Artigo

Degradação do Debate Político

Foto: Arquivo pessoal / José Medrado
A importância da pluralidade e do respeito no espaço político e os riscos do linchamento simbólico  |   Bnews - Divulgação Foto: Arquivo pessoal / José Medrado

Publicado em 19/10/2026, às 20h26   José Medrado



A política republicana nasce da substituição da força física e da coerção pela palavra persuasiva, dando à civilidade um trato de respeito e precisão. Em uma democracia, os debates eleitorais deveriam representar o ápice dessa arena pública: o local onde cidadãos e candidatos se encontram em pé de igualdade para confrontar visões de mundo, projetos de governo e argumentos racionais. Contudo, a transformação desses fóruns em palcos de deboche, ironia agressiva e intimidação espacial marca uma perigosa inflexão na cultura política. Não é apenas usar de um estratégia, entendo assim, é apequenar o esclarecimento que deve ser levado ao público sobre propostas.

Senti vergonha alheia no debate do último domingo na Bandeirantes. Não são exageros as críticas que se alastraram pelas redes sociais, para compreender a gravidade desse fenômeno, a filosofia política de Hannah Arendt oferece um diagnóstico preciso sobre como o esvaziamento do discurso racional conduz ao colapso do próprio espaço democrático. Em A Condição Humana, Arendt caracteriza a esfera pública como o espaço de aparição por excelência, fundado no princípio da isonomia — a igualdade fundamental entre os cidadãos. O debate político só existe onde há o reconhecimento do oponente como um interlocutor legítimo. Quando um candidato substitui a contra-argumentação pela zombaria sistemática, pela risada desdenhosa e pela invasão do espaço do adversário, ele quebra essa igualdade. O objetivo do deboche não é rebater teses, mas anular a dignidade e a voz do interlocutor.

Siga o BNews no Google e receba as principais notícias no seu celular

Google News Bnews

Aprofundando essa dinâmica em Sobre a Violência, Arendt conceitua o poder como o resultado da união de cidadãos que agem por meio do consenso e da persuasão, enquanto a violência surge justamente onde o poder faltou ou está em risco. Sob essa ótica, a conduta intimidadora e o sarcasmo constante em um debate não revelam força, mas sim impotência política. Trata-se de uma violência retórica e comportamental empregada por quem não dispõe da mediação do discurso fundamentado.

Ao invadir o espaço alheio com provocação e desdém, o candidato abandona o campo da política e ingressa no domínio da coerção moral. A política só se justifica pela preservação da pluralidade. A degradação da palavra reduz o fórum deliberativo a um espetáculo de linchamento simbólico e marketing agressivo, no qual o eleitor é convertido em mero espectador do constrangimento alheio. Quem não possui o autocontrole, a seriedade e o decoro necessários para sustentar um embate racional diante de seu oponente revela, em última análise, a sua profunda incapacidade de habitar e liderar o espaço republicano.

Classificação Indicativa: Livre

Facebook Twitter WhatsApp


Cadastre-se na Newsletter do Bnews (Beta)