Economia & Mercado
A história do empreendedorismo das baianas de acarajé remonta ao período pós-escravidão, quando a comercialização do acarajé era a maneira que a maioria das mulheres negras – além dos trabalhos doméstico e nas lavouras - conquistarem sua liberdade e autonomia. Essa tradição nascida na Bahia, e consolidada em Salvador, ganhou o Brasil e o mundo. Ela foi passada de geração em geração e, em 2005, transformou-se em um patrimônio cultural imaterial do Brasil.
Essa conquista simboliza a resistência na sua forma mais genuína, a perene batalha por reconhecimento e sustentabilidade econômica. Essas mulheres são conhecidas popularmente como baianas de acarajé, mas em seus famosos tabuleiros são vendidos, além do bolinho de feijão mais famoso da Bahia, o abará, recheados ou não com pimenta, caruru, vatapá, camarão seco, salada e muito azeite de dendê.
O seu dia é celebrado em 25 de novembro, mas durante todo o ano, as baianas de acarajé não apenas vendem iguarias típicas do Nordeste em seus tabuleiros, mas ganham a vida também participando de eventos sociais e corporativos, de receptivos no aeroporto de Salvador, por exemplo. Estão sempre ornamentadas com suas vestimentas tradicionais, compostas de saias rodadas e torços do candomblé nas cabeças, ora brancos ora coloridos, além de balangandãs: muitas correntes e contas (guias tradicionais da religião de matriz africana), pulseiras, argolas, anéis e maquiagem.
A história da baiana do acarajé existe há 300 anos e, na capital baiana, berço dessa tradição cultural e econômica conta hoje com 3.500 empreendedoras do segmento mais saboroso do Brasil e, quiçá, do mundo. Esse dado é da Associação Nacional das Baianas do Acarajé (ABAM). Atualmente, a profissão está espalhada em 21 estados do Brasil e em cinco países.
As baianas de acarajé mais famosas de Salvador são Dinha, Cira, Regina, Fia, Meire, Dária, Laura, a família Chica e Tânia Bárbara Neri, cujos tabuleiros se tornaram pontos de referência na cidade pela qualidade de seus produtos. Essas mulheres e suas famílias, com o ofício centenário, educaram e formaram filhos, adquiriram casas próprias, proporcionaram realização de sonhos, como viagens ao exterior a si mesmas e aos entes queridos e, acima de tudo, conquistaram dignidade com o dom da culinária peculiar da Bahia.
Os valores dos produtos no tabuleiro da baiana de acarajé em Salvador variam consideravelmente, pois dependem, principalmente, da localização (pontos turísticos versus bairros residenciais) e do tamanho d e cada item alimentício.
Acarajé (tamanho padrão a grande): O preço do alimento completo pode variar entre R$13, R$17, R$20, chegando a R$50, em áreas turísticas como o Rio Vermelho
Abará: Semelhante ao acarajé, o preço dessa iguaria pode custar entre R$15 e R$ 48,00.
Vatapá ou Caruru (porção/kg): 500 g oscila entre de R25,00 e R$ 50,00 o quilo.
Camarão seco (porção): O preço varia, mas é um ingrediente que agrega valor ao produto final.
Cocada e Bolinho de Estudante: normalmente possuem preços mais acessíveis, em média R$ 7,90.
Os preços também variam a depender da época do ano. No verão, por exemplo, assim como a típica água de coco, os valores sobrem consideravelmente nos cartões postais da cidade, como a Barra e Itapuã. O custo final também está relacionado aos acompanhamentos escolhidos, como camarão fresco, vatapá, caruru, salada e pimenta.
Histórias de vida
O BNews entrevistou algumas dessas valorosas mulheres e ouviu suas histórias de vida e conquistas como baianas de acarajé.
A soteropolitana Tânia Pereia De Jesus, de 69 anos, ingressou no ofício de maneira peculiar. Ela é técnica de enfermagem de formação e aposentada como funcionária pública. As dificuldades da vida a levaram até o tabuleiro como estratégia para subsistência própria e familiar.
“Mesmo sendo funcionária pública, passei por momentos difíceis. Há 30 anos, um certo dia fui até à praia e conversei com minha mãe Iemanjá, com Iansã tudo que estava passado. Ao voltar para casa eu me visualizei sentada na Boca do Rio vendendo acarajé. Nesse dia, não tinha nada, comecei com tudo do Ilê da Ya Xalunga, até conquistar o meu selo de qualidade Acarajá 10”, conta Tânia.
Já Maria Emília Bitencortt começou a trabalhar com a mãe aos 10 anso de idade e com 15 anos montou o tabuleiro. É um ofício de família que se perpetua. "Eu sustento toda a minha famílai com o que ganho como baiana de acarajé. Prefiro não dizer qual é o meu lucro, mas o que ganho é recompensador em comparação com o que gasto no meu tabuleiro", destaca.
A baiana Jucilene trabalha na praia do Corsário, em Pituaçu, e emprega duas pessoas, que, assim como ela, sustentam as suas casas e pagam estudos de seus filhos. “Somos, a maioria, chefes de família. Como baiana de acarajé, com este trabalho conquistei minha casa própria”, pontua orgulhosa.
Outra mulher empreendedora do ramo é Rita Baiana, como é conhecida no IAPI, que trabalha desde 07 de maio de 2008 na função. Ela lembra do exato dia em que começou e é a primeira pessoa na família que ganha a vida com os produtos do seu tabuleiro. “Meu envolvimento com acarajé se deu quando estava próxima de fazer trinta anos de trabalho, de me aposentar. Queria fazer algo que me desse uma atividade e tivesse algum retorno financeiro. Sempre gostei de fazer acarajés e abarás e já reunia amigos para bate papos e degustações. Hoje vivo da minha aposentadoria, da aposentadoria de meu marido e da renda do acarajé que complementa o orçamento”, revela.
Segundo ela, o trabalho como baiana de acarajé já possibilitou que realizasse muitas metas. “Realizei muitos sonhos com o dinheiro que o acarajé me proporcionou”, diz Rita . “Trabalho somente um dia na semana, nas sextas. Dinheiro é bom, porém escraviza. Quanto vou gastar de mercadoria e lucrar, vai depender muito da data do mês. Não sou baiana de tabuleiro que vende para os clientes passantes, faço delivery no meu bairro mesmo desde a pandemia. Gasto em torno de R$ 150,00 a R$ 190,00 de mercadoria e ganho às vezes mais que o dobro do que investi, principalmente quando têm encontros, aniversários aqui no meu espaço”, conta a empreendedora.
E continua: “Atualmente, tenho percebido uma queda nas vendas não por causa de concorrência, o que não tenho, e nem devido à inflação. Creio que as pessoas estejam com pé atrás para fazer gastos. Entretanto ela ressalta que muitas baianas que conhece têm uma vida confortável. “Elas usam da sabedoria e investem em coisas concretas. O dinheiro gasto com carretos se transformaram em parcelas para pagar a própria condução. Outras não conseguem nem sair do aluguel, colocam bastante gente para trabalhar para elas nas praias e dão 30% da venda para eles. O que falta é conscientização na forma de usar o dinheiro que se ganha e é preciso saber como investir em melhorias”, esclarece Rita, deixando claro que a profissão, se bem conduzida, gera lucros e independência financeira como qualquer outra.
Ao ser questionada sobre como percebe a relação entre a sua atividade econômica e a preservação do patrimônio cultural e religioso da Bahia, ela afirma: “A continuidade da venda do acarajé, que é um alimento sagrado do candomblé, serve para preservar a tradição e a cultura que será passada de geração em geração. Economicamente gera renda para muitas famílias”.
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