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O pão e o circo de sempre

Foto: Arquivo pessoal / José Medrado
Artigo de José Medrado "O pão e o circo de sempre"  |   Bnews - Divulgação Foto: Arquivo pessoal / José Medrado

Publicado em 10/11/2025, às 21h40   José Medrado



Há séculos, os governantes descobriram uma fórmula simples e eficaz para manter o povo, digamos, controlado: distraí-lo enquanto a fome o corrói. O Império Romano chamava isso de panem et circenses — pão e circo. Dois mil anos depois, a receita continua em uso, apenas com novos ingredientes: luzes coloridas, som automotivo e cachês milionários. A essência, no entanto, é a mesma — oferecer entretenimento em troca de uma falsa satisfação cidadã.

O caso recente da suspensão do show da dupla Maiara e Maraisa, em Governador Nunes Freire, no Maranhão, é um retrato simbólico desse velho teatro político. Custaria R$ 654 mil aos cofres públicos — valor que poderia ser revertido em salários atrasados de servidores que, nas palavras do juiz Bruno Chaves, “passam necessidades por não receberem seus proventos”. Em outras palavras: a festa seria paga com o suor de quem não pode festejar.

O dilema ético é evidente, e acontece no Brasil inteiro, inclusive em nosso estado. A verdade é que tipo de gestão celebra enquanto seus trabalhadores padecem? A decisão judicial de suspender o evento não é apenas um ato jurídico; é um gesto de lucidez diante de um sistema que ainda confunde governo com espetáculo.

Sob uma perspectiva filosófica, essa insistência no “circo” reflete a alienação que os estudiosos chamam de sociedade unidimensional: uma população anestesiada, incapaz de perceber a própria servidão porque é distraída por prazeres efêmeros. Muitos filósofos já disseram, como o francês Michel Foucault, que o poder se mantém não apenas pela força, mas pelo controle das mentes — e o entretenimento, quando manipulado, é uma das formas mais sutis desse controle.

O mais perverso é que o “pão e circo” de hoje não entrega nem o pão. O povo aplaude enquanto falta merenda nas escolas e remédios nos hospitais. A música alta encobre o silêncio dos que esperam o salário atrasado, o asfalto prometido, o futuro negado. O Brasil precisa, urgentemente, romper com essa lógica medieval do encantamento populista. Não é o artista que está em julgamento — é a mentalidade de quem usa a cultura como cortina de fumaça para esconder a má gestão e a desigualdade. O verdadeiro espetáculo que deveríamos exigir é o da responsabilidade pública, da transparência e da ética.

Classificação Indicativa: Livre

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