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Ministério da Agricultura contraria Bolsonaro e não vê risco de falta de alimentos

Wenderson Araujo/Trilux

Publicado em 09/10/2021, às 09h05    Wenderson Araujo/Trilux    Fábio Pupo e Bernardo Caram/Folhapress

O Ministério da Agricultura monitora potenciais riscos à produção agrícola brasileira, mas não vê cenário de desabastecimento no ano que vem, contrariando uma previsão apresentada pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

A pasta reconhece como problema enfrentado pelos agricultores a escalada do preço dos fertilizantes, amplamente usados no plantio brasileiro.

A elevação dos valores tem como fatores a alta do dólar e um choque de oferta da China, maior fabricante de nitrogenados do mundo, que tem sofrido com altos preços de energia.

Mesmo assim, as projeções são de que a próxima safra de grãos alcance um recorde de 288,6 milhões de toneladas, de acordo com a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento).

Nesta quinta-feira (7), Bolsonaro falou que haverá problemas de abastecimento em 2022 em decorrência de uma possível falta de fertilizantes (usados no plantio).

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"Eu vou avisar um ano antes, fertilizantes: por questão de crise energética, a China começa a produzir menos fertilizantes. Já aumentou de preço, vai aumentar mais e vai faltar. A cada cinco pratos de comida no mundo, um sai do Brasil. Vamos ter problemas de abastecimento ano que vem", declarou Bolsonaro, durante cerimônia no Palácio do Planalto.

O fertilizante pode ter na composição, dependendo do tipo, mais de uma dezena de nutrientes. Os mais importantes são nitrogênio, fósforo e potássio.

Cerca de 85% dos fertilizantes usados no Brasil são importados, e há grande participação de nitrogenados, que derivam de amônia e da transformação química do gás natural.

O preço dos fertilizantes é acompanhado pelo Ministério da Agricultura e tem sido tratado pela chefe da pasta, Tereza Cristina.

Sílvio Farnese, diretor de Comercialização e Abastecimento do Ministério da Agricultura, disse que a leitura da pasta é que não é a primeira vez que o país passa por problemas desse tipo.

"O mercado tem uma agilidade muito grande de encontrar caminhos para viabilizar a oferta", afirmou. "Mas os preços subiram bastante. Em algumas fórmulas de adubo, [o preço] multiplicou por quatro e isso assusta."

Mesmo assim, a leitura inicial da pasta sobre 2022 é que o país ainda deve conseguir fazer uma safra suficiente para o consumo nacional. Mais tempo seria necessário para se verificar a possibilidade de um cenário problemático no ano que vem.

Para Farnese, a versão apresentada por Bolsonaro representa mais uma precaução e pode ser considerada um cenário limite. Mesmo se houver redução da disponibilidade dos fertilizantes, disse, os agricultores brasileiros conseguirão seguir em atividade -embora possa haver menor produtividade.

"Não é visível até agora nada que diga isso [que pode haver desabastecimento]", disse.

"No momento atual, não se consegue ver com precisão o que pode acontecer no ano que vem. Até agora, os indicadores são de que teremos uma produção recorde", afirmou.

"Assim que chegar novembro ou dezembro [quando começa o plantio], podemos ter um quadro mais claro. Por enquanto, é muito mais especulação do que uma certeza", disse Farnese.

Mesmo em um cenário em que as restrições se confirmem, afirmou Farnese, medidas complementares podem ser tomadas em busca de um realinhamento da oferta de alimentos.

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Em 2020 e 2021, por exemplo, o governo cortou as tarifas de importação sobre milho e soja diante da escalada nos preços. O mesmo tipo de medida, disse Farnese, pode se repetir em 2022 caso seja necessário.

Especial atenção é dada ao milho. A escassez do produto pode pressionar ainda mais os preços de proteína no país, já que ele é usado na alimentação de animais.

Os impostos de importação do milho estão cortados até o fim de dezembro e a medida pode ser renovada em 2022 se forem observados novos problemas, segundo Farnese.

Já em relação aos preços de fertilizantes em si, Farnese afirmou haver pouco a ser feito -já que se trata de um problema de oferta externa. Mesmo assim, ele disse ser possível uma negociação direta do governo brasileiro com a China para garantir o fornecimento dos insumos.

A negociação pode ser beneficiada com base na ideia de que o país asiático também depende da produção brasileira. Os chineses são os maiores compradores da soja nacional, e grandes consumidores de outros produtos agrícolas.

Além do risco vindo da China, o Ministério da Agricultura também monitora a situação de Belarus, nação europeia comandada pelo ditador Alexander Lukachenko.

De acordo com Farnese, o país é um dos maiores produtores mundiais de potássio, outro componente usado em larga escala pela agroindústria. Segundo ele, eventuais sanções internacionais ao comércio com a ditadura poderiam gerar reflexos negativos sobre o mercado de fertilizantes.

Para a manutenção do fluxo produtivo do país, o clima continua como um fatores de preocupação do governo. Apesar dos dados positivos apresentados pela Conab para o ano, a previsão de recorde no campo representa apenas as primeiras estimativas para 2022. Será um período de La Niña, o que coloca dúvidas sobre como o clima afetará as principais regiões produtoras.

A avaliação do Ministério da Agricultura, porém, é que o prognóstico para o próximo ano é positivo.

A visão é que o cenário climático deve apresentar uma melhora, depois que o país passou por problemas desde o ano passado.

Após um período mais forte de seca no fim de 2020, geadas atingiram as regiões Sul e Sudeste neste ano, provocando danos sobre as produções de hortaliças, frutas e, principalmente, café.

Questionado sobre os impactos da crise hídrica, que também tem levado a uma alta do custo da energia, Farnese disse que esse não é o fator que mais afeta a produção do país. Segundo ele, o problema pode ser maior para agricultores que usam irrigação impulsionada com o uso de energia elétrica.

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