Artigo
Publicado em 19/10/2025, às 15h43 Marcelo Cerqueira*
Há certas coisas que permanecem em nós – algumas como memórias, outras como ideias que parecem brotar de algum lugar além de nós mesmos. Caros leitores do nosso Bnews quando se trata de amor, o mundo interno e o externo se misturam, e os sentimentos criam pontes entre aquilo que vivemos e o que idealizamos. Amor é latifúndio, divino, metáfora, poesia, música um sentimento que extrapola o dizer. Paula Toller, na delicada canção Ainda Encontro a Fórmula do Amor, nos provoca.
Seria possível alcançar a fórmula? Ela mesma parecia buscá-la na última vez que a vi, sob as luzes de um show no Aberto de Tênis da Costa do Sauipe. Encontrar a fórmula, afinal, não é o que todos buscamos? Comprar, vender, estudar, reescrever o amor parece ser um esforço constante e incontornável.
Mas se Paula nos fala sobre essa busca incessante e até irrealizável, Vanessa da Mata nos desafia com outra questão: o que nos faz desistir de amar? Em Te Amo, a cantora canta o romantismo, mas com um toque contemporâneo e melancólico: “O pior não é não conseguir; é desistir de tentar.”
Vanessa expressa a dificuldade de manter o amor vivo em um mundo descrente e cínico, cheio de símbolos de desilusão. É como se, ao amar, enfrentássemos não só nossos medos, mas também os clichês e as armaduras que a sociedade cria. Por trás de cada verso, reside a mensagem de que o amor, para além de romance, é resistência contra todo o desencanto ao nosso redor.
Se na música o amor é resistência, nas artes visuais ele ganha um brilho quase divino. Em O Beijo (1908-1909), obra-prima de Gustav Klimt, o amor se torna ouro – não como valor material, mas como fagulhas da eternidade. A pintura, carregada de sensualidade e simbolismo, funde os amantes numa composição que já desafiou interpretações conservadoras e, ao mesmo tempo, se tornou um eterno símbolo de transcendência. Retratados em mantos dourados, o casal parece flutuar num momento fora do tempo. É como se Klimt capturasse a essência do amor: a dissolução do ego, a fusão de almas que carregam o sublime no meio de suas fragilidades.
Ainda assim, as interpretações sobre O Beijo variam: alguns veem submissão nos corpos inclinados, outros percebem sensualidade. Porém, mais do que discutir poder, a obra dissolve conceitos como individualidade e ego, sugerindo que amar é permitir-se ser fagulha – fragmento de algo maior, único e eterno. Para alguns, os detalhes dourados de Klimt simbolizam espermatozoides caindo, como uma chuva de criação fértil, enquanto para outros são o reflexo das moedas do mundo que tentam definir o amor como commodity. Klimt, mestre da delicadeza, captura a contradição inerente ao amor: preciosidade que desafia o materialismo.
Do pincel de Klimt, somos levados, então, ao cinema para o visionário Matrix Reloaded (2003). Entre as guerras de máquina e humanidade, uma cena profundamente humana emerge. Persephone (Monica Bellucci), ao lado de Neo (Keanu Reeves), protagoniza uma das interações mais discutidas do filme: "Eu vou te dar o que você quer, mas você tem que me dar algo. Um beijo." O beijo, aqui, não é nada trivial. Trata-se do desejo de experimentar algo perdido, algo que só o amor real, sincero pode trazer de volta. É um momento permeado por fragilidade e poder, onde a personagem desafia o trio a provar o que dizem representar. Mesmo em meio a um mundo mecanizado e calculado, o beijo recupera um resquício de humanidade.
O beijo entre Neo e Persephone é frio, desconfortável no início. Porém, quando ele finalmente a segura, tira os óculos e a envolve em um abraço que rompe barreiras, o impulso de conexão ganha força. É nesse instante que o amor deixa de ser cálculo – ele pulsa.
E assim voltamos à pergunta central: seremos como O Beijo de Klimt? Pedaços de fragilidades humanas que, por meio do toque, da cor e da entrega, reverberam numa eternidade simbólica? Ou como o beijo de Matrix, que exige acreditar no poder de resistir ao desencanto? Vanessa da Mata nos lembraria que tudo isso só é possível para quem não desiste.
Mais do que uma fórmula, o amor talvez seja uma decisão constante. Amar é persistir em meio a medos, fragilidades e decepções. É aceitar que o tempo, somado aos desafios da monotonia e dos desencantos diários, transforma o ato de amar em um ato revolucionário. Se seguirmos as fagulhas douradas de Klimt, estaremos, talvez, escolhendo criar luz entre as efemeridades do cotidiano.
Assim, ao final das histórias e das reflexões, resta a beleza da escolha; amar como resistência. Amar como arte. E quem sabe, no futuro, após desafiar ruídos e realidades externas, seremos como os velhos felizes de um quadro eterno, sentindo o calor de mãos dadas, mergulhados em um sol dourado. Seremos o reflexo de uma fagulha que nunca deixa de queimar. Te ama!
*Marcelo Cerqueira é coordenador Municipal de Políticas e Promoção da Cidadania LGBT+ de Salvador.
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