Geral
Publicado em 23/01/2025, às 12h08 Vagner Ferreira
O dia amanhece bem cedo em Águas Claras, periferia de Salvador, para as Irmãs Franciscanas da Imaculada. O sino toca, pontualmente, às 4h50, ecoando pelas áreas internas do convento e, antes do nascer do sol, Irmã Aguinólia Rosa (Irmã Noli), 52, desperta em sua modesta clausura (quarto), para encarar a realidade adversa da região. Ela levanta da cama, faz o sinal da cruz seguida pela oração pessoal, põe as vestes e o hábito cinza acompanhado de um longo cordão branco de três nós - que fica situado em sua cintura -, e calça uma sandália de couro, símbolo de São Francisco de Assis, santo católico patrono da sua espiritualidade, lembrado pela radicalidade em doar a vida a serviço das pessoas pobres e mais necessitadas.
Do quarto, segue à capela ao encontro das outras irmãs - o convento conta, atualmente, com seis irmãs: Irmã Noli, Irmã Cida, Irmã Rosária, Irmã Sineide, Irmã Neia e Irmã Kiara -, para uma reza comunitária, seguindo para a meditação, as preces e a oração do terço, pedindo a Deus forças para todo o dia que está por vir. Depois, cada uma se direciona para a sua função.
Realidades adversas
O bairro de Águas Claras está localizado às margens da BR-324, próximo ao limite de Salvador com Simões Filho, na região metropolitana. Contudo, enfrenta desafios sociais comuns a muitas zonas periféricas de Salvador, como a carência de infraestrutura e recursos básicos. Nesses 40 anos no bairro, as freiras já realizaram, junto com as famílias, ações de busca por soluções habitacionais, apoio psicológico, auxílio na inserção no mercado de trabalho, pagamentos de contas de energia, de água, compra de gás, além do acolhimento de crianças em situação de abandono ou abuso. Assim, elas atuam enfrentando diversas frentes para oferecer apoio e amparo.
Uma das muitas realidades enfrentadas pelas Irmãs Franciscanas da Imaculada foi o de Diana Miranda, de 39 anos, moradora de Águas Claras. A jovem passou por um momento difícil após viver um relacionamento marcado por violência emocional e psicológica, que culminou em uma gravidez acompanhada por crises de ansiedade e depressão pós-parto.
Diante das dificuldades, Diana recorreu ao apoio das Irmãs, que a acolheram com empatia, oferecendo suporte tanto a ela quanto à sua filha. “As irmãs na minha vida é um divisor de águas, como para a vida de tantas outras pessoas. No momento mais crítico da minha vida, eu fui acolhida por elas”, lembrou Diana, mãe de Maria Alice, que tem, atualmente, 5 anos.
“Elas têm um legado de perseverança, acolhida, humanidade, compreensão, ajuda mútua e principalmente amor à causa do pobre, à causa do outro. Se colocam diante das dificuldades do outro, não como julgador, não como juiz, mas sim como irmãs que acolhem, que ajudam a moldar, a melhorar a forma de interpretar a vida e a torná-la um pouco melhor”, continuou a jovem.
Já Camila Lopes, atualmente com 25 anos, foi uma das crianças do bairro acolhidas pelas Irmãs. Hoje, a filha dela, Isabella Pereira dos Santos, de 6 anos, é quem aproveita os projetos sociais que são oferecidos. “Tem muita coisa que a gente que mora na periferia não conhece, como o teatro e apresentações de música, de flautas, de capoeira. Se vê muita criminalidade por aqui, mas elas vieram para mostrar que existe o outro lado”, reconheceu Camila.
“Nunca faltaram brinquedos em dias das crianças, em Natal, em festas juninas e mais comemorações. Se a gente pudesse ajudar, ajudava. Se não pudesse, não ficava de fora. Nunca nenhuma criança ficou sem presente ou sem ir para as festas”, continuou.
