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José Medrado: Aí é a tal pimenta

Imagem José Medrado: Aí é a tal pimenta
A viralização da pastora mirim Júlia Ortiz levanta questões sobre a exposição precoce e suas consequências para o desenvolvimento infantil  |   Bnews - Divulgação

Publicado em 05/05/2026, às 10h58   José Medrado*



É tudo muito lamentável. Após viralizar nas redes sociais por pregar dentro de um avião, a pastora mirim Júlia Ortiz, de 10 anos, voltou a Campo Grande e foi recebida por uma comunidade de fiéis que apoiaram sua atitude, apesar das críticas por ter invadido um espaço coletivo.

Os prejuízos potenciais para uma criança exposta dessa forma podem ser amplos e duradouros. A literatura aponta para processos como a adultificação precoce (ou parentificação simbólica), em que a criança atropela etapas naturais do desenvolvimento e passa a construir sua identidade por imitação e validação externa. Ao ser rotulada como “pregadora”, “escolhida” ou “especial”, há o risco de fixar uma identidade dependente de aprovação, o que pode gerar dificuldades de reinvenção na adolescência e crises mais intensas posteriormente. Não há, portanto, nada de ingênuo ou “bonitinho” nesse processo.

Por outro lado, surgiu também o debate sobre trabalho infantil. Neste domingo (3/5), Leda Nagle comentou um vídeo do ex-governador Romeu Zema, que defende que crianças possam trabalhar desde cedo, citando exemplos de outros países. Ela concordou e usou sua própria experiência como argumento. Esse tipo de raciocínio é problemático. Experiências individuais não podem ser tomadas como regra, pois ignoram o espectro completo da realidade. Eu mesmo comecei a trabalhar aos 10 anos, lavando carros na fonte dos padres, na Preguiça. Lembro de observar outras crianças brincando e sentir, sim, certa inveja — algo que revela o custo invisível dessa precocidade. Aos 16 anos, entrei como menor aprendiz no Banco do Brasil, em um regime estruturado, com acompanhamento de RH, horários reduzidos e compatíveis com a escola. Trata-se de uma realidade completamente diferente. É essencial distinguir: trabalho protegido por lei e educativo não é o mesmo que exploração ou supressão da infância. Da mesma forma, exposição precoce em ambientes de performance — seja religiosa, artística ou midiática — também não é neutra.

Há ainda um fator raramente mencionado: a desigualdade. Não se vê, em regra, filhos de famílias ricas submetidos a essas dinâmicas. Para eles, o tempo é investido em formação, preparação e desenvolvimento. A infância é preservada porque há um projeto de futuro. Para outros, antecipa-se o peso do mundo adulto. No fundo, o ponto comum é um só: a instrumentalização da criança para atender expectativas adultas — sejam elas financeiras, simbólicas ou ideológicas.

*José Medrado é médium  e fundador e presidente da Cidade da Luz.

As ideias aqui apresentadas são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião do site.

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