltur, sob o argumento de que mudanças às vésperas do evento comprometeriam a logística, os contratos e a segurança da festa. Mas a dúvida que fica, é: Daniela foi chamada para conversar antes?
Não é admissível, também, que tantos trios tenham apresentado falhas técnicas em sequência. Como foi feita essa fiscalização? Pior ainda é não haver um plano de emergência para que o fluxo dos desfiles continue diante desses problemas. Ou alguém acha plausível que um único bloco cause bloqueios de até três ou quatro horas nos blocos, como vimos no domingo no Circuito Dodô?
Outro episódio que gerou indignação foi a denúncia de ambulantes sobre refeições distribuídas pela prefeitura com sinais de deterioração. Trabalhadores relataram alimentos com odor e sabor inadequados. A gestão municipal admitiu problemas logísticos nos primeiros dias, mas o dano já estava feito.
O prefeito Bruno Reis, que já foi mais polido em seus discursos, atraiu para si polêmicas desnecessárias. A situação se agravou com a morte de uma estudante atropelada por um caminhão de limpeza urbana durante a folia.
Ao comentar o caso, o gestor prontamente transferiu a responsabilidade para a própria vítima, em vez de adotar uma postura centrada na revisão de protocolos e na responsabilidade do poder público sobre a circulação de veículos em área festiva. O discurso soou defensivo e até um tanto insensível. Ou alguém espera que uma festa patrocinada por uma grande cervejaria não tenha foliões alcoolizados?
O Carnaval de Salvador continua sendo uma das maiores festas populares do mundo. Não se trata de negar a potência cultural e econômica do evento, mas números positivos não anulam falhas administrativas.
Entre o marketing institucional e a experiência real de quem estava nos circuitos, houve um descompasso evidente. Em 2026, a folia aconteceu. Mas a ordem, definitivamente, não.
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