Camila destacou que as Irmãs sempre estão disponíveis para apoiá-los e dar suportes em momentos pessoais e familiares. “Sempre que eu preciso, elas ajudam. Eu tive um pai doente, com câncer e elas deram todo o suporte sobre alimentação e remédios, nunca deixaram faltar nada. Elas nunca falam não. Sempre que a gente precisar de ajuda, elas sempre estão ali para nos ajudar”, lembrou.
As irmãs auxiliam também em diversos problemas sociais acarretados pelo bairro, envolvendo a criminalidade, o tráfico de drogas, ameaças, abusos, dentre outros, e acolhe a todos sem distinção. Diana avalia: “No nosso bairro, a cada dia que passa, os jovens se perdem em valores, ideais e propósitos, e até mesmo na fé de que há caminhos melhores. E vendo as irmãs em um ambiente totalmente distorcido do que as pessoas imaginam da vida religiosa, que não é apenas rezando ou dentro da igreja, mas em um cenário servindo no emocional de cada pessoa, com cada gesto, em cada acolhida, ou até mesmo na escuta, torna a vida melhor. A presença delas é como se fosse um farol mediante a uma escuridão”, descreveu.
A congregação
A Congregação das Irmãs Franciscanas da Imaculada surgiu na Itália em 1876. Com a realidade precária em Salvador e a necessidade por ajuda, duas Irmãs Missionárias,
Clélia e Idelfonsa, partiram do porto de Gênova para a Bahia em 14 de Julho de 1972 do porto de Gênova para a Bahia. A princípio, ficaram na Capelinha, no São Caetano. Em 26 de janeiro de 1985, passaram a residir em Águas Claras.
O trabalho social no bairro ganhou força ao longo do tempo, com a ampliação de iniciativas voltadas à infância em situação de vulnerabilidade. A criação da escola São Damião no convento e da creche Irmã Guilhermina, a 650 metros do convento, marcou a consolidação de ações que buscavam oferecer acolhimento e um olhar mais humanizado para as necessidades das populações mais carentes.
Irmã Noli tem como missão cuidar da parte educacional. Ela fica responsável pela creche Irmã Guilhermina, que contém, atualmente, 100 crianças cadastradas entre dois a seis anos, de famílias que possuem baixa renda. “Assim que eu vim para o convento, fui logo ser professora. Nós vivemos, sobretudo, a dimensão da vida de oração e da vida de serviço, de gratuidade, de alegria, de disponibilidade, daquilo que o outro precisa e do acolhimento que chega até nós”, disse.

A congregação articula e promove, em parceria com outras entidades, projetos e serviços que favoreçam, para as crianças, o desenvolvimento de múltiplas habilidades, através de eventos socioculturais, aulas de iniciação musical, funcional kids (psicomotricidade), aulas de capoeira, biblioteca comunitária, curso de inglês etc. As crianças, geralmente, ficam na creche por tempo integral, das 8hrs às 16h30, recebendo o ensino infantil além de cuidados com higiene pessoal e três refeições: café, almoço e merenda. Talvez as únicas refeições que terão durante o dia.
Irmã Noli divide o tempo visitando os familiares dos alunos, para entender um pouco da realidade e as necessidades de cada um, para assim, poder estar auxiliando. Apesar dos desafios enfrentados ao longo dos anos, a freira reforça que frequenta qualquer localidade que seja necessária no bairro, ressaltando que recebe muito respeito por parte de todos os envolvidos.
Seus passos chamam a atenção de moradores e comerciantes locais. “É tão lindo ver as freirinhas passando, é tão especial. Encontramos no amor e na dedicação que elas têm com a gente, com as crianças, os idosos e os doentes, o fortalecimento da nossa esperança e da nossa fé. É inspirador”, disse a comerciante, Valdete Pereira, 65.
A vida em comunhão
Enquanto Irmã Noli toma conta da parte educacional, Irmã Rosária Lima (Irmã Rosária), 55, fica responsável pela parte voltada para a saúde, na busca de tratamentos para pessoas com algum tipo de doença. É comum encontrar ela saindo pelas ruas do bairro conduzindo uma doblô para prestar socorro ou visitar idosos, crianças recém-nascidas, enfermos e pessoas com algum tipo de deficiência.
