Economia & Mercado

Da invisibilidade ao sucesso: três histórias de empresários baianos e dicas para iniciar sua jornada

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O BNews conversou com empresários baianos e trouxe três dicas para quem deseja entrar no mundo do empreendedorismo afro-brasileiro  |   Bnews - Divulgação Reprodução/Arquivo Pessoal - Montagem/Marco Dias

Publicado em 17/11/2023, às 05h30   Marco Dias


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A cerimônia do Emmy Awards de 2015, considerado o maior prêmio da televisão americana, foi marcada por um discurso de Viola Davis, que até hoje ecoa na sociedade. “A única coisa que diferencia as mulheres negras de qualquer outra pessoa é a oportunidade”, disse a atriz. Ilustrando a declaração, cerca de 60% dos trabalhadores informais no Brasil são negros, porém apenas 6,3% ocupam cargos gerenciais e menos de 5% possuem cargos em posições executivas. 

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Os dados acima, apurados pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) são de um estudo intitulado “Jovens Negros e o Mercado de Trabalho”, divulgado em novembro de 2022. Dados esses, que se tornam ainda piores, quando associados com uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), revelando que entre os réus processados por tráfico de drogas no Brasil, 68% são negros. 

O caminho para modificar as estatísticas é a oportunidade, como dito por Viola Davis. Porém, essa condição precisa ser moldada pelo próprio empreendedor. Em Salvador, três iniciativas de empreendedorismo afro-brasileiro se destacam em nichos completamente diferentes, mas com um olhar voltado para questões sociais. 

Energia limpa no subúrbio de Salvador 

Criada em 2013 por Alielson Paz e Rafael Luciano, a Solares Automação surge da vontade dos sócios, formados em educação industrial pelo Serviço Social da Indústria (SESI), de aproveitar os conhecimentos da automação industrial para levar energia solar ao subúrbio de Salvador.  

“A energia solar é uma forma de tirar um custo fixo dos pequenos empreendedores, de algumas residências, então quando você deixa de pagar a conta de luz, que varia e aumenta, dia após dia, você ajuda essas pessoas”, destaca o sócio-diretor Alielson Paz. 

Com um projeto dedicado a democratizar o uso de energia solar em bairros periféricos de Salvador, a Solares também fornece educação financeira, capacitando as pessoas para o mercado de trabalho. 

“Hoje, o quadro de funcionários da Solares Automação, como um todo, tanto dentro da indústria quanto na parte de energia solar, é composto por 70% de pessoas do subúrbio”, explica Paz, pois acredita que o grande diferencial da empresa é ter esse olhar industrial aplicado no social. 

“Dominamos tudo o que ocorre dentro do ambiente fabril, seja organização, produção ou criação, com a possibilidade de atuar em diversas áreas, elétrica, instrumentação, automação, redes industriais, caldeiraria e solda”, pontua Paz. 

O sócio-diretor diz que o caminho não foi fácil, enfrentou todas as dificuldades possíveis para empreender, inclusive falta de incentivo governamental e, principalmente, a cor da sua pele. 

“As barreiras étnicas e sociais ainda pesam bastante. É muito mais difícil para quem está construindo um legado do nada, sem apoio de governos, bancos, e ainda com toda desconfiança por parte das grandes tomadoras de serviço que geralmente preferem empresas grandiosas e ricas do ramo. Até participar de eventos onde são cercados de oportunidades é bem difícil, se você não faz parte da minoria privilegiada”, relata o empresário. 

Comida na “costa dos negros” 

Zanzibar é um arquipélago localizado na costa da Tanzânia, no leste da África, e o nome da ilha é derivado de uma forma árabe de chamar a região. O “Zanj-Bar”, que significa “costa dos negros”, já foi música de Armandinho e Fausto Nilo,  e hoje dá nome ao restaurante da chef Ana Célia. 

