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Conheça pequenas iniciativas que deram origem a um beco de arte e cultura na periferia de Salvador

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Apesar da falta de estrutura, artistas da periferia se reinventam e transformam oportunidades em negócios  |   Bnews - Divulgação Reprodução / Redes Sociais
Vagner Ferreira

por Vagner Ferreira

Publicado em 09/06/2025, às 07h49



Becos e vielas são locais estruturalmente banalizados, por estarem associados, muitas vezes, a uma construção social negativa. Entretanto, esses espaços são marcados também por pessoas que carregam histórias de fé, esperança, criatividade e reinvenção. E que, apesar da ‘invisibilidade’, da falta de estrutura e de recursos básicos, se viram e transformam oportunidades em negócios - o que tem acontecido com um beco cultural de Águas Claras, bairro da periferia de Salvador, localizado às margens da BR 324 e, subjetivamente, às margens da sociedade.

Isso porque um espaço local passou a unir diferentes manifestações artísticas, como arte, grafite, mosaicos, saraus, varal de fotografia, rodas de conversa, lançamento de livros, ‘cine quebrada’, apresentação de teatro, músicas ao vivos e muita gastronomia peculiar e específica do povo negro. Assim, passou a ser vitrine também para que pequenos artistas possam expor seus trabalhos e, até mesmo, rentabilizá-los dentro da própria comunidade.

A ideia, no entanto, surgiu há 18 anos, da necessidade de emprego e renda de Luzimeia Guimarães, conhecida carinhosamente como tia Lu, em meio a alternativas para sustentar os três filhos. O local, assim como todo o beco, passou a ser conhecido como Cantinho da Lu. 

“A coisa começou a apertar e, aí, as pessoas daqui da minha comunidade falaram: ‘Faz um feijão para a gente comer quando chegar do baba’ e eu passei a fazer para uma quantidade X, mas, no final, sempre chegava mais um e eu me perguntava o que fazer para alimentar tanta gente. Ao invés de colocar mais água, comecei a colocar farinha, fazendo o Angú de Feijão, que era comida de escravos. Na época, a casa branca comia e jogava os restos na senzala, mas, como tinha muita gente lá, a comida ficava pouca, então colocavam farinha. Aqui em casa meio que já acontecia isso, porque a nossa família era grande e nós tínhamos que dar comida a todo mundo”, descreveu tia Lu, sempre reforçando a cultura negra no espaço.

Negócios liderados por mulheres

De acordo com informações do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (sebrae), os pequenos negócios correspondem a 98% dos empreendimentos legais do país, movimentam mais de um quarto da economia nacional e foram responsáveis por gerar, em 2024, cerca de sete em cada dez novos postos de trabalho. A atuação desse segmento alcança, de forma direta ou indireta, quase metade da população do país. Ainda, a presquisa apontoa que, dos 30 milhões de empreendedores no Brasil, mais de 10 milhões são liderados por mulheres e mais da metade são mães (50,5%), perfil do qual Luzimeia faz parte.

Ela, que estava envolvida com blocos afro e movimentos negros do centro da cidade, e com uma bagagem cultural imensa, sentia a necessidade de fazer algo significativo na ‘quebrada’ em que morava.

Eu não queria que as pessoas apenas chegassem, tomassem cerveja e saíssem. Eu sentia a necessidade de fazer algo diferente porque eu estava em um cenário em que tinha o meu filho, os amigos deles, os filhos e os netos de minhas amigas e toda a garotada da comunidade. Eu precisava fazer algo para essa juventude, para dar esperanças e mostrar que aqui não é só violência. Tínhamos que nos agregar, que nos aquilombar”, disse.

Dessa inquietação, o Cantinho deixou de ser apenas uma opção de sustento e se tornou sede de manifestações artísticas e culturais do bairro. Lá, muros viram quadros, relatos se tornam livros, realidades se convertem em letras de músicas ou peças de teatros e cenários ganham vida, tanto na fotografia, quanto no audiovisual.

“Fomos fazendo parcerias com bibliotecas comunitárias; com o pessoal do grafite, que é muito forte aqui em águas claras, com o menino Vidal, Daniel, Maô; começamos a incluir músicas, com meu filho que é rapper e com Fabio Lyra com o reggae; trouxe o Cine quebrada, da Ufba, com Julia Moraes; veio o grupo de mulheres Zeferinas, para um bate-papo de comadre; Leno Sacramento e Margareth chegaram para fazer lançamento de livros; trouxe mulheres que tocavam pandeiros e tantos outros”, pontuou Lu.

Artistas locais

O local passou a contar com artistas de diferentes segmentos, que encontraram ali, no Cantinho, uma oportunidade de expor seus produtos, suas artes e seus talentos, ampliando, até mesmo, o alcance dos seus negócios.

