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Secretário de Meio Ambiente se manifesta após prefeitura de Ilhéus embargar obra sob denúncia de crime ambiental no aeroporto

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O secretário Fábio Mendonça conversou com a reportagem do BNews sobre a tentativa de instalação de um posto de abastecimento da Avigás  |   Bnews - Divulgação Reprodução / Ilheus.com.br
Tiago Di Araújo

por Tiago Di Araújo

tiago@bnews.com.br

Publicado em 27/08/2025, às 11h31 - Atualizado às 15h25



Um suposto crime ambiental tem gerado discussão em Ilhéus, no sul da Bahia, e movimentado lideranças do segmento da região. Trata-se de uma obra da empresa Avigás Nordeste, iniciada sem as devidas licenças na área do aeroporto Jorge Amado, para instalação de um posto de abastecimento de aeronaves. 

A construção, que estava em fase inicial, foi embargada pela Prefeitura de Ilhéus após denúncias de movimentos ambientalistas locais, quando foi constatada a ausência da documentação devida para as específicas intervenções. Em nota, a gestão municipal informou que o embargo foi realizado por meio da Secretaria de Ordem Pública.

obra embargada

Na época, a Secretaria de Meio Ambiente também foi procurada diretamente pela reportagem, mas não se manifestou. Agora, o secretário Fábio Mendonça conversou com o BNews em entrevista exclusiva e detalhou a atuação da pasta no caso e destaca a ausência de crime ambiental. 

Apesar da prefeitura de Ilhéus ter confirmado, em nota enviada ao BNews, que a obra estaria sendo realizada nas dependências do aeroporto, o secretário contrariou a gestão municipal e disse ser uma área na parte externa. 

Confira a entrevista na íntegra com Fábio Mendonça, secretário de Meio Ambiente de Ilhéus

BNEWSA obra no aeroporto avançou até ser embargada sem qualquer licença ambiental. Qual foi o primeiro momento em que a Secretaria tomou conhecimento da obra e por que não houve intervenção mais cedo?

FÁBIO MENDONÇA - Não existiu obra propriamente dita. O que houve foi o início da instalação de um padrão de energia em área externa do aeroporto. Assim que tomamos conhecimento, a Prefeitura fez o embargo dos padrões.

BNEWS - A área afetada foi identificada como uma possível Área de Preservação Permanente (APP). A Secretaria já possui esse mapeamento?

SECRETÁRIO - A identificação da área ocorrerá durante análise do processo de licença, que está em andamento.

BNEWS - A secretaria considera que houve crime ambiental no caso da intervenção em área apontada como sendo de manguezal?

SECRETÁRIO - Não houve crime ambiental, pois não houve nenhuma movimentação interna, e sim, fora do aeroporto. A área em que o requerente solicita a autorização ainda está sendo analisada dentro do processo.

BNEWS - A Socicam, responsável pela administração do aeroporto, autorizou a obra mesmo sem as devidas licenças. Como a secretaria vai agir em relação a isso?

SECRETÁRIO - Ao se constatar qualquer obra ainda não licenciada, o município, através da Secretaria de Ordem Pública, realiza a notificação.

BNEWS - E em relação à empresa Avigás, responsável pela obra, qual será o procedimento a ser adotado?

SECRETÁRIO - A empresa terá que respeitar todo o processo legal e administrativo.


Após a publicação desta matéria, o secretário Fábio Mendonça procurou a reportagem do BNews e negou ter contradito a prefeitura de Ilhéus. O titular do Meio Ambiente da cidade afirmou que se referiu apenas a uma parte da obra, localizada do lado externo do Aeroporto Jorge Amado, mesmo diante do questionamento sobre o conjunto da construção. Já a gestão municipal, quando questionada, confirmou o embargo da obra, esclarecendo que a medida dizia respeito às dependências do terminal.

A título de esclarecimento, informo que não houve qualquer contradição quanto à localização da obra. A área para a qual foi solicitado o licenciamento encontra-se no interior do aeroporto. O que ressaltei é que o padrão de energia, já construído e embargado pelo município, está situado na área externa.


Denúncia da obra sem licença

Apesar do secretário Fábio Mendonça negar a existência de crime ambiental e não confirmar que a obra estaria sendo realizada em uma área de preservação ambiental, um relatório especializado enviado à reportagem do BNews aponta indícios de que a área é de preservação ambiental, com características de ecossistema de manguezal.

No laudo, com parecer técnico do biólogo Alfredo Barbosa Gusmão, são listados traços de que o local da obra se trata de Área de Preservação Permanente (APP), por exemplo: 

  • proximidade ao Rio Cachoeira pertencente à Bacia Hidrográfica Rio Cachoeira
  • indícios de solo hidromórfico
  • canal de drenagem que caracteriza conexão hidrológica potencial e influência de marés
  • presença de água a apenas 30 centímetros de profundidade, o que indicaria saturação do solo
  • risco à vegetação nativa (restinga e manguezal)
  • proximidade de curso d'água natural

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O relatório, que deverá ser apresentado à prefeitura de Ilhéus e aos órgãos responsáveis, descreve como fundamentação legal: 

