Artigo

BTS ameaça o trono dos Beatles e prova que o poder de mobilização dos fãs continua imbatível

Reprodução / Redes Sociais
Com shows marcados no Brasil para 28, 30 e 31 de outubro, BTS promete emocionar fãs e reafirmar seu status na indústria musical  |   Bnews - Divulgação Reprodução / Redes Sociais
Cauan Borges

por Cauan Borges

borgesjornalismo2023@gmail.com

Publicado em 28/10/2026, às 06h30



O BTS desembarcou em São Paulo nesta semana para três apresentações no Estádio do Morumbi, nos dias 28, 30 e 31 de outubro, com a turnê mundial “ARIRANG”. O retorno do grupo aos palcos após o período dedicado aos projetos solo e ao cumprimento do serviço militar obrigatório na Coreia do Sul marca um novo capítulo na trajetória de um dos maiores fenômenos da música pop contemporânea. 

📲 Clique aqui e inscreva-se no canal do BNews no Youtube!

Siga o BNews no Google e receba as principais notícias no seu celular

Google News Bnews

Em 2014, o primeiro encontro do BTS com fãs no país, também em SP, reuniu entre 1.500 e 2 mil pessoas. No ano seguinte, o primeiro show oficial de turnê atraiu cerca de 8 mil espectadores. Hoje, a primeira das três apresentações no Morumbi mostrará a dimensão alcançada pelos filhos prediletos da República da Coreia.

Formado por RM, Jin, SUGA, j-hope, Jimin, V e Jung Kook, o septeto sul-coreano ultrapassou as fronteiras do K-pop e conquistou espaço na indústria fonográfica internacional, levando a música produzida na Ásia a públicos que, durante décadas, tiveram o mercado ocidental como principal referência. No Brasil, a expectativa em torno dos shows também revela como a relação com os fãs se transformou ao longo dos anos.

Do outro lado do mundo, a dimensão do fenômeno de Seul remete à trajetória dos ‘Garotos de Liverpool’, mais conhecidos como Os Beatles, que, entre 1960 e 1970, redefiniram a relação entre artistas e público e protagonizaram a chamada “Beatlemania". A mobilização de multidões, a identificação dos jovens com os integrantes e a influência sobre o comportamento de uma geração encontram paralelos no ARMY, como é conhecida a comunidade global de fãs do BTS. 

📲 Clique aqui e leia a última matéria da coluna de cultura!

Contudo, existem diferenças importantes entre os períodos de dominância dos dois grupos. Enquanto o quarteto britânico expandiu sua popularidade por meio do rádio, da televisão e da venda de discos, o grupo sul-coreano prepondera em uma indústria conectada, na qual as redes sociais e as plataformas de streaming permitem que lançamentos atravessem fronteiras em poucos instantes – ou até de forma instantânea.

Além dos cabelos e roupas irreverentes em suas determinadas épocas, a comparação entre os artistas não se limita à dimensão das multidões, mas envolve a capacidade de ambos de transformar o consumo musical em uma experiência cultural compartilhada.

Números ajudam a dimensionar a trajetória do BTS

Em 2017, “DNA” entrou na Billboard Hot 100, principal parada de singles dos Estados Unidos, enquanto o remix de “MIC Drop”, produzido com a participação de Steve Aoki, permaneceu dez semanas na lista. No ano seguinte, “FAKE LOVE” alcançou a décima posição da mesma parada, e o álbum “Love Yourself: Tear” estreou no primeiro lugar da Billboard 200, e consolidou a presença do grupo no mercado norte-americano. 

Em 2020, “Dynamite”, primeiro single inteiramente em inglês do septeto, tornou-se a primeira música de um artista de K-pop a estrear no topo da Hot 100 e permaneceu na liderança por três semanas (acho que todo mundo já ouviu essa).

