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Carnaval: Após ser acusada de trabalho análogo à escravidão, Ambev volta a ser criticada pelos ambulantes

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Ambulantes criticam a Ambev após confusão na entrega de kits de trabalho durante o Carnaval em Salvador, gerando frustração  |   Bnews - Divulgação Reprodução/BNews e Divulgação/MTE
Analu Teixeira

por Analu Teixeira

Publicado em 05/02/2026, às 06h12



A Ambev voltou a ser alvo de críticas de ambulantes que vão atuar no Carnaval de Salvador após mais um episódio de confusão na organização do trabalho dos vendedores credenciados para a festa. Nesta quarta-feira (4), a retirada dos kits de trabalho e dos cartões de transporte público foi marcada por desorganização, filas intermináveis, frustração e relatos de furtos na Rua Afonso Celso, no bairro da Barra.

Desde as primeiras horas da manhã, ambulantes relataram dificuldades para receber o material, mesmo após terem cumprido todas as etapas exigidas no credenciamento. Muitos chegaram por volta das 8h, horário divulgado pela Prefeitura de Salvador, mas deixaram o local sem qualquer resposta concreta.

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“Meu nome estava aprovado no sistema. Cheguei aqui, enfrentei uma fila enorme e agora dizem que estou na reserva. Isso é falta de administração. Vim para trabalhar e volto para casa sem nada”, desabafou o ambulante Alexandre, em entrevista ao BNews.

Outro vendedor, que preferiu não se identificar, afirmou ter perdido o dia inteiro. “É constrangedor. Informaram que a entrega seria do dia 4 ao dia 6. Chego aqui e dizem que meu nome não vale. É tempo e dinheiro jogados fora”, criticou.

Moradores da região também reclamaram da logística adotada pelo poder público. Para André Melique, morador da Rua Afonso Celso, a escolha do local agravou ainda mais a situação. “É a única rua de acesso para quem mora e trabalha aqui. Virou um caos. Não é contra o Carnaval nem contra os ambulantes, é falta de organização mesmo”, afirmou.

Mesmo entre os que conseguiram retirar o kit, a queixa foi de demora excessiva. “Foi muito desorganizado este ano. A espera foi enorme. Ano passado foi melhor”, relatou Fernando Barbosa.

Os kits distribuídos incluem isopor, cadeado, sombreiro, camisa com proteção UV, protetor solar e capa de chuva. Já o cartão de transporte garante 11 passagens gratuitas para o ambulante e um acompanhante durante o período da festa.

Fantasma do ano passado volta a assombrar


A confusão ocorre pouco mais de um ano após a Ambev e a Prefeitura de Salvador terem sido responsabilizadas pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) por exploração de trabalho análogo à escravidão de 303 ambulantes durante o Carnaval de 2025, no circuito Barra-Ondina.

Na ocasião, auditores fiscais constataram jornadas exaustivas de até 20 horas diárias, ausência de pausas adequadas, falta de acesso à água potável e inexistência de condições mínimas de higiene e descanso. Para garantir os pontos de venda, muitos trabalhadores chegaram a dormir nos próprios circuitos, expostos à violência, às intempéries e à privação de sono.

Segundo o MTE, a Ambev atuava não apenas como patrocinadora, mas também como responsável pelo pagamento dos vendedores, assumindo papel de empregadora. A Prefeitura foi corresponsabilizada por conceder exclusividade na venda de bebidas e por falhas na fiscalização das condições de trabalho.

À época, a Ambev afirmou que os ambulantes eram autônomos, credenciados pelo município, e negou vínculo empregatício. A Prefeitura declarou não ter sido autuada e destacou ações voltadas à melhoria das condições de trabalho da categoria.

Apesar das promessas de avanços, a situação registrada neste início de Carnaval reforça, entre os ambulantes, a percepção de que os problemas estruturais seguem sem solução. Para muitos, a desorganização na entrega dos kits é apenas mais um reflexo da precarização enfrentada por quem depende da festa para garantir renda.

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