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Quê saúde mental é essa?

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Entenda como a busca por diagnósticos na internet pode ser prejudicial e a importância de um profissional qualificado  |   Bnews - Divulgação Foto: Arquivo pessoal / Santiago Gómez

Publicado em 01/08/2025, às 06h00   Santiago Gómez



As pessoas fazem diagnósticos psiquiátricos repetindo o que ouviram nas redes sociais. Se tivessem tido a oportunidade de conversar com um psiquiatra e perguntar três por quê dos diagnósticos que ouvirem, não sei se repetiriam as coisas que dizem com tanta segurança. Quantidade de vezes que tive que ouvir pessoas dizendo que Messi é autista… Quando me formei como psicólogo, há vinte anos, era muito esquisito ver uma criança com diagnóstico de autismo, hoje é todo dia. Andam com uma fita no pescoço, ou você identifica elas pelo movimento do corpo, dos olhos. Que mudou?

Há vinte anos em Buenos Aires avançava o diagnóstico de TDAH. A escola era o principal detector de crianças com TDAH, a maioria meninos. “A criança não presta atenção na sala”, seria o identificador de crianças com TDAH… “Passa a hora inteira na sala desenhando, sem prestar atenção à professora”, ouvi centos de vezes. Assim que a criança consegue dar atenção ao desenho mais de uma hora, mas teria problemas de atenção? É a criança que tem problemas de atenção ou é a escola que tem dificuldades para captar a atenção da criança?

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Juan Gelman, um dos maiores poetas argentinos, filho de imigrantes judeus, ucranianos, membro da guerrilha Montoneros, desde o jornal Página/12 em 2008 escreveu: “A doma dos jovens bravos”, onde alertou que a associação psiquiátrica dos Estados Unidos tinha criado um diagnóstico para jovens: transtorno desafiador opositor. Vou tomar esse diagnóstico de exemplo, para convidar vocês a pensarmos juntos: que saúde mental é essa que estão promovendo?

Nos Estados Unidos, onde acham que têm direito de criar as regras do mundo, consideram que se um jovem tem “Um padrão de humor raivoso/irritável, comportamento argumentativo/desafiador ou vingança com duração de pelo menos 6 meses, evidenciado por pelo menos quatro sintomas das seguintes categorias e exibido durante a interação com pelo menos um indivíduo que não seja um irmão: 1) Humor raivoso/irritável; 2) Muitas vezes perde a paciência; 3) É frequentemente sensível ou facilmente irritado; 4) Está frequentemente zangado e ressentido. Comportamento argumentativo/desafiador: Discute frequentemente com figuras de autoridade ou, no caso de crianças e adolescentes, com adultos; Frequentemente desafia ativamente ou se recusa a cumprir solicitações de figuras de autoridade ou regras; Muitas vezes irrita os outros deliberadamente; Muitas vezes culpa os outros por seus erros ou mau comportamento”, teria um transtorno. Foram médicos ou o exército que escreveu isso?

Pensemos juntos o que seria saúde mental, nesse caso. Assim que se um jovem, vamos pensar na maioria dos nossos: negros, pobres, favelados; que moram em condições que não é para morar, onde de manhã podem ver mortos na rua, sangue, anda com raiva, pouca paciência, discute com figuras de autoridade, argumenta, teria um transtorno? O signo de saúde seria morar nessas condições e ficar calado? Pela costume da psicanálise de pensar na mitologia grega, lembro de Aquiles, sua discussão com Agamêmnon, quando não aceitou ir com ele para a guerra, e fico pensando: então não é que Aquiles tivesse caráter, é que tinha trastorno opositor desafiador? O signo de saúde mental seria o quê? Uma juventude que não desafia à autoridade? Isso é um diagnóstico médico ou um disciplinamento social?

São tantos os problemas que a gente tem, tanto o tempo que damos atenção às redes sociais, que as pessoas não param para pensar no mais básico: o que é uma criança? Parece que as pessoas esqueceram que uma criança é uma bola de energia, que precisa movimento, que se movimentando irá ganhando habilidade motora, força muscular, e que se uma bola de energia, que é para se movimentar, você trancar dentro de uma casa, a bola vai pipocar, não há como esperar que a criatura fique quieta. Assim que a criança não consegue ficar quieta, porque está trancada dentro de casa, e a criança teria TDAH?

Como psicanalista trabalho numa instituição que oferece atividades educativas, artísticas e esportivas, para crianças e jovens de uma favela em Salvador, onde conversei com uma mãe que contou-me que tinham indicado ritalina para o filho, porque não ficava quieto em casa. Mais do que provavelmente, o médico que indicou a medicação para a criança, não parou para pensar na criança, no lugar que a criança mora, não considerou as variáveis ambientais para avaliar o comportamento do menino. Uma criança dessas, brincando na rua a tarde toda, não geraria a necessidade da mãe para pedir ela ficar quieta, e o problema da criança não conseguir obedecer. A mãe não deixa a criança ficar brincando na rua, porque tem medo. Sobram motivos.

