BNews Agro

Algodão que Aquece: Casacos levam conforto a mais de 44 mil crianças de escolas rurais e ribeirinhas do interior da Bahia

Reprodução IA
Projeto conta com apoio da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa)  |   Bnews - Divulgação Reprodução IA
Vagner Ferreira

por Vagner Ferreira

Publicado em 18/09/2025, às 16h00 - Atualizado às 16h00



Conhecido como ‘ouro branco’, o algodão é uma das fibras naturais mais versáteis e valiosas do mundo, podendo estar presente em roupas, lençóis, toalhas e até produtos médicos. Na Bahia, a cotonicultura ocupa posição de destaque nacional, com grande protagonismo no Oeste do estado, região que responde por mais de 90% da produção estadual. Municípios como Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério se destacam como grandes polos produtores, reunindo lavouras altamente mecanizadas e com elevada produtividade.

A partir dessa fibra, nasce o projeto Algodão que Aquece, da iniciativa do grupo Mulheres do Agro, composto pela confecção e doação de casacos para acalentar alunos de escolas rurais e ribeirinhas, oferecendo conforto nos dias mais frios. 

Algodão que Aquece

O projeto Algodão que Aquece surgiu em 2018 de uma experiência simples, mas transformadora. Inicialmente, as voluntárias do núcleo Mulheres no Agro mantinham uma horta dentro de uma escola e visitavam semanalmente o local para dar assistência e acompanhar o trabalho desenvolvido por alunos e professores. Durante essas visitas, no entanto, depararam-se com uma realidade dura. 

“No mês de junho, começamos a perceber a falta de alunos em uma escola ribeirinha. A diretora nos disse que o transporte escolar passava nas residências por volta de cinco horas da manhã e as crianças não iam porque sentiam muito frio, devido aos nove ou dez graus. Elas não possuíam agasalhos e aquilo foi chocante para nós”, descreveu a presidente da instituição e coordenadora do projeto, Suzana Vicini. “Nós entendemos que precisávamos colaborar com a sociedade. Não podíamos deixar aquelas crianças faltar às aulas por causa do frio”, continuou Suzana. 

Os organizadores buscaram apoio da Associação Baiana dos Produtores, que passou a contribuir desde o primeiro ano da iniciativa. Com o tempo, diversas empresas ligadas ao setor também aderiram ao projeto, o que foi fundamental diante dos altos custos de produção. 

O número de escolas atendidas aumentou gradativamente e, a cada ano, a ação vai se expandindo. Até agora, já foram contempladas 251 escolas de oito municípios do Oeste da Bahia e a expectativa é de que, em 2025, esse número cresça ainda mais. Ao todo, o projeto já beneficiou mais de 44 mil crianças com casacos distribuídos em comunidades rurais e ribeirinhas.

Escolha das escolas

A seleção dos locais para o projeto envolve algumas etapas de avaliação. Em agosto deste ano, o projeto contemplou, em quatro dias, 11 instituições de Barreiras. Foram elas: CMEI Irmã Sabina Moser (Ribeirão), Escola Francisco Joaquim de Lima (Boa Sorte), Escola José Agostinho Porto (Baraúna), CMEI Rosália Silva de Carvalho Souza (Vila Amorim), CMEI Nossa Senhora das Graças (Vila Amorim), CMEI João Paulo II (Santa Luzia), Escola Santa Luzia (Santa Luzia), Escola Prof. Itaraju Queiroz Santos (São Francisco), CMEI São Francisco (São Francisco), Escola Prof.ª Valdete Piedade de Holanda (Buritis) e Escola Carmosa Francisca da Silva (Morada da Lua).

“É fundamental que tanto o município quanto a Secretaria de Educação abracem o projeto. Formalizamos um acordo de cooperação com os municípios, pois é preciso que eles viabilizem a nossa entrada nas escolas e acompanhem o trabalho pedagógico em sala de aula. Além disso, viabilizamos visitas das crianças a propriedades rurais, e é essencial os acompanhamentos para essas visitas, pois são responsáveis por essas crianças”, explicou Suzana. O projeto começou a incluir também a parte pedagógica. 

