Artigo
Durante muito tempo, a imprensa esportiva brasileira ocupou um lugar de destaque não apenas dentro das redações, mas também na construção das narrativas do país. Antigamente, a imprensa esportiva, os jornalistas, os cronistas esportivos, principalmente os que faziam a cobertura do futebol, que é o esporte que move a paixão dos brasileiros, eram vistos como figuras ilustres da imprensa. Era um nicho que exigia trajetória, oportunidade e, sobretudo, competência para ser ocupado.
Não por acaso, esse campo foi moldado por nomes como Nelson Rodrigues, que transformava partidas em dramas humanos, e Armando Nogueira, que ajudou a consolidar um padrão de excelência onde informação, sensibilidade e responsabilidade conviviam em conjunto. A imprensa esportiva sempre teve importância histórica, não só dentro do jornalismo, mas também na forma como o Brasil se enxerga, especialmente a partir da cobertura de grandes eventos, Copas do Mundo e momentos que ultrapassam o esporte.
Em um tempo não tão distante, essa imprensa ainda seguia como um grupo muito seleto. Para fazer parte, era necessário construir uma carreira sólida. Para “entrar” nos grandes veículos de comunicação, era preciso ser muito bom, sendo bem direto. Era necessário reportar com qualidade, com responsabilidade e, principalmente, com imparcialidade. Essa sempre foi uma das principais características do jornalista esportivo.
Tanto que, durante muito tempo, era difícil saber para qual time torcia um jornalista. Isso não era por acaso. Era um cuidado. Um respeito necessário para exercer uma função que lida diretamente com a paixão do torcedor. Ainda hoje, quando se observa grandes nomes da narração e do comentário esportivo, muitos seguem preservando essa característica. A informação sempre foi o destaque. Nunca o jornalista.
Esse cuidado existia justamente para evitar confusões. Para que a paixão não interferisse na apuração, na análise e na entrega da notícia. Porque, no fim das contas, o grande valor do jornalismo, e especialmente do jornalismo sério, sempre foi a informação. A notícia precisa ser maior do que quem a transmite.
Com a chegada da internet, esse cenário começou a mudar. A popularização das plataformas digitais, como YouTube e X, democratizou o acesso e deu voz a muita gente. Isso aconteceu em todos os segmentos, não só no esporte. Mas, na imprensa esportiva, essa transformação ganhou contornos muito específicos.
A internet passou a dar voz ao torcedor. E isso, por si só, não é um problema. O torcedor precisa ser ouvido. Ele sustenta o clube, ele move o futebol, ele é parte essencial desse ecossistema. O problema começa quando o papel do torcedor se confunde com o papel do jornalista.
Hoje, vemos torcedores com microfones, em canais, rádios, plataformas digitais, se apresentando, ou sendo vistos, como jornalistas. Em alguns casos, até são jornalistas de formação, mas não exercem a função com o compromisso que ela exige. Não cultivam a imparcialidade. Não colocam a notícia como protagonista.
E aqui é preciso deixar claro. O lugar do torcedor é a arquibancada. É ali que a paixão deve ser vivida em sua forma mais pura. Dentro de um clube, é natural que existam dirigentes que torçam, que tragam emoção para a gestão, mas o jornalismo não pode funcionar dessa forma. O jornalista não pode atuar a partir da lógica da torcida.
O que se vê hoje é o torcedor ocupando espaços que deveriam ser de mediação, de equilíbrio e de informação. Eles levam essa paixão para dentro de coletivas, entrevistas e coberturas, e isso, ao meu ver, é algo totalmente condenável e compromete a essência do jornalismo esportivo.
Porque torcedor é torcedor e jornalista é jornalista.
Se o jornalista é torcedor, ele precisa ter discernimento para separar os momentos. Saber quando torce e quando reporta. E o que se vê, cada vez mais, é essa linha sendo ignorada.
Existem episódios claros disso, inclusive aqui na Bahia, onde para mim essa realidade é mais próxima, mas que certamente se repete em todo o Brasil. Situações em que “jornalistas” discutem com técnicos, elevam o tom em coletivas ou cobram arbitragem de forma direta, quase como se estivessem na arquibancada, e não exercendo uma função profissional.
Não se trata de dizer que técnico não deve ser cobrado ou que a arbitragem não deva ser questionada. Deve. Sempre deve. O ponto é como isso é feito.
O papel do jornalista, ao meu ver, é ser ponte. É ser o elo entre o torcedor e quem está dentro do campo, do clube, da arbitragem. Se o torcedor quer uma resposta, o jornalista precisa fazer a pergunta. Precisa buscar a informação. Precisa entregar ao público aquilo que ele precisa saber.
Mas não pode substituir essa função pela de torcedor. Quando isso acontece, a ponte se quebra.
O jornalista deixa de ser intermediário e passa a ser protagonista de um espetáculo que não deveria ser sobre ele. A opinião, quando existe, precisa ser direcionada ao público, construída com base em análise, contexto e responsabilidade, não como um desabafo emocional travestido de posicionamento profissional.
Porque, muitas vezes, essa opinião não representa o torcedor. Representa apenas o próprio jornalista. Uma visão individual que se impõe como verdade, quando deveria ser apenas mais um ponto de vista. E isso é grave.
Não é sobre proibir opinião. É sobre entender o lugar da opinião. Não é sobre silenciar o torcedor. É sobre não confundir o papel de quem informa com o de quem torce.
O jornalismo esportivo sempre foi, e ainda precisa ser, um elo de confiança. Mas, diante do cenário atual, fica a incerteza. Para onde isso vai?
O que se percebe é que os jornalistas estão cada vez mais raros. E os torcedores de microfone, cada vez mais presentes. Ganhando espaço, seguidores, visibilidade. Muitas vezes, mais preocupados com engajamento do que com informação.
E, nesse movimento, o maior risco não é a mudança. É a perda da essência.
Porque, quando o jornalista vira torcedor diante do microfone, quem perde não é só o jornalismo, é o próprio torcedor.
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Tiago Di Araújo
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