Artigo
Publicado em 26/09/2025, às 15h10 - Atualizado às 18h38 Marina Pinheiro, psicóloga da Holiste
Tem se tornado cada vez mais frequente a chegada de pacientes com as diversas nuances dos transtornos de personalidade nas instituições de cuidado à saúde mental. Na maioria das vezes, essa chegada é permeada pelo sofrimento decorrente de sintomas que refletem os desafios em se lidar com as complexidades e nuances de vivenciar um transtorno associado ao funcionamento e expressão de uma personalidade, sobretudo quando se trata de uma personalidade “no limite”. Identifica-se nesse cenário o sofrimento do sujeito e, também, daqueles com quem convive e/ou que são responsáveis pelo seu cuidado, geralmente perdidos em relação a como lidar nessa relação. A partir daí, torna-se também um desafio para os profissionais de saúde mental, que podem experimentar a dificuldade na construção de um vínculo terapêutico e na adesão do paciente ao tratamento. Frente a esse cenário, como poder se equilibrar nesse convite a transitar em uma corda bamba?
Os pacientes com o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) experimentam grandes desafios em seu processo de desenvolvimento de self, podendo apresentar uma instabilidade emocional intensa, sentimentos crônicos de vazio, tendência a comportamentos de risco e/ou suicidas e heteroagressividade, relacionamentos pessoais intensos e instáveis impulsividade, esforços excessivos para evitar abandono, baixo limiar de frustração, dissociação afetiva, distorção da autoimagem e labilidade emocional acentuada. Assim, ao se perceberem nesse desequilíbrio na forma como se relacionam consigo e com os outros, estendem essa instabilidade ao próximo. A noção de “equilíbrio” por vezes é convocada frente aos cuidados de um processo de sofrimento, contudo, quando se refere ao TPB essa máxima assume uma posição concreta, uma vez que, a figura do cuidado será demandada a marcar uma posição que ora seja de acolhimento e disponibilidade nesta relação, ora de firmeza no estabelecimento de acordos e de limites. Nesta corda bamba, então, pacientes, profissionais e família assumem os lugares dos equilibristas, cada um se havendo com a maior ou menor movimentação dessa corda que tentam almejar - ou, às vezes, não - chegar a um ponto de estabilidade.
Para um “transtorno limítrofe”, um espaço de cuidado “continente” pode auxiliar na construção de uma borda que, de alguma maneira, dê lugar, forma, nome e/ou direcionamento ao que se sente. Tal como os equilibristas de utilizam de uma vara para conseguirem equilibrar os pesos na corda que tende a bambear, os profissionais de saúde precisam se amparar em suas técnicas, supervisões e trabalhado pessoal, e a família em seu próprio processo de acesso a orientação, psicoeducação e cuidado, também na tentativa de sustentar a construção desse continente com o paciente. Embora se entenda, em linhas gerais, a importância da construção de vínculo, da leitura e bom uso do timing nas intervenções e relação com aqueles que lidam com o TPB e da construção de acordos e limites de forma concreta, há de se levar em consideração que as cordas não bambeiam sempre da mesma forma e que, nesse exercício de equilíbrio, a flexibilidade e adaptações também se fazem necessárias. Com isso, para poder se chegar a algum ponto desta corda bamba, é fundamental o fazer coletivo, no estabelecimento de alianças entre instituições, profissionais e família, assumindo posições distintas e que podem se complementar, buscando assim sustentar, apesar dos titubeios, essa “esperança equilibrista”.
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