Economia & Mercado
Dois empresários presos em Salvador são investigados por integrar um esquema de fraude em importações que teria contado com a atuação direta de um auditor-fiscal da Receita Federal.
Rodolfo Sergio Martins Maia e Hugo Andrade Mendonça Santos foram presos pela Polícai Federal (PF) durante a Operação Snooker 2 que apura um grupo suspeito de declarar produtos de alto valor por preços inferiores para pagar menos impostos e, segundo as investigações, teria movimentado milhões de reais.
Segundo as investigações, a organização era hierarquizada e funcionava a partir de quatro núcleos: público, empresarial, financeiro e auxiliar.
As funções eram distribuídas entre um agente público, empresários do setor de importação e pessoas responsáveis por movimentar e ocultar os recursos considerados ilícitos.
No centro do esquema estaria o auditor-fiscal Francisco Eliezer Viana da Silva, servidor da Receita Federal. Ele é apontado como chefe da organização, que teria atuado desde pelo menos 2020.
Eliezer teria fornecido informações e orientações sigilosas sobre comércio exterior para beneficiar empresas importadoras e despachantes aduaneiros.
Uma das frentes investigadas envolvia uma empresa importadora administrada por um empresário cearense.
Segundo a denúncia, a empresa importava joias de prata, mas declarava as mercadorias como semijoias ou bijuterias de metal comum. Dessa forma, os produtos tinham um valor tributário muito inferior.
O empresário teria contado com o apoio de Francisco Eliezer para conseguir laudos periciais fraudados que atestavam falsamente a natureza do material.
A outra frente investigada envolvia um casal de empresários de nacionalidade chinesa, responsável por outra empresa importadora.
Nesse caso, os produtos eletrônicos eram subfaturados para reduzir o pagamento de tributos. Segundo as investigações, o casal contava com a intercessão direta de Eliezer para driblar a fiscalização aduaneira.
A propina paga por esse grupo é estimada em pelo menos R$ 2,5 milhões.
Conforme as investigações, Francisco Eliezer teria recebido R$ 6,8 milhões em propina.
O auditor é suspeito de interferir irregularmente em despachos aduaneiros, fornecer informações sigilosas e orientar integrantes do esquema sobre procedimentos relacionados ao comércio exterior.
Eliezer é servidor concursado da Receita Federal desde 1994. Ele estava no Aeroporto de Fortaleza desde dezembro de 2016 e recebia salário mensal superior a R$ 30 mil.
Em junho de 2026, quando já era investigado, recebeu R$ 44 mil devido à gratificação natalina.
Ainda segundo o Ministério Público Federal (MPF), o núcleo financeiro tinha entre seus integrantes um contador responsável pela constituição de diversas empresas de fachada em nome de terceiros.
Ele seria responsável por movimentar os valores ilícitos e disfarçar os repasses de propina ao agente público.
"Dois integrantes desse núcleo, responsáveis de fato por empresas importadoras de fachada, teriam pago ao auditor-fiscal, em contrapartida a informações privilegiadas sobre procedimentos internos da Receita Federal, pelo menos R$ 3,1 milhões", explica o órgão.
O núcleo financeiro, junto com o núcleo auxiliar, é apontado como responsável pela movimentação de mais de R$ 103,3 milhões por meio de empresas sem atividade econômica real.
A denúncia também cita um suposto núcleo auxiliar formado por familiares de Francisco Eliezer, entre eles cônjuge, filhas, irmãos e um cunhado. Segundo a investigação, eles teriam recebido pagamentos e bens adquiridos com recursos de origem ilícita.
Também fariam parte desse núcleo pessoas que teriam emprestado seus nomes para aparecer formalmente como responsáveis por empresas e contas bancárias utilizadas na lavagem de dinheiro.
A Operação Snooker 2 cumpriu três mandados de prisão e 15 de busca e apreensão. As ações ocorreram em Fortaleza, Caucaia e Eusébio, no Ceará, e em Salvador, na Bahia.
Além das prisões, foram apreendidos carros e relógios de luxo. Uma embarcação de luxo também foi apreendida em Salvador.
As investigações identificaram movimentações superiores a R$ 27 milhões entre empresas ligadas ao esquema, de acordo com a Receita Federal. O grupo também teria adquirido aproximadamente R$ 31,8 milhões em criptoativos, sem compatibilidade com as receitas formalmente declaradas.
Mais de R$ 26 milhões já foram bloqueados em contas bancárias de empresas e pessoas físicas envolvidas nas atividades criminosas.
Os alvos da operação poderão responder pelos crimes de organização criminosa, corrupção, lavagem de dinheiro e fraudes em operações de importação.
Ao g1, o advogado de defesa de Francisco Eliezer, Marcelo Oliveira, afirmou ter recebido com surpresa a decisão pela prisão do auditor-fiscal, uma vez que ele já havia sido alvo de um mandado de busca e apreensão anteriormente e havia sido denunciado formalmente pelo Ministério Público, e nenhum fato novo teria ocorrido desde então.
O advogado afirmou que, nesse momento, está tomando "todas as medidas jurídicas necessárias para reverter a prisão decretada, para além da demonstração da sua inocência, junto à ação penal".
A reportagem não conseguiu localizar as defesas dos empresários Rodolfo Sergio Martins Maia e Hugo Andrade Mendonça Santos.
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