Salvador

BNews Summer: Do sincretismo sagrado às manifestações profanas, saiba o que compõe a Lavagem do Bonfim

Divulgação / PMS
Lavagem do Bonfim acontece nesta quinta-feira (16) com cobertura completa do BNews  |   Bnews - Divulgação Divulgação / PMS

Publicado em 16/01/2025, às 06h00   Publicado por Vagner Ferreira



“Glória a Ti, neste dia de Glória”. É embalado pelo hino do Senhor do Bonfim que Salvador celebra, nesta quinta-feira (16), a tradicional lavagem das escadarias da Colina Sagrada, que reúne uma multidão de fiéis pelas ruas da Cidade Baixa. A cerimônia, que neste ano tem como tema central ‘Amado Jesus, Senhor do Bonfim, Nossa Esperança’, integra uma das principais festas populares do calendário anual do estado, unindo o sagrado - por meio do sincretismo religioso -, e o profano em um só lugar. 

Os festejos começam por volta das 7h, em frente à Igreja da Conceição da Praia, com uma missa em celebração ao Senhor do Bonfim - sincretizado nas religiões de matriz africana como Oxalá. Em seguida, tem início a 16ª Caminhada ‘Lavagem de Corpo e Alma’, com um trajeto de, aproximadamente, 7 km até a Basílica do Senhor do Bonfim, seguindo uma tradição já consagrada pelo lema: “Quem tem fé vai a pé”.

“A Lavagem do Bonfim é um grande acontecimento, que atrai milhares e milhares de pessoas e que tem um significado particular para a cidade do Salvador, por unir o diferente, de fazer integração, sobretudo, na manifestação de fé e de cultura da religiosidade popular do nosso povo”, descreveu o padre titular pela Basílica, Edson Menezes, ao BNews Summer.

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De acordo com informações do Climatempo, o dia deve ser de sol, com algumas nuvens e probabilidades de chuvas passageiras durante o dia. A mínima é de 25° e a máxima de 29° graus, com possíveis precipitações em 73%. No início do cortejo, às 7h, o sol deve ficar entre nuvens, podendo vir a chover 0,9 milímetros. Das 8h às 11h as chances de chuva aumentam, variando entre 1,4 mm e 1,9 mm no período. Das 13h e 18h, a umidade do ar deve apresentar declínio. É importante utilizar ítens de proteção, como guarda-chuvas, protetor solar, bonés e se atentar a hidratação ao longo do percurso para se ter uma boa experiência durante os festejos.

O trajeto é marcado por diversos cortejos que saem com seus grupos, como do Afoxé Filhos de Gandhy e das Baianas, além dos grupos de samba. O profano se mistura com o sagrado durante a caminhada, onde é possível encontrar barracas de bebidas e comidas, como feijoada, que movimenta o comércio local.

Ao fim do percurso, é realizada outra missa. Na chegada, os fiéis das religiões de matriz africana realizam o banho de ervas, que mistura cheiros de arruda com alfazema. A ocasião é também um momento em que muitas pessoas pagam promessas, sendo comum encontrá-las de joelhos agradecendo em frente à Basílica. Depois, inicia-se a lavagem das escadarias, feita pelas baianas com suas vassouras, potes de água e flores.

“A gente sai da Igreja de Conceição e vai até o Bonfim, seguindo um cortejo onde as pessoas cantam, agradecem pela saúde, pela vida e pedem paz. Chegando lá, a gente recebe o banho sagrado de folhas e inicia a preparação para a limpeza do ambiente. E isso é uma tradição. Dentro dessa tradição, há nossas manifestações de fé, de cura, de agradecimento ao ano que se inicia em nome de Oxalá, em nome do Senhor do Bonfim, pedindo a paz para Salvador, para o mundo e para dentro da gente”, explicou ao BNews Summer a ekedji Jandira Mawusí, do Terreiro do Bogum, localizado no Engenho Velho da Federação.

“Tudo isso é uma forma de purificar e de agradecer o que a gente recebeu de bom e do que a gente aprendeu também com as dificuldades durante o ano anterior”, continuou a ekedji, ressaltando que a tradição se consolidou através da força das mulheres pretas do candomblé.

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Para o padre, a tradição inter-religiosa da Lavagem deve ser vista com muito respeito. “A lavagem ocorre como uma tradição que une expressões religiosas. E eu considero como importante essa integração que transmite para o mundo a possibilidade de você conviver com o diferente, de respeitar o outro que pensa diferente de você, que fez uma opção de vida diferente da sua, que professa uma religião diferente. Então, esse momento é sublime e especial”, destacou ao BNews Summer.

A Superintendência de Trânsito de Salvador (Transalvador) está promovendo mudanças na região desde o início da novena, que começou no dia 9 de janeiro, com o objetivo de ajustar o trânsito, promover a segurança dos pedestres e a organização durante os momentos de celebrações. Mais de 100 barreiras de trânsito foram instaladas para os festejos desta quinta-feira (16) e 250 agentes da autarquia municipal vão atuar na operação montada para a festa. 

A partir das 6h da quinta-feira (16) às 4h do dia seguinte estará proibido estacionar e circular com veículos nas principais vias por onde o cortejo vai passar. 

Sobre a organização que acontece anualmente para o evento, o padre Edson destaca: “É um grande mutirão, que conta com a participação de dezenas de voluntários, com os nossos colaboradores e, de modo particular, com o apoio da Prefeitura de Salvador, por meio da Secretaria de Turismo, do Governo do Estado, da Polícia Militar e de tantos outros órgãos que colaboram para que tudo possa acontecer”.