  • Constituição Federal, art. 225 – Direito ao meio ambiente equilibrado e dever de preservá-lo. 
  • Lei Federal nº 12.651/2012 (Código Florestal) – Art. 4º, incisos I e IV: APP de 500 metros de margem para rios com largura superior a 600 m. 
  • Resolução CONAMA nº 303/2002 – Art. 3º, X: Define o manguezal como APP “em toda a sua extensão” e estabelece APP mínima de 100 m no entorno de estuários. 
  • Resolução CONAMA nº 429/2011 – Critérios para caracterização e restauração de APPs em áreas úmidas. 
  • Lei nº 9.605/1998 (Crimes Ambientais) – Art. 38 e 38-A: proíbem a destruição de vegetação em APP

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Além disso, o documento indica a necessidade de embargo da obra e de vistoria técnica, que incluiria medição do lençol freático por meio de piezômetro, avaliação da conexão hidrológica com o mangue e o estuário, verificação da regularidade da obra, emissão de um relatório ambiental inicial (greenfield) na fase de Licença Prévia (LP), registrando a linha de base ambiental e identificando eventuais passivos e perícia sobre fauna e flora da área.

Vídeos enviados à reportagem reforçam a denúncia da existência de água no solo com baixa profundidade e do curso d’água natural nas proximidades da obra, assim como uma medição para comprovar que o local está situado dentro de 500 metros da margem assegurados pela Lei nº 12.651/2012 (Código Florestal), art. 4º, incisos I e V para canais com largura superior a 600 metros. 


O que dizem os vereadores da cidade?

Diante da discussão, a reportagem do BNews apurou como está sendo tratada a questão dentro da Câmara Municipal de Vereadores.

Procurada, a vereadora Enilda Mendonça (PT) afirmou que tem acompanhado as medidas tomadas pela gestão municipal. "Até o momento agiram certo", declarou ao destacar que ainda não nenhum debate sobre a obra na Câmara.

Já o vereador Maurício Galvão (PSB), que é engenheiro florestal, disse ter tomado conhecimento de que a área da construção não seria de manguezal, e sim próxima, mas que buscaria mais informações através de fiscalização no local. Portanto, não apresentou retorno sobre o caso.

O que diz a prefeitura?

Procurada pela reportagem do BNews, a prefeitura de Ilhéus confirmou se tratar de uma obra dentro da área do Aeroporto Jorge Amado para implantação de um posto de combustível aéreo da empresa Avigás, mas ressaltou que a continuidade depende dos licenciamentos devidos junto à Secretaria de Meio Ambiente e outros órgãos responsáveis. 

Em nota, a gestão municipal também confirmou ter feito o embargo da obra, por meio da Secretaria de Ordem Pública, devido à irregularidades, e que a liberação só ocorrerá após alinhamento dos procedimentos legais junto à empresa. 

“A Prefeitura de Ilhéus, por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, informa que a empresa AVGAS Nordeste encontra-se em processo de licenciamento para implantação de um novo empreendimento no bairro Pontal.

Porém, foi verificado o início das obras antes da conclusão das etapas necessárias do processo, o que levou à adoção de medida de embargo pela Secretaria de Ordem Pública, conforme determina a legislação.

A administração municipal reforça que o diálogo com a empresa está em andamento para que todas as ações sejam realizadas dentro dos procedimentos legais vigentes, assegurando o desenvolvimento econômico, a preservação ambiental e o ordenamento urbano”.

O que diz a Socicam?

Socicam, empresa responsável pela administração do Aeroporto Jorge Amado, também foi procurada pela reportagem, e negou que exista obra em andamento para construção de um posto de abastecimento. 

“A concessionária do Aeroporto de Ilhéus informa que, no momento, não há obras em andamento para a construção de um novo Parque de Abastecimento de Aeronaves (PAA) no empreendimento”. 

No entanto, a Socicam destaca que há negociação com uma empresa interessada em prestar o serviço no local, mas que qualquer prosseguimento nas tratativas só ocorrerá mediante apresentação de documentação necessária.

“Embora haja tratativas com uma empresa interessada em instalar o posto em área adjacente ao já existente, a autorização para qualquer intervenção está condicionada à apresentação, pela empresa, de todas as licenças exigidas pelos órgãos competentes”.

Por fim, a administradora “reafirma seu compromisso com o cumprimento da legislação vigente e com a excelência das operações no Aeroporto Jorge Amado”. 

Avigás Nordeste 

A reportagem do BNews não conseguiu contato com a Avigás Nordeste através dos meios disponibilizados junto ao registro da empresa, assim como por meio da Comav Transportes, companhia que atua em parceria com a empresa citada no transporte de combustíveis, e nenhum retorno foi dado até o momento.

Outros órgãos

BNews procurou também o Instituto Do Meio Ambiente E Recursos Hídricos (Inema), responsável pela gestão ambiental e de recursos hídricos no estado da Bahia, que informou ser "que a responsabilidade seria da Prefeitura local, visando que é a responsável para licenciamento e fiscalização do empreendimento". 

Já o Ministério Público da Bahia (MP-BA) informou que "a competência para atuação em infrações administrativas ou crimes que versa sobre meio ambiente dentro da área do aeroporto, compete ao MPF, visto ser área federal".

Procurado, o Ministério Público Federal (MPF) destacou, por meio da Coordenadoria Nacional de Relacionamento Estratégico, que o caso deve ser apurado junto ao órgão, mas na atuação do estado, que não respondeu à nossa solicitação.

Classificação Indicativa: Livre

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