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Lá Ele: Quando uma Gíria Vira Meme e Polêmica na Rede!

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Marcelo Cerqueira, gestor, ativista e escritor autor do romance policial Ardilosa: A Vida Secreta de uma Travesti Serial Killer, 2025.  |   Bnews - Divulgação Divulgação

Publicado em 07/04/2026, às 21h55   Marcelo Cerqueira



A recente declaração da cantora Valesca Popozuda sobre a expressão baiana "Lá ele" nas redes sociais provocou uma verdadeira enxurrada de discussões. Valesca relatou um episódio em que interveio em uma conversa no hotel porque considerou a gíria homofóbica. Segundo ela, mesmo não sendo o foco da conversa, sentiu-se compelida a agir. Esse posicionamento dividiu opiniões entre aqueles que concordam com a cantora e acreditam que a expressão pode carregar conotações discriminatórias e aqueles que defendem seu uso tradicional e cultural, desprovido de qualquer malícia.
Para os que criticaram Valesca, "Lá ele" é uma gíria profundamente enraizada na linguagem cotidiana da Bahia, amplamente utilizada para descontrair, distensionar situações ou afastar-se de associações que soam desconfortáveis. Não é limitada por gênero ou contexto; homens, mulheres e pessoas LGBT+ usam a expressão em brincadeiras informais. No entanto, como bem salientaram muitos internautas, o tom e o contexto adotados fazem diferença crucial para seu entendimento.
Aqueles que defendem o uso da gíria argumentam que ela pode “normalizar” interações sem preconceitos, promovendo uma atmosfera de descontração e espontaneidade. Um exemplo que surgiu nos debates é que "Lá ele" se assemelha a expressões ao “xuxo”, que combina com tudo, isto é, uma palavra que se adapta naturalmente ao momento e, frequentemente, vem carregada de risos e leveza.
Por outro lado, os críticos da gíria enfatizam que sua utilização repetitiva pode reforçar situações de exclusão, dependendo do modo ou do ambiente em que é dita. Sem reflexão, ela pode ser usada como micro agressão sutil, principalmente em cenários onde brincadeiras humorísticas são usadas como defesa velada de preconceitos estruturais. O caso ocorrido no hotel ilustra como o contexto de uso pode ser percebido de forma negativa, especialmente quando dirige um julgamento a expressões de gênero ou comportamento.
Comparando o debate aos desafios históricos enfrentados por pessoas LGBT+, alguns internautas relembraram mesmo o "amor que não pode dizer o nome" – expressão do século XIX que refletia a repressão de relações homossexuais. Para esses defensores do uso consciente de "Lá ele", negar a expressão poderia ser visto como uma “mordaça” social sobre práticas e linguagens regionais. Já para outros, é justamente essa naturalização que pode contribuir para perpetuar estereótipos.
Em suma, o debate reflete tanto o poder das palavras quanto nosso compromisso como sociedade em reconhecer suas nuances. Contexto, intenção e impacto precisam ser ponderados. Afinal, as gírias que ouvimos em espaços culturais carregam histórias, regionalismos e também desafios para incluir a pluralidade, porque, como bem sabemos, o grande objetivo é a convivência em uma sociedade que celebre as diferenças, e não as diminua.
O uso de "Lá ele", com suas implicações culturais, está no centro de um debate que não é apenas linguístico, mas também social. O maior aprendizado aqui não é o julgamento pela exclusão ou pelo uso da expressão, mas sim a necessidade constante de escutar e considerar como palavras podem acolher ou machucar, dependendo de quem as ouve e do contexto em que são ditas.


* Marcelo Cerqueira, gestor, ativista e escritor autor do romance policial Ardilosa: A Vida Secreta de uma Travesti Serial Killer, 2025.

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