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Fiéis da Lavagem

O diretor e professor de uma escola particular do bairro do Calabetão, Juan Christian Moura, contou ao BNews Summer que vai para a Lavagem do Bonfim há cinco anos, com quatro a cinco amigos. Seu grupo social, no entanto, vai aumentando durante a procissão. “Acabo sempre encontrando pessoas no caminho”, disse ele, que faz questão de participar da caminhada por considerar uma das belezas dessa festa. “E eu entendo que a celebração como um todo deixa o coração ‘quentinho’ ao saber que é uma atividade que me aproxima mais de Deus”, acrescentou.

Juan na Lavagem do Bonfim
Arquivo Pessoal

Juan é católico, mas faz questão de reconhecer e valorizar o sincretismo religioso que marca os festejos em um ato de fé e respeito mútuo. “O surgimento do sincretismo religioso foi em um período difícil aos negros escravizados no Brasil, com a tentativa de apagamento da cultura. Mas é um ato de resistência. Apesar de muitos membros, tanto da da Igreja Católica, quanto das Religiões de Matriz Africana, rejeitarem, deve ser algo respeitado, até porque é algo que só se vê na Bahia”, comentou. 

Assim como parece só acontecer na Bahia, as celebrações sagradas se misturam e se encerram com manifestações profanas. E Juan disse que aproveita os dois momentos. “Vivo plenamente o sagrado e o profano. Chego na procissão cedo e saio bem tarde”, contou ao BNews Summer, aos risos.

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Já a advogada, Jucimara Aragão, que mora em Santo Estevão, a quase 120 km de Salvador, vem para a Lavagem do Bonfim há mais de 10 anos para participar juntamente com amigos conterrâneos. “A celebração renova a minha fé a cada ano, a cada pedido feito ao amarrar a fitinha do Senhor do Bonfim”, destacou ela. 

Jucimara participando da Lavagem do Bonfim

“A festa é o maior símbolo da devoção dos católicos, na reverência ao Senhor do Bonfim, e um referencial para as religiões de Matrizes Africanas, na figura de Oxalá, o senhor de todos os orixás”, continuou ao BNews Summer.

Ao longo desses mais de dez anos, Jucimara coleciona histórias que reforçam sua devoção e sua força de fé. De acordo com a advogada, os momentos vividos durante a caminhada se transformam em lições de perseverança e espiritualidade.

“Uma vez eu estava com muitas dores na coluna e nos pés e peguei o cortejo no começo. Quando cheguei no largo de Roma, falei para minha amiga que não estava aguentando mais andar, que ia parar para aliviar um pouco as dores. Aí, um casal de idosos parou e falou: ‘Minha filha, você está aqui pela fé, nós somos idosos, doentes e estamos seguindo. Se você tem fé, vai a pé e o Senhor do Bonfim já te curou’. Daí tomei uma água, rezei e segui ao lado deles por alguns km. Na fé, segui todo o cortejo e não tive mais dores e nem vexames, graças a fé ao meu Senhor do Bonfim”, lembrou ao BNews Summer com gratidão.

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A advogada lembrou que, durante a lavagem, participa de tudo o que tem direito. “Participo da missa, da caminhada, da procissão. Gosto de prestigiar as rodas de samba, os blocos afros, e sigo atrás sempre dançando e aplaudindo, pela energia que o cortejo nos transmite e nos dá força para seguir. Sem contar também que eu estou sempre na fila para receber as bênçãos, com o banho de cheiro da lavagem do Senhor do Bonfim”, informou à equipe do BNews Summer.

“Após as celebrações da Festa do Senhor do Bonfim, acontece sempre a parte profana, e eu adoro participar, seja das danças, das batucadas de Carlinhos Brown, da degustação com as comidas das baianas, além de que vou à praia pra tomar uma ‘breja’ bem gelada”, recordou.

O profano

Para a Ekedji Jandira Mawusí, o profano é o que mantém as tradições do sagrado. “O profano vem depois porque, tudo o que é sagrado, há uma alegria popular. E dentro dessa alegria popular, a gente vai festejar, tomar a nossa cervejinha, o nosso refrigerante e fazer o nosso samba, que une o tambor e tambor que liga tudo isso”, explicou ao BNews Summer.

Então, portanto, o profano é necessário porque mantém a tradição da alegria, da chama da vida, do pulsar. O sincretismo com as religiões de matriz africana e com o profano se misturam dentro de um aspecto maior, que é fazer a alegria, fazer e manter a tradição, além de manter também o poder da fé e da cura”, prosseguiu.

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Quando questionado pela equipe do BNews Summer sobre como lida com a diversidade religiosa da Bahia durante a Lavagem do Bonfim e da parte profana que acontece após a celebração, o Padre Edson logo afirma: “Com muita naturalidade, com muito respeito e com muita consideração a cada pessoa que professa a sua fé”.

“Não só durante a lavagem, mas no dia a dia, as portas do Bonfim estão sempre abertas para acolher a todos. E os nossos irmãos que seguem a religião de origem africana são sempre bem recebidos aqui. Eu sempre digo que a imagem do senhor do Bonfim está sempre de braços abertos, e isso mostra, para nós que servimos aqui na igreja, que devemos estar também com nossos braços e com o nosso coração aberto para acolher a todos. É uma convivência fraterna e respeitosa”, concluiu.

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