Ela ressalta: “Somos poucas, somos um grupo pequeno, mas somos um grande sinal de Deus na vida do povo, na vida, de modo especial, daqueles mais necessitados, seja na creche, seja na escola e também na vida pastoral. Onde está uma irmã, está o instituto”.
O convento conta ainda com um ambulatório que faz a intercessão na marcação de consultas para a comunidade em hospitais públicos da cidade. O local é cedido também para profissionais da saúde que queiram realizar trabalhos voluntários ou que cobrem um valor mais em conta e acessível para os moradores do bairro.
Já Irmã Maria Aparecida (Irmã Cida), 59, primeira freira brasileira da congregação, fica incumbida pela parte administrativa, sendo sua missão, arrecadar uma média de, ao menos, cem cestas básicas mensais, para distribuir aos moradores que vivem em situação de extrema pobreza.
Para realizar as ações, a congregação sempre dependeu de doações de pessoas físicas - católicas ou não -, jurídicas e de organizações não governamentais (ongs). Em 2021, elas conseguiram convênio da prefeitura através da Secretaria de Educação (SMED), que mantém os trabalhos desenvolvidos no Centro de Educação Infantil Irmã Guilhermina. A sede de Florença, na Itália, também envia recursos por intermédio do projeto Conexão Vida. Há também um auxílio de cestas básicas através do programa Mesa Brasil, promovido pelo Sesc. Ainda, as próprias famílias do bairro realizam doações constantes.
Entretanto, nem sempre as doações são suficientes para acolher todo os mais necessitados do bairro. De acordo com o Censo 2022, publicado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Águas Claras é o bairro mais populoso da região de Cajazeiras e tem uma população estimada em 32.961 pessoas. Visto isso, as Irmãs recorrem também aos fiéis da Paróquia Santa Clara, também em Águas Claras, como do grupo Legião de Maria, e fazem campanhas, vendas de rifas, bazares e outras atividades para contribuir com a renda.
O projeto foi ampliado também para as redes sociais. Quem deseja realizar as doações pode entrar em contato pelo instagram (@cei.irmaguilhermina) ou realizando transferência pela conta do Bradesco (Ag. 03567 / C.C 0011500-2) e através do pix (72-89846-1504 / no nome da diretora da creche, Aguinólia Rosa).
Irmã Cida realiza esse trabalho de arrecadação de recursos sucedendo o trabalho de outras irmãs, como o de Irmã Maria Vannozzi, uma freira italiana que faleceu em 2017, e que deixou um grande legado: ‘Independente da situação em que vivemos, nunca deixe um pobre que veio até a nós, sair sem nada para levar. Dê a ele, pois a providência divina nunca vai nos abandonar”, lembra Irmã Cida com carinho.
A freira mais recente da congregação, Irmã Sineide, que professou os votos em 2015, ressaltou a importância das Irmãs para o bairro: “As irmãs franciscanas da Imaculada fazem a diferença em Águas Claras porque elas amam a cada um, elas abraçam a cada realidade daqueles que mais precisam da presença, de uma palavra amiga, de um conselho e também da realização do material, com muito amor. As irmãs franciscanas abraçam o sofrimento e a alegria de cada realidade aqui do bairro”.
Já Irmã Noli ressaltou que a missão de se doar em prol dos outros é um desafio diário, mas importante e necessário. “Sabemos que é uma missão árdua e desafiadora, sobretudo devido ao aumento e proliferação do tráfico de drogas que vem dizimando nossos adolescentes e jovens, de maneira avassaladora, ao uso em excesso e sem discernimento das redes sociais, o que tem gerado certa apatia e descrença à vida e aos valores, a falta de referências positivas que pactue na vida deles, a burocracia política para liberação de recursos financeiros para os projetos sociais, a falta de pessoas comprometidas com a causa, que sufoca a solidariedade e etc, mas vemos também muitos sinais de vida e esperança nas sementes que lançamos até aqui, isso nos anima e nos encoraja a continuar na luta. Vale a pena”, concluiu.
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