A procura pelos ingressos da turnê "ARIGANG" atingiu proporções apoteóticas, com uma demanda estimada de 3,7 milhões de entradas e 1,9 milhão de pessoas tentando comprar ingressos simultaneamente. As três apresentações esgotaram em apenas 90 minutos e têm público total previsto de 253,3 mil pessoas. 

Segundo estimativas da SPTuris, os shows podem movimentar R$330 milhões na capital paulista, enquanto a venda de ingressos deve gerar R$260 milhões em faturamento bruto. Com 64% dos compradores vindos de outros estados, o BTS também impulsiona o turismo, a hotelaria e o transporte, por conta da chegada de fãs de todos os cantos do território brasileiro.

Com o lançamento do novo álbum que possui faixas como "SWIM", "Like Animals", e "Hooligan" o Brasil acumulou 78,6 milhões de reproduções na primeira semana, tornando-se o segundo país que mais ouviu o disco no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. No mesmo período, os streams do BTS no Spotify Brasil cresceram 727%, enquanto 14 faixas do álbum chegaram simultaneamente ao Top 200 da plataforma no país.

Em suma, o BTS consegue competir (e até mesmo dominar) em um mercado historicamente concentrado em artistas ocidentais, sem depender exclusivamente de canções em inglês para conquistar audiência internacional. Mesmo que nos últimos anos o grupo tenha adotado o movimento de americanização da sua sonoridade e identidade, o que é uma pena.

Relação com as fãs

Em parceria com a UNICEF, o grupo lançou a campanha “Love Myself”, voltada ao combate à violência contra crianças e adolescentes, e levou mensagens sobre os desafios da juventude à Organização das Nações Unidas entre 2018 e 2021. O discurso sobre autoestima e aceitação ajudou a fortalecer o vínculo com uma base de fãs que encontrou nos integrantes mais do que ídolos musicais.

As armys transformaram essa identificação em uma força capaz de mobilizar multidões nas redes sociais, impulsionar lançamentos e organizar campanhas. No entanto, a devoção também pode assumir contornos problemáticos quando a admiração ultrapassa os limites de uma relação saudável com os artistas.

Em parte do fandom, críticas ao grupo são interpretadas como ataques pessoais, disputas com outras comunidades se tornam frequentes e os movimentos dos integrantes são acompanhados como se existisse uma relação íntima entre ídolos e admiradores. Nesses casos, a fronteira entre admiração e dependência emocional pode se tornar tênue, sobretudo quando os artistas passam a ocupar um espaço desproporcional na vida dos fãs. Porém, é importante não confundir esses comportamentos com a experiência de todo o fandom.

A reação intensa dos admiradores a artistas populares está longe de ser um fenômeno exclusivo do BTS. Em 15 de agosto de 1965, os Beatles reuniram cerca de 55 mil pessoas no Shea Stadium, em Nova York, em uma apresentação histórica que ajudou a transformar os estádios esportivos em centros da música pop.

Na ocasião, os gritos da multidão chegaram a dificultar a audição das músicas, como na icônica performance de "Eight Days a Week". Décadas depois, a mobilização em torno do BTS guarda semelhanças com a Beatlemania, embora cada fenômeno tenha suas particularidades. A comparação também ajuda a expor uma contradição cultural.

Mulheres são frequentemente ridicularizadas por demonstrarem paixão por artistas, enquanto homens encontram no futebol uma forma socialmente legitimada de expressar emoções intensas. Uma fã que chora ao ver seu ídolo pode ser taxada de histérica, já um torcedor que fica aos prantos após uma derrota ou compromete parte do salário para acompanhar o time costuma ser descrito como alguém apaixonado pelo esporte.

Para além dos números e discussões que carregam a trajetória de um dos maiores grupos da indústria músical, o tempo dirá até onde o BTS levará sua influência. No entanto, a intensidade da relação construída com suas fãs já faz parte dessa história.

Classificação Indicativa: Livre

Facebook Twitter WhatsApp


Cadastre-se na Newsletter do Bnews (Beta)