Cultura
por Analu Teixeira e Matheus Simoni
Publicado em 16/02/2026, às 09h51 - Atualizado às 10h50
No dia em que o bairro do Garcia recebe, nesta segunda-feira (16), o tradicional desfile da Mudança do Garcia, o presidente do bloco, Raymundo Badaró, fez duras críticas à Prefeitura de Salvador e à forma como o poder público tem apoiado a festa.
Segundo ele, há um descompasso entre o investimento em trios elétricos e artistas pagos e a ausência de recursos para manter a essência histórica da manifestação.
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Esse ano completa 96 anos. Uns dizem que começou em 1930, outros em 1926. Pela conta mais nova, são 96 anos. E faz 96 anos com irreverência, mas com a briga de sempre: não tem recurso. A prefeitura só dá recurso para trio e artista, afirmou.
Badaró reclama que a parte estrutural e simbólica da Mudança, como carroças, alegorias e adereços, não recebe apoio financeiro. “Tem a parte que eu chamo de legado da mudança: as carro-cicletas, os adereços, as alegorias. A prefeitura nunca dá dinheiro para isso. Alguns deputados ajudam, alguns vereadores ajudam, mas da prefeitura não saiu nada”, criticou.
Ele também apontou que o município chegou a promover um evento paralelo com atrações musicais.
“A prefeitura se limitou a fazer um evento paralelo à Mudança do Garcia, com artista, ficha de arrocha, que não tem nada a ver com o bairro. Trio elétrico e artista nunca estiveram na história da mudança. Isso foi colocado nos últimos tempos como uma maneira de transferir recurso.”
Protesto, política e tradição
Criada na década de 1920, a Mudança do Garcia surgiu como um movimento popular “anti-sistema” no bairro do Garcia. Inicialmente chamada de “Arranca-Tocos”, depois “Faxina do Garcia”, a manifestação consolidou-se como um bloco de protesto político, marcado por irreverência e críticas sociais.
Com o calçamento das ruas, na década de 1950, o evento passou a ser conhecido como Mudança do Garcia, nome atribuído ao então vereador Herbert de Castro. Desde então, tornou-se uma das expressões mais autênticas do Carnaval de Salvador, especialmente por manter viva a tradição de levar mensagens políticas às ruas.
“As carroças são os bonecos de Olinda, o Bumba-meu-boi, as baianas, as mensagens. Sindicato, partido político, o Bloco do Galo, o Bloco da Resistência. Essa é a verdadeira mudança”, reforçou Badaró.
Nas carrocicletas, que já começam a ganhar as ruas do Garcia, as mensagens deixam claro que a tradição do protesto segue viva. Entre os cartazes, frases como “Nenhuma mulher a menos, nenhum feminicídio a mais”, “Favela não é caso de polícia, é caso de política!”, “Aluno sem merenda, professor sem salário". Até quando?” e “Censura não! Arte e cultura são resistência!” reforçam o caráter combativo da manifestação.

Também há críticas diretas ao poder público, com questionamentos como “Cadê o saneamento? Baía de Todos os Santos pede socorro!” e provocações políticas em tom de irreverência, marca registrada da Mudança.
Outro cartaz diz: “Carnaval sem LGBTfobia: a rua é de todes!”, reafirmando o posicionamento social do bloco.
As estruturas, que substituíram as antigas carroças de tração animal por modelos elétricos, mantêm o formato tradicional que transformou a Mudança do Garcia em um dos maiores símbolos de protesto popular do Carnaval de Salvador.
Risco de apagamento e pedido de reconhecimento
O presidente também demonstrou preocupação com o que chama de apagamento cultural. Segundo ele, já existe uma ação no Ministério Público para tentar transformar a Mudança do Garcia em patrimônio imaterial.
“A gente vê muitas manifestações sofrendo apagamento. A gente quer que a mudança se transforme em patrimônio imaterial para que não morra como outras morreram. A parte real da mudança está se esvaziando.”
Ele citou ainda a necessidade de preservar o formato original do desfile, mesmo com adaptações ao longo do tempo. As antigas carroças de tração animal foram substituídas por versões elétricas, em respeito à causa animal, mas o espírito do protesto segue como base.
“Eu não estou dizendo que não pode evoluir. Mas não demais, como dizia Paulinho da Viola: pode mudar, mas não tanto.”
Ao fundo da entrevista, a imagem de Riachão simbolizava a herança cultural da festa. “A gente quer que, quando chegar aos cem anos, seja como era no tempo de Riachão.”
96 anos de irreverência e luta
Com o tema “96 anos de irreverência e luta”, a edição deste ano também presta homenagem ao samba, apontado como essência do bairro.
A Mudança do Garcia sempre foi samba. O Garcia é um bairro de samba. Estamos exaltando o samba ancestral, a árvore dos ancestrais.
O desfile está previsto para começar a partir das 15h30, segundo a Prefeitura de Salvador, no final de linha do Garcia, seguindo até o Circuito Osmar (Campo Grande). No entanto, foliões devem se reunir na região desde a manhã.
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