Economia & Mercado

Após maior tombo da história da Bolsa brasileira, especialista indica coronavírus como um dos responsáveis

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Economista ressaltou papel da epidemia nas movimentações   |   Bnews - Divulgação Arquivo/Agência Brasil

Publicado em 10/03/2020, às 17h47   Marcio Smith



As movimentações na Bolsa de Valores no Brasil e a alta do dólar têm chamado a atenção nos últimos dias. O BNews conversou com o especialista Antônio Carvalho, professor de Economia, Finanças e Contabilidade, especialista em Finanças, mestre em Administração e doutorando em Economia para explicar quais fatores ocasionaram o maior tombo da história da Bolsa de Valores, com uma queda de 12,17% - fechando aos 86.067 pontos. De acordo com Carvalho, o resultado foi influenciado pela epidemia do coronavírus e pelo comportamento no preço do petróleo.

Na última segunda-feira (9), a Bolsa de Valores brasileira (Bovespa) teve um dia intenso e bem movimentado. Logo após sua abertura, foi registrada uma queda de 10%, fazendo ser acionado o mecanismo chamado Circuit Breaker – que é um dispositivo de paralisação das transações no Mercado Financeiro. As negociações foram paralisadas por 15 minutos.

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A baixa no preço do petróleo foi ocasionada por uma negociação fracassada entre a Arábia Saudita e a Rússia quanto ao preço do barril do combustível. O barril do tipo Brent, referência para os preços, apresentou uma queda de 21% às 10h40 da manhã desta segunda, sendo vendido a 35,81 dólares. 

“A Arábia Saudita é o principal produtor de petróleo do mundo, como principal produtor você tem uma grande influência no mercado, a Rússia produz muito pouco e consume muito, nesse conflito, o maior produtor sempre vai estabelecer regras. Essa redução do preço impacta os mercados, não só produtores”, afirmou o especialista.

Carvalho ressaltou que a baixa no valor de venda do barril de petróleo não deve ocasionar uma diminuição no preço da gasolina para os consumidores. “O preço da gasolina, como é uma commodity internacional e existe uma regra de que o preço do barril, segue o preço do mercado internacional”, explicou.

O especialista ressaltou que o funcionamento da Bolsa é impactado por fatores nacionais e internacionais e que os resultados da segunda-feira seguiram a tendência mundial. “O que mais impactou na queda da Bolsa foi o comportamento do petróleo, que é a principal commodity do mundo, as tensões mundiais entre China e EUA e o coronavírus que surgiu causando um temor mundial”, avaliou.

Carvalho explicou ainda que a performance da Bovespa não deve encarecer o preço dos produtos locais, em supermercados, por exemplo. “No curto prazo, não. Precisaria ter uma queda muito acentuada ou uma tendência de queda por pelo menos dois ou três meses, você poderia ter algum efeito na economia doméstica”.

O BNews questionou o professor se poderíamos ficar “tranquilos e serenos”, como disse o ministro Paulo Guedes. “Essas oscilações são, de certa forma, naturais no mercado de capitais. Claro que quando são muito acentuadas assim, e num curto período de tempo, elas assustam. Mas, sendo elas ocasionadas, não somente localizada, ou seja, se fosse uma queda somente na Bolsa brasileira seria assustador”, esclareceu.

“Nós já tivemos queda muito acentuadas como aconteceu com a queda da Petrobras no auge da crise e com a Vale, não tão acentuada, por conta do rompimento das barragens. Nesse caso, como é um comportamento do mercado internacional, não é nada desesperador. É claro que exige cuidado e atenção dos investidores, já que assusta as pessoas que não estão acostumadas a lidar com esse mercado, mas não é nada tão desesperador”, relembrou o professor Antônio Carvalho.

Alta do dólar

A reportagem perguntou ao economista sobre as recentes altas do dólar [moeda norte-americana] que motivam discussões na rede social. “Nós usamos um modelo de câmbio flutuante que o governo não se dispõe a intervir, uma das formas do governo intervir é vendendo dólar para conter a alta. As pessoas perguntam: O dólar em alta é bom ou ruim? Depende de onde você está, se você é exportador, as empresas exportadoras estão felizes da vida, o trade turístico interno está feliz. Já para quem importa, eles estão sofrendo com esse dólar”.

“O Brasil tem uma balança comercial que oscila. Se o Brasil exporta muito, com o dólar mais alto, a economia interna é fortalecida, quem produz para exportação estará estimulado a produzir mais e vender a preços melhores. Quem opera na economia doméstica, como o trade turístico, está feliz já que as pessoas estão viajando dentro do Brasil. Para quem importa esse momento é complicado. O problema é que o Brasil importa produtos industrializados [com um maior valor agregado] e exporta produtos agropecuários. O fato de você manter o real desvalorizado em relação ao dólar, no curto prazo para quem importa, é péssimo. No longo prazo, talvez impulsionasse o desenvolvimento de uma indústria nacional, o que nós não temos. Nossa indústria é muito fragilizada e de matéria prima”, criticou.

Crise na Bolsa impacta no PIB

Segundo o especialista, o comportamento no preço do petróleo e o coronavírus devem impactar no resultado do Produto Interno Brasileiro (PIB) de 2020, por conta das relações entre o Brasil e a China. 

“Com certeza vai impactar, é cedo para dizer o quanto, já que não sabemos por quanto tempo teremos coronavírus e o preço do petróleo, independentemente do tempo, ainda que ele parasse agora, ele já afetou a China que é o nosso maior comprador e ele afetou a economia mundial e o Brasil que está num momento de ligeira recuperação não é diferente. O quanto, só o tempo dirá, se o dólar vai permanecer em alta, se o coronavírus vai permanecer e se essa crise momentânea do petróleo vai se estender por mais tempo. Infelizmente, não podemos afirmar ainda o quanto irá impactar [...] Essa retomada de crescimento é lenta, a economia funciona baseada num aspecto muito subjetivo que é a confiança. Vai depender desses dois fatores que estão afetando a economia mundial, o coronavírus e essa crise do petróleo”, afirmou Carvalho.

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