Colaboração pedagógica

Desde o ensino infantil até a Educação de Jovens e Adultos (EJA), os alunos aprendem outras formas do plantio, além do desenvolvimento da cadeia estrutural, à qual, muitas vezes, já têm acesso, mas sem compreender plenamente, pois não se trata de um conteúdo escolar tradicional.

“Hoje os alunos conhecem como acontece, de fato, o plantio. Nós mostramos que existem eixos que envolvem a escola, a comunidade e a família. E mostramos que a agricultura não é uma vilã, mas sim uma aliada, ela fortalece a educação, leva conhecimento para a sala de aula e faz com que a criança ou adolescente aprenda mais facilmente, porque está estudando aquilo que vive no dia a dia”, disse a psicopedagoga, Nayara Barrocal, ao BNews.

“Falamos muito da pedagogia de projetos. Quando introduzimos na sala de aula o mundo com o qual as crianças já têm contato, mas agora com informações consistentes, com visitas, palestras e experiências práticas, conseguimos promover uma aprendizagem significativa”, acrescentou ela. 

A Escola Municipal Irmã Maria Júlia, no município de Barra, a 648 km de Salvador, foi uma das escolas contempladas. A professora Kedma Suely ressaltou a importância do projeto para as escolas e para os alunos.

“Eles (os alunos) têm a oportunidade de desenvolver suas autonomias e habilidades de leitura e escrita, com uma visão mais ampla do Projeto Algodão que Aquece, que não é só ganhar o agasalho, mas de ver novas possibilidades, além de proporcionar o bem estar dos alunos e contribuir para o crescimento da comunidade”, disse Kedma. 

Ao final do projeto, é realizada uma premiação que contempla alunos, professores, coordenadores e a escola como um todo, levando em conta desenhos, produções textuais, relatórios e até visitas. 

Algodão da Bahia

O projeto conta com apoio da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), referência mundial em cotonicultura sustentável. “A Abapa tem grande admiração pelo Projeto Algodão que Aquece e renovamos com orgulho essa parceria por meio do Conhecendo o Agro. Mais do que financiar casacos, queremos fortalecer a educação, pilar essencial para o futuro do Oeste baiano. O projeto cumpre um papel social importante: aquece nossos estudantes nos meses frios e reforça o algodão como símbolo de cuidado e responsabilidade”, afirma a presidente da associação, Alessandra Zanotto Costa

Em 2025, a Abapa completa 25 anos de atuação, sendo criada para representar os produtores do Oeste da Bahia e impulsionar a pesquisa, inovação, sustentabilidade e capacitação, mantendo programas voltados para educação, qualidade da fibra, fitossanidade, pavimentação de estradas vicinais e recuperação ambiental.

Ao longo dos anos, a produção de algodão na Bahia evoluiu significativamente. Desde a safra 2003/04, o estado se mantém como o segundo maior produtor nacional. A  safra 2024/2025 segue mostrando a força do setor, com expectativa de quase 788 mil toneladas de algodão beneficiado. O aumento da área irrigada, que cresceu cerca de 20% em relação à safra anterior, com expansão de 10,2% na área plantada em relação ao ciclo anterior, atingindo 2,14 milhões de hectares, com produção nacional estimada em 3,96 milhões de toneladas, um aumento de 7,1%.

A coordenadora do projeto Algodão que Aquece, por fim, afirma que o casaco é apenas a porta de entrada para as ações realizadas. “Costumo perguntar em todos os lugares: o que cabe dentro desse Casaco Que Aquece? Cabe tudo isso que já citei, que é conhecimento, estudo, informação, mas também afeto, esperança, vontade de crescer e a motivação para que esses meninos e meninas sejam, no futuro, protagonistas da agricultura em nossa região”, disse Nayara.

“Ele carrega muitos sentimentos, mas também muito conhecimento, para que os alunos conheçam a agricultura, ou o agro, de forma adequada, por meio de um projeto que respeita a região, valoriza as mulheres envolvidas e a comunidade escolar como um todo”, concluiu.

Clique aqui e se inscreva no canal do BNews no Youtube

Classificação Indicativa: Livre

Facebook Twitter WhatsApp Google News Bnews


Cadastre-se na Newsletter do Bnews (Beta)