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'Direito descansista': Entenda o conceito que quer garantir que pessoas possam descansar no trabalho

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O descanso deve ser visto como um direito fundamental para o bem-estar no ambiente corporativo  |   Bnews - Divulgação Reprodução / Freepik
Leonardo Oliveira

por Leonardo Oliveira

Publicado em 28/05/2025, às 11h08



O debate sobre o fim da escala 6x1 segue em destaque, mas ao mesmo tempo, um novo movimento começa a ganhar espaço nas discussões sobre cultura organizacional: o direito ao descanso. Em um cenário marcado pelo aumento dos casos de burnout e esgotamento coletivo, cresce entre especialistas e gestores de RH a compreensão de que o descanso não deve ser visto apenas como benefício, mas como um direito fundamental para o bem-estar no ambiente corporativo.

A consultora Maíra Blasi, fundadora da Subversiva, é uma das vozes que defendem o chamado “direito descansista”, conceito apresentado em um manifesto de sua autoria. A proposta vai além das férias ou folgas tradicionais, abrangendo a revisão de jornadas como a 6x1, a definição de metas mais realistas, a manutenção do trabalho remoto e, principalmente, a valorização do trabalho de cuidado — geralmente realizado por mulheres, acumulando funções profissionais e domésticas.

No Brasil, onde a produtividade ainda é frequentemente medida pelo tempo de trabalho e não pela entrega de valor, descansar se tornou um ato de resistência, segundo Maíra. “Quem tira um tempo para si é muitas vezes visto como preguiçoso ou pouco comprometido. Descansar virou subversão, mas é um direito previsto em lei, essencial à vida humana”, destaca ao jornal O Globo.

Desigualdades e desafios culturais

O consultor Dan Pinheiro, especialista em cultura de bem-estar e performance, ressalta que nem mesmo as oito horas diárias previstas na CLT são iguais para todos, já que o tempo gasto no deslocamento acentua desigualdades sociais, raciais e de gênero.

Pinheiro defende que o debate vai além das jornadas longas, como a 6x1, e envolve uma reflexão sobre como o trabalho passou a definir a identidade das pessoas no Brasil. “Enquanto na Europa o trabalho ocupa outro espaço na vida, aqui ele é sinônimo de sobrevivência e identidade”, disse ao jornal O Globo.

Ele sugere que as empresas criem sistemas de reconhecimento e remuneração não apenas para resultados, mas também para quem contribui para ambientes psicologicamente saudáveis, reconhecendo que é um desafio medir esses aspectos subjetivos, mas fundamental para equilibrar produtividade e descanso.

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Produtividade e bem-estar em pauta

O tema já está presente em eventos como o Rio2C, maior encontro de criatividade e inovação da América Latina, que discute até 1º de junho, no Rio, como equilibrar produtividade e bem-estar nas empresas. Um dos painéis, “Vida Além do Trabalho na Cultura Organizacional”, reúne especialistas para debater práticas mais humanas no ambiente corporativo.

Clariza Rosa, cofundadora da agência Silva, observa que empresas com culturas organizacionais mais maduras já adotam iniciativas como proibir trabalho em feriados e reduzir a carga horária às sextas-feiras, com o “short friday”. No entanto, ela ressalta que a pressão por resultados e a sobrecarga, especialmente entre líderes e quem busca crescimento na carreira, ainda são obstáculos.

Para Clariza, é necessário transformar a relação das empresas com o tempo, dando espaço para a criatividade e processos mais alinhados ao ritmo humano. “Precisamos difundir uma nova ideia de trabalho, em que descansar não seja visto como problema”, afirma ao O Globo.

Futuro do descanso no trabalho

Maíra Blasi acredita que um modelo de trabalho realmente alinhado ao direito ao descanso ainda está distante no Brasil, lembrando que mudanças profundas, como as que criaram a CLT, levaram décadas para acontecer. Apesar disso, ela vê o tema ganhando espaço, impulsionado pelo aumento dos afastamentos por questões de saúde mental.

“Não acredito que em dez anos chegaremos lá, mas o debate tende a crescer, principalmente porque o impacto dos afastamentos vai pesar nos custos com saúde e licenças”, projeta Maíra. Ela sugere avanços como a adoção da semana de quatro dias, ampliação da licença-paternidade e valorização do trabalho de cuidado como caminhos para uma mudança real.

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