Artigo
Publicado em 28/09/2025, às 09h55 Marcelo Cerqueira*
Hola, “querides” leitores e leitoras do nosso queride Bnews! Sentiram minha falta? Choraram por mim? Mandaram mensagem para a redação implorando pelo meu retorno? Pois voltei! Voltei pro morro! Onde estão minhas chinelas, que eu quero sambar com elas? (Carmem Miranda, Vicente Paiva e Luis Carlos Peixoto, 1940). É nesse espírito alegre e carnavalesco que compartilho com vocês um material especial sobre as cinco “filhas” gloriosas do nosso mestre Luiz Mott, o etno-historiador que, em 2026, comemorará seus 80 anos de uma vida muito bem vivida!
E, claro, festa de Mott não será pouca coisa. Pode aguardar bolo de oito andares, porque aniversário da realeza é assim. Afinal, se o bolo de casamento de Elizabeth II rendeu uma celebração para a eternidade, o de Mott não ficará atrás. Mas quem são essas filhas de quem estamos falando? Elas não nasceram dele, mas foram por ele resgatadas da penumbra histórica para brilhar na memória coletiva: Esperança Garcia (PI), Tibira (MA), Rosa Egipcíaca (RJ), Xica Manicongo e Felipa de Souza (BA). Cada uma dessas figuras históricas carrega potências imensas sobre a luta, a resistência e a riqueza cultural que ajudaram a moldar o Brasil.
Mott não é só historiador, é também um “herói de arquivo”. Mestre em contar histórias daquilo que ele chama de "História que Vem de Baixo", ele dedica seus estudos aos marginalizados, àqueles que foram esquecidos pelo tempo. Com um olho treinado para ler manuscritos dos séculos XVII e XVIII – escritos delicadamente com penas nos arquivos portugueses e brasileiros –, Mott garimpou relíquias na Torre do Tombo, em Lisboa. Muitas delas, ignoradas por séculos, ganharam atualidade após sua cuidadosa transcrição. Ele tornou a cidade quase sua segunda casa, indo tanto ao arquivo que renovava a carteirinha sempre que estava por lá.
O documento redigido por Esperança Garcia, uma escravizada preta que, em 1770, escreveu ao governador para denunciar os castigos sofridos por outros, mudou a história do Piauí. Em reconhecimento à sua resistência, a OAB/PI a reconheceu como a primeira advogada do Brasil. Sua memória é tão essencial que ela está estampada no imaginário popular: já foi tema de samba-enredo e de diversas escolas de samba do Rio, como a Estação Primeira de Mangueira, e também em São Paulo. Sua história é sobre resistência e defesa de direito do próximo, lembrando que a luta por justiça rompeu os grilhões da escravidão e ecoa até hoje. Escrever sobre essa mulher não basta, é preciso ir no Piau.
Rosa Egipcíaca já foi prostituta e tornou-se uma figura santa, cheia de espiritualidade e força. Ela também foi a primeira mulher negra a escrever um livro no Brasil colonial. Sua história transcende e se torna tema artístico: na música e no teatro, já inspirou obras que celebram sua mistificação e resiliência. Rosa brilhou no Carnaval de 2023, sendo protagonista do enredo da Viradouro, mostrando como sua potência histórica ainda pulsa nas veias culturais do país.
Tibira, um indígena tupinambá que viveu no Maranhão, é considerado o primeiro mártir LGBTQIAP+ do Brasil. Sua execução brutal, morto por um tiro de canhão em 1614 pelos frades capuchinhos, é um símbolo da imposição colonial e da violência contra corpos dissidentes. Tibira é lembrado como um ícone de resistência indígena e transgressão contra a normatividade imposta pelos colonizadores. Sua história escancara as atrocidades coloniais e renova debates sobre diversidade e ancestralidade.
Os registros inquisitoriais mostram que Xica Manicongo vestia-se com roupas femininas apesar de ser designada como homem ao nascer. Sua descoberta por Mott não foi apenas o encontro de um nome perdido em um documento, mas a revelação de uma ancestralidade trans e travesti que existia e resistia mesmo diante do rigor da colonização e da Inquisição. Há relatos que Xica circulava, altiva e feminina, pela Rua da Ajuda, em Salvador, quebrando as normas da época. Embora tenha sido denunciada e alvo das “fofocas”, o tribunal simplesmente ignorou ou esqueceu a denúncia contra ela. Xica é um marco tanto na história trans quanto na arte, inspirando narrativas que celebram sua força.
Felipa de Souza, por outro lado, protagonizou a primeira denúncia de prática lésbica no Brasil colonial. Acusada por sua amante, Felipa foi presa, julgada e condenada a andar descalça, vestindo as "roupas da vergonha" pelas ruas do Centro Histórico de Salvador. Após a leitura de sua sentença no Cruzeiro de São Francisco, ela foi degredada para um destino desconhecido – uma punição extremadamente severa para o “crime” de amar outra mulher. Felipa, símbolo de resistência queer, dar pra entender que seria um homem trans oferece um potencial enorme para o teatro e a literatura.
Luiz Mott, com sua dedicação e habilidade ímpar, não apenas resgatou essas histórias, mas também deu a elas o palco que merecem. Suas pesquisas têm nutrido o teatro, o cinema e a música, inspirando novas narrativas artísticas que revisitam e revisam o passado para transformar o presente. São histórias que iluminam as trajetórias de quem resistiu à opressão, mostrando que a memória é um poderoso ato de transformação social.
Fiquem de olho, pois em cada canto onde houver cultura e arte, as filhas de Mott brilharão – seja nos palcos, nos sambas-enredo ou nas telas do cinema. Que venha maio e, com ele, a celebração de um mestre e suas “filhas de papel”!
*Marcelo Cerqueira é coordenador Municipal de Políticas e Promoção da Cidadania LGBT+ de Salvador.
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