Cidades

Pai de santo nega acusações de queimar fiéis com ferro quente e diz que vídeos foram forjados por presidente de fundação: "Tudo inventado"

Reprodução / TV Subaé
Pai de santo Luiz Nascimento dos Santos afirma que acusações são manipuladas e busca justiça contra denúncias  |   Bnews - Divulgação Reprodução / TV Subaé
Cauan Borges

por Cauan Borges

cauan.borges@bnews.com.br

Publicado em 07/08/2026, às 13h03



O pai de santo Luiz Nascimento dos Santos, conhecido como "Luiz Curador", negou as acusações de agressões contra filhos de santo e afirmou, em entrevista ao BNews nesta sexta-feira (7), que as denúncias divulgadas contra ele são resultado de uma suposta perseguição promovida pelo presidente da Federação de Umbanda e Cultos Afro da Região de Serrinha (Fucabase), Michel Damasceno Barreto. 

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Segundo o religioso, as imagens que embasaram as denúncias foram manipuladas e ele já acionou a Justiça para buscar retratação e indenização. Ao BNews, Luiz Curador afirmou que o conflito teria começado após ele se recusar a assinar um documento para autorizar um alvará religioso a uma pessoa que, segundo o líder espiritual, não possuía iniciação nem terreiro aberto.

Foi inventado. Isso tudo foi porque o presidente da federação queria que eu assinasse uma documentação. Eu não assinei porque a pessoa não tinha iniciação nenhuma. Depois disso, ele disse que faria de tudo para fechar o meu terreiro", declarou.

O pai de santo afirmou ainda que seu terreiro funciona há 39 anos e que possui o mesmo período de filiação à Fucabase. Segundo o líder religioso, após a recusa, houve uma campanha para descredibilizá-lo: "Ele conseguiu pessoas para fazer montagens em vídeo e colocou nas redes sociais e em canais de televisão. A polícia veio aqui, fez diligências, tirou fotos e não comprovou nada", destacou.

Ainda de acordo com Luiz Curador, o acusado ingressou com uma ação judicial contra os responsáveis pelas acusações: "Entrei com uma ação no Ministério Público pedindo indenização e retratação. Tivemos uma audiência ontem, mas eles não compareceram. Provavelmente haverá uma nova audiência", expôs.

Além disso, questionado sobre os vídeos que mostram pessoas sendo queimadas durante rituais religiosos, Curador voltou a negar irregularidades e afirmou que as cenas foram interpretadas de forma equivocada.

As imagens das queimaduras foram forjadas também. Tudo aquilo faz parte de fundamentos da casa. Não existe isso de pessoas amarradas ou marcadas com ferro de ferrar boi, como disseram", disse Luiz.

Durante a entrevista, o pai de santo também fez acusações contra Michel Damasceno Barreto. Segundo o religioso, o presidente da Fucabase se apresenta como advogado sem possuir registro profissional e acumularia processos e denúncias em diferentes municípios baianos. As alegações foram feitas pelo religioso e não há decisão judicial apresentada que comprove essas acusações.

Relembre o caso

As declarações ocorrem pouco mais de dois meses após a repercussão das denúncias contra Luiz Curador. Em reportagem divulgada no dia 29 de maio, quatro ex-integrantes do Terreiro de Oxóssi denunciaram terem sido submetidos a queimaduras com ferro quente e charutos durante rituais religiosos realizados em Araci, município localizado a cerca de 107 quilômetros de Feira de Santana.

As vítimas relataram ainda que permaneceram confinadas em quartos escuros por dias, sem acesso adequado à higiene, e afirmaram que os procedimentos eram apresentados como parte de uma preparação espiritual para se tornarem sacerdotes.

Uma das vítimas contou que recebeu uma marca com ferro aquecido em brasas após ser informada de que o procedimento seria obrigatório para alcançar o posto de babalorixá. Outra denunciou ter sido queimada com um charuto durante um ritual relacionado a Ogum. Ademais, também houve relatos de pessoas que disseram ter permanecido dias recolhidas em quartos do terreiro, utilizando baldes para necessidades fisiológicas.

A TV Subaé teve acesso a vídeos que mostram um homem sendo queimado com a brasa de um charuto e duas mulheres vendadas durante o recolhimento religioso. Na ocasião, a Fucabase repudiou as supostas práticas atribuídas ao terreiro e afirmou que queimaduras com ferro quente não fazem parte das religiões de matriz africana.

O presidente da entidade, Michel Damasceno Barreto, declarou que a federação pediria o afastamento do religioso e afirmou que esse tipo de conduta remete a práticas de tortura, sem qualquer fundamento religioso.

O secretário da federação, Anailton Pereira, também condenou as denúncias, ao afirmar que "a essência da religião é cuidar e amar". A entidade destacou ainda, por meio de nota, que provocar queimaduras pode configurar crimes como lesão corporal e tortura, dependendo das circunstâncias.

No mesmo sentido, a Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro-Ameríndia (AFA) afirmou que rituais envolvendo queimaduras não são reconhecidos pelas religiões de matriz africana. O presidente da entidade, Leonel Monteiro, classificou a prática como incompatível com a tradição religiosa e orientou as supostas vítimas a procurarem os órgãos competentes.

Defesa já havia negado acusações

Desde o surgimento das denúncias, filhos e filhas de santo do Terreiro de Oxóssi também contestam as acusações. Em nota divulgada nas redes sociais, o grupo afirmou que ninguém foi obrigado a participar de qualquer ritual contra a própria vontade e classificou as denúncias como "infundadas" e resultado de perseguição religiosa.

Segundo a manifestação, cada terreiro possui fundamentos próprios dentro das religiões de matriz africana e as medidas judiciais cabíveis já estariam sendo adotadas para preservar a imagem da instituição religiosa.

Enquanto isso, a Polícia Civil informou que o caso segue sendo investigado pela Delegacia Territorial de Araci, por meio de inquérito instaurado para apurar suspeitas de lesão corporal dolosa. As oitivas continuam sendo realizadas para esclarecer os fatos.

Confira a nota na íntegra do Terreiro de Oxóssi:

"Nós, filhos e filhas de santo do Terreiro de Oxóssi, viemos por meio desta nota nos manifestar a respeito dos vídeos que vêm circulando nas redes sociais envolvendo o nome do nosso terreiro.

Reafirmamos com total clareza que, em nenhum momento, qualquer filho ou filha de santo foi obrigado(a) a realizar qualquer tipo de prática contra a sua vontade, muito menos submetido(a) a qualquer forma de tortura física ou psicológica. As acusações divulgadas são infundadas e não correspondem à realidade vivida dentro da nossa casa.

Repudiamos veementemente tais alegações, que consideramos fruto de desinformação e, sobretudo, de perseguição religiosa. Infelizmente, esse tipo de ataque parte, inclusive, de pessoas que se intitulam "pais de santo", mas que desconhecem ou desrespeitam a diversidade de doutrinas existentes nas religiões de matriz africana, onde cada casa possui seus próprios fundamentos e práticas.

Informamos também que já estamos tomando as devidas providências cabíveis diante dessas acusações, buscando preservar a verdade, a integridade do nosso terreiro e o respeito à nossa fé.

Nós, filhos e filhas de santo, temos orgulho do nosso pai de santo e da nossa casa. Permanecemos firmes no compromisso de agir com responsabilidade, ética e transparência, sempre abertos ao diálogo e à construção de um ambiente religioso saudável e respeitoso. Seguiremos honrando nossa fé e nossas tradições, sem nos curvar a ataques ou tentativas de descredibilização".

Classificação Indicativa: Livre

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