Localizado na Rua Direita de Santo Antonio, com vista para a Baía de Todos os Santos, o restaurante Zanzibar surgiu da necessidade comum à muitos empreendedores negros: a  sobrevivência. De acordo com uma pesquisa do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), apenas 8% das empreendedoras negras conseguem empregar outros funcionários. 

“Sou de uma família de oito irmãos. Meus pais morreram cedo e precisávamos fazer algo para ter uma fonte de renda”, revela a chef Ana Célia que, ligada aos movimentos identitários de matriz africana, aproveitou o restaurante para manter viva a questão cultural da sua juventude. 

“Na época, tinha começado a participar do Movimento Negro, fui uma das fundadoras. E, ao fim das reuniões, não tínhamos um local para curtir, então aproveitei o restaurante para criar esse espaço para o grupo se juntar após os encontros do movimento”, explica Célia. 

Com pratos típicos da culinária baiana, brasileira, africana e frutos do mar, o Zanzibar se posiciona como centro de resistência e reafirmação do povo negro no Brasil, promovendo uma experiência gastronômica com influência miscigenada. 

“O Zanzibar é o único restaurante ‘itinerante’, como gosto de dizer, então todas as dificuldades que se possa imaginar nós já enfrentamos”, destaca Célia. 

Moda para o guetho 

Inspirado em grandes personalidades negras como Nelson Mandela, Martin Luther King, Jackson Five e Bob Marley, a Chato Afro Culture é uma marca de moda preta, criada pelo músico baiano Murilo Di Lay, que sentiu a necessidade de se expressar através do visual. 

“Tudo começou com o desejo de vestir os músicos da mesma maneira como me vestia. Quando vi meus amigos interessados no meu estilo de roupa, veio a sacada para empreender”, afirma o músico e empresário. 

Com moda masculina e feminina, a marca faz questão de transmitir a identidade afro cultural, atendendo on-line, em média, 100 clientes por dia. 

“O empreendedorismo veio aos 14 anos, herança da minha mãe, que empreendeu a vida inteira e como eu desenhava desde pequeno, comecei a vender as camisas que pintava. Também fazia grafites em escolas e vendia minha arte”, explica Di Lay. 

Assim como Alielson Paz e Ana Célia, o músico também não teve caminho fácil por conta da cor da pele. 

“Pessoa preta não tem herança, não tem dinheiro, então começa realmente do zero, sem nada, na raça, só acreditando mesmo, e é fato que vai ficando mais difícil de acordo com o nível de melanina que você tem”, relata Di Lay. 

Apesar das dificuldades, ele acredita, que com atitude, o empreendedorismo é um caminho possível. 

Dicas para quem deseja seguir no caminho do empreendedorismo 

Após ouvir Alielson Paz, Ana Célia e Murilo Di Lay, o BNews preparou três dicas para quem quer começar no mundo do empreendedorismo afro-brasileiro. Confira abaixo: 

1 - Invista em capacitação e conhecimento 

A capacitação é fundamental para ter um negócio de sucesso. “É bom ter conhecimento na área em que você quer investir, ter intimidade com o produto que você quer comercializar e amor ao que você faz. Tudo isso facilita o desenvolvimento”, afirma Murilo Di Lay. 

2 - Defina o seu negócio e conheça seu público-alvo 

Planejamento é a chave, e você precisa conhecer o seu negócio, o perfil do consumidor que deseja atrair e quais são as necessidades desse público. “Busque seu diferencial, coloque todos os planos no caderno e comece, pois não existe um momento perfeito para isso. Comece e não desista nunca”, diz Alielson Paz. 

3 - Persistência e atitude 

A parte mais difícil não é começar um negócio, mas mantê-lo vivo, ainda mais diante de todas as dificuldades enfrentadas pelas pessoas de cor só por existirem. Então, “tenha persistência. Com um objetivo, focado em uma direção, conseguimos conquistar nossos sonhos. Com dificuldade ou não, dá pra chegar lá”, aconselha Ana Célia. 

Classificação Indicativa: Livre

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