Grafite em Águas Claras
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Um dos integrantes locais é o artista urbano Vinícius Vidal, que tem contribuído com suas cores e mensagens por meio do grafite. “O espaço revela muitas potências. Há muitas joias e muitostalentos a serem lapidados ali. É uma verdadeira força da nossa comunidade. Por isso, esse lugar é tão importante tanto para os jovens, que querem conhecer a cultura e beber dessa fonte, quanto para os mais velhos, que vão para tomar uma cerveja, conversar, interagir com os mais novos e conhecer o que a comunidade tem feito de positivo”, contou Vidal. 

“Muitas pessoas chegam convidadas por outras, e isso vai criando uma grande rede. Às vezes, alguém que escreve poesia encontra outra pessoa com um violão, e dali nasce um sarau. No meu caso, como artista do grafite, quando chego e vejo um espaço disponível, já começo a pintar. Isso deixa o lugar mais bonito e atrai ainda mais gente com boas intenções. O local coloca em pauta o que temos de melhor na nossa comunidade. Todos têm orgulho de fazer parte disso, de se sentir pertencentes à família que se forma ali”, acrescentou, ressaltando que um de seus passatempos favoritos no local é  ouvir músicas em vinil.

Atento para as raízes culturais locais, o músico Ícaro Caribé observa o Cantinho como um lugar de resistência e celebração da memória coletiva. "Além de ser um ambiente onde a cultura local é muito viva, é também um espaço de bastante memória, e a sua própria identidade trás isso. A própria Lu faz questão de ressaltar a importância dos artistas responsáveis pelas obras que são visivelmente estampadas no espaço, falando sobre a estética de cada um e ressaltando a importância deles para o cenário como um todo. Todos esses elementos tornam o lugar acolhedor, despertando o sentimento de enaltecer a localidade e todos que fazem parte dela", contou ele. 

De acordo com dados de 2023 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 79% dos empreendedores da Bahia são negros. E ainda, uma pesquisa inédita do Sebrae Bahia, nomeada de Propósitos dos Afroempreendedores Baianos, sobre afroempreendedorismo, aponta que, do geral, 54% são mulheres.

Cine Quebradas
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A produtora Júlia Moraes é uma das responsáveis pelo Cine Quebradas, uma mostra audiovisual dedicada a filmes de mulheres negras, lésbicas e bissexuais. Ao levar a exibição para Águas Claras, ela ressaltou o espaço como ponto de encontro, acolhimento e visibilidade para narrativas diversas. “Foi um processo muito importante por lá ser esse centro da comunidade que agrega, que acolhe e recebe todo mundo, independente de quem seja. Então foi muito bonito, muito afetuoso, foi muito abundante e muito emocionante. Com certeza está marcado na nossa história”, disse.

Já o Artista Plástico, Michel Reis, que atua com criação de biscuit, ressaltou a importância da iniciativa na construção de sua própria identidade. “O espaço tem uma extrema importância e um extremo impacto para mim, porque valoriza a importância do artista periférico do bairro, o homem preto e o morador como alguém que está buscando formação, quebrando aquela imagem de que periférico não estuda. Lá, consegui enxergar a minha importância como uma pessoa que estuda artes, e o local se tornou uma ferramenta para quebrar barreiras, mostrando, para quem não tem acesso por diversos motivos, a importância da sua ancestralidade, do respeito e das múltiplas culturas”, descreveu.

O Cantinho atua também como um espaço de solidariedade ativa. Através do apoio coletivo da própria comunidade, o local promove - quando necessário - ações sociais como campanhas para doação de roupas, de alimentos, mobilizações em busca de tratamentos médicos e até iniciativas de suporte para que jovens consigam permanecer na universidade. Tudo é feito de forma colaborativa e comunitária, com o envolvimento de vizinhos, amigos, artistas e parceiros que acreditam na potência da união e no cuidado com o outro. No mais, Tia Lu enfatiza, em meio a tantas notícias negativas em relação à periferia que a torna marginalizada, a importância de fortalecer a união da comunidade e promover uma corrente do bem, destacando assim, o que de melhor existe nas pessoas. 

“Nós temos que segurar a nossa galera, o nosso povo preto, e temos que dizer que vamos juntos, de mãos dadas. Temos que desmistificar mitos, pegar na mão e acreditar. Dizer: ‘você também vai, você consegue, vamos fazer juntos’. Temos que olhar para as nossas comunidades e plantar uma sementinha”, recomenda.

Eu acredito que tenho uma missãozinha para cumprir ainda aqui com a minha garotada e com a garotada que está chegando”, concluiu Luzimeia.

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