Morar em Salvador me fez questionar muito a teoria psicanalítica. Também me fez dar atenção ao que Freud disse, mas que Lacan tirou do jogo, que é a variável energia. No Compêndio de psicanálise, texto que Freud escreveu com o objetivo de definir o quê é a psicanálise, qual seu fundamento, quais são os descobrimentos que fez, quais são os assuntos que até então a psicanálise não tinha conseguido responder, o quê era para ele a neurose, o quê era para ele a psicose, ele escreveu que tanto neurose como psicose, trata de um desequilibro quantitativo. Lacan, que era psiquiatra e não neurologista, como Freud, achou que quando Freud falava de energia era uma questão metafórica. Na aula de 13 de abril de 1976, do seminário O sinthoma, Lacan disse que Freud teria errado quando falou das impressões, das marcas, no sistema nervoso. É só ler O verdadeiro criador de tudo, de Miguel Nicolelis, para conferir que Freud estava certo.

Além da questão energética, acho importante pensar na questão do equilibro. Vamos concordar que como estão as coisas, não perder o equilibro não está fácil, não. Mas vamos parar para pensar, no que nos faz perder o equilibro, aquilo que altera nosso estado anímico. Um ruido forte pode gerar isso, produzir medo. Pensemos num tiro. E se o estímulo repete-se muitas vezes, deixa de produzir efeito? Ou o corpo acostuma suportar o efeito? E os efeitos da pressão no corpo de andar de transporte público? E os efeitos da batida da chapa frouxa do busu, e ter que ouvir durante uma hora aquela deschapa na cabeça? É só pegar o metrô em São Paulo, para ver os efeitos do ambiente no corpo das pessoas.

O escritor malinês, Hampâté Bá, em A tradição viva, conta da tradição oral nas sociedades africanas, e como as nações modernas acharam que povos sem escrita eram povos sem cultura. Conta Hampâté Bá que nas sociedades africanas a palavra era considerada uma criação divina. “Na tradição africana, a fala, que tira do sagrado seu poder criador e operativo, encontra-se em relação direta com a conservação ou com a ruptura da harmonia no homem e no mundo que o cerca”. [...] ‘Aquele que corrompe sua palavra, corrompe a si próprio’, diz o adágio. Quando alguém pensa uma coisa e diz outra, separa­‑se de si mesmo. Rompe a unidade sagrada, reflexo da unidade cósmica, criando desarmonia dentro e ao redor de si”, escreveu Bá.

Não vou entrar na questão da palavra como criação divina e nem se o corpo é sagrado. Acho interessante parar para pensar nisso de que mentir para si gera desequilibro. A psicanálise propõe seguir o próprio desejo. O quê acontece em nós quando não seguimos nosso desejo? O quê acontece na gente quando a gente mente para si? Fica em harmonia ou cria desarmonia dentro de si? Quais efeitos tem na gente mentir para si, desejar ir num sentido e ir em outro; ficar num lugar do qual queremos sair? É para a gente ficar equilibrada quando não agimos conforme sentimos? É para as pessoas ficarem equilibradas quando não seguirem sua orientação sexual? É para as pessoas ficarem equilibradas quando não escolhem para si o que desejam e escolhem para si o que desejam os outros? É possível as pessoas ficarem equilibradas quando acreditam numa mentira?

Há pouco tempo uma amiga ficou grávida, não sabia de quem, mas sabia que desejava ter, e acreditava que não tinha condições para oferecer uma boa vida. Mora com a mãe, viciada; a irmã adolescente, que se prostitui; e do lado do gerente da boca. Ela vende na rua produtos que cozinha, de quinta a domingo, suporta a vida como consegue. Considerando que não tinha condições para ser mãe, optou por abortar, comprou a pílula abortiva na mão de um PM. Aquilo desequilibrou completamente ela. Ela queria ter. Uma noite, completamente desequilibrada, foi na UPA psiquiátrica; em menos de quinze minutos deram o diagnóstico de bipolaridade. Aprendi na faculdade que diagnóstico é o último que a gente faz, que primeiro precisa vários encontros com a pessoa, para ter certeza do diagnóstico que você irá dar. Falei para ela: aposto meu diploma que você não é bipolar, leva o psiquiátrica para morar onde você mora, para ver o que você vê quando você acorda, para viver com a mãe no estado que você mora com a sua, para viver do lado da boca, e quero ver se ele consegue viver em equilibro, ou o corpo dele fica tremendo. Além dos efeitos do ambiente, estavam os efeitos de ter mentido para si.

Nesse tempo que a gente vive, onde as pessoas negam a imagem que têm, e publicam selfies com filtro nas redes, mostrando um rosto que não é o próprio; a gente tem que parar para pensar seriamente do quê falamos, quando falamos de saúde mental. O quê seria o saudável? As pessoas suportarem o que suportam sem perder o equilibro? Viver em harmonia onde o ambiente desarmoniza a gente? O quê tira o equilibro da gente? Na hora que a gente for pensar na saúde mental, a gente precisa pensar nas condições que as pessoas vivem, e os motivos daquilo. Com certeza suportar maltrato sem opor resistência, não é signo de saúde.

* Licenciado em Psicologia. Psicanalista.

Classificação Indicativa: Livre

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