Artigo

O papel das mulheres na educação e a responsabilidade coletiva na desconstrução do machismo

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A importância de homens em posições de privilégio se tornarem aliados na luta contra o machismo e na promoção da equidade  |   Bnews - Divulgação Foto: Ilustrativa / FreePik

Publicado em 09/12/2025, às 22h56   Marcelo Cerqueira



Falar sobre a reprodução de padrões machistas na educação é mergulhar em um tema denso, que exige sensibilidade e uma visão ampla sobre as estruturas que sustentam o patriarcado. É evidente que as mulheres têm um papel central nesse processo, não por escolha própria, mas por uma imposição histórica e social que lhes atribuiu a responsabilidade de educar, tanto no âmbito doméstico quanto no escolar. Porém, é fundamental abordar o assunto sem transferir para elas o peso da culpa, mas sim com uma compreensão sobre as nuances dessa dinâmica social e a urgência urgentíssima de uma transformação coletiva.

Há séculos, o patriarcado encarregou as mulheres de funções específicas vinculadas ao cuidado e à gestão do lar, enquanto aos homens eram estimulados ocupar os espaços de poder e controle. Essa divisão moldou o papel, por exemplo das mães e das professoras como principais agentes na formação das gerações futuras, ao mesmo tempo em que replicou valores estruturais que perpetuam a desigualdade. Ainda hoje, muitos padrões machistas são transmitidos de forma inconsciente, porque foram enraizados em práticas culturais de séculos, como a repressão a meninos que demonstram comportamentos "femininos" ou o incentivo ao silêncio das meninas em situações de opressão.

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Outro exemplo nítido dessa perpetuação de valores ocorre quando meninos são desencorajados a explorar suas emoções de maneira aberta. Muitas vezes, o choro ou a expressão de vulnerabilidade é reprimida, pois a masculinidade tradicional os associa à fraqueza. Assim, desde a infância, constrói-se um modelo que distancia os homens da empatia e da autorreflexão, efeitos que repercutem na vida adulta e contribuem para relações desiguais, violência e feminicídios. Esse ciclo não é apenas o reflexo da ação de mães ou professoras, mas também da ausência de homens em posições de corresponsabilidade na criação e educação dos filhos.

Ao falarmos da reprodução desses padrões, é essencial reforçar que isso não é sobre culpabilizar as mulheres. Elas próprias são moldadas pelo mesmo sistema patriarcal que impõe limites à sua liberdade. Foram criadas sob regras rígidas que ditam como devem se comportar, agir e educar seus filhos para atender às expectativas sociais. Assim, em muitos casos, comportamentos machistas são transmitidos mais por vieses inconsciente do que por escolha deliberada.

A luta feminista já evidenciou que a desconstrução do machismo não pode ser responsabilidade exclusiva das mulheres. Por muito tempo, as mulheres lutaram praticamente sozinhas contra um sistema que beneficia os homens, sem que eles sequer reconhecessem ou participassem dessas mudanças. No entanto, modificar essa realidade exige que os homens tomem a dianteira em questões que afetam a todos, desde a divisão igualitária das obrigações domésticas até o combate ativo contra discursos e atitudes machistas.

Os homens, especialmente aqueles em posições de privilégio, têm o dever de agir como aliados conscientes. Isso inclui reconhecer comportamentos prejudiciais, mesmo que sutis, e transformar as mentalidades de outros homens com responsabilidade e empatia. O protagonismo feminino no combate ao machismo é e será sempre fundamental, mas cabe aos homens usarem sua posição para redefinir os próprios privilégios estruturais que os favorecem.

A responsabilidade de educar meninos e meninas livres de padrões machistas não é exclusiva das mães ou professoras, é sem dúvida um compromisso de toda a sociedade. Políticas públicas educacionais, formação continuada de educadores e campanhas de conscientização são ferramentas cruciais nesse processo desde o ensino fundamental. Além disso, é necessário ensinar desde cedo a importância da equidade, palavras como bom dia, com licença, obrigado e valores da empatia e do respeito às diferenças, promovendo ambientes que valorizem a diversidade e questionem normas opressoras.

O trabalho dentro das casas também deve ser coletivo. Homens precisam dividir igualmente a responsabilidade pela criação dos filhos, desmontando a ideia de que essa tarefa é feminina. E, no ambiente escolar, a partir do fundamental II é essencial debater questões de gênero e desconstruir discursos que ainda coloquem as mulheres como figuras submissas ou menos capazes.

Escrevi esse ensaio porquê, fui impactado por dois eventos da natureza. Uma vereadora defendia no parlamento direito de homens baterem em mulheres e o outro veio de uma apresentadora de televisão denunciado que quinze mulheres são assassinadas por dia em nosso país. Combater discursos machistas e retrógrados que legitimam a violência de gênero também faz parte dessa transformação. Quando figuras públicas, como políticos ou líderes religiosos, utilizam sua visibilidade para reforçar estereótipos ou defender práticas abusivas, é imprescindível que haja uma reação firme e organizada contra essas declarações. Elas não são apenas opiniões infelizes, mas uma ameaça direta ao progresso e à igualdade.

Gays, mulheres e outros grupos marginalizados compartilham mais semelhanças do que diferenças. A opressão que enfrentam em uma sociedade patriarcal e machista é um ponto de convergência que pode e deve ser usado para construir pontes. Trabalhar em conjunto, reconhecendo as especificidades da luta de cada grupo, fortalece os movimentos e torna as conquistas mais amplas e duradouras.

Construir novas formas de educação, livres de padrões opressores, é um desafio coletivo e lento, mas imprescindível. Não se trata de apontar dedos em acusações, mas de construir alianças e exigir que todos assumam seu papel nessa transformação e ao combate do feminicídio. Afinal, a sociedade só se tornará verdadeiramente justa quando a desconstrução do machismo for uma tarefa de todas as pessoas, e não apenas de algumas.

Classificação Indicativa: Livre

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