Economia & Mercado
por Bruna Rocha
Publicado em 07/05/2025, às 06h00
Pode até soar redundante dizer que Salvador “cresceu para cima”, mas é exatamente isso que aconteceu. Segundo estudo do WRI Brasil, obtido pelo BNews, a capital baiana está entre as cidades que mais se verticalizaram nas últimas três décadas, firmando um crescimento urbano marcado por edifícios mais altos e uma ocupação mais densa.
O estudo do WRI Brasil teve como principal objetivo compreender o crescimento urbano brasileiro ao longo de 30 anos, levando em consideração o período de 1993 a 2020, tanto na dimensão horizontal — espraiamento das cidades na linha do horizonte — quanto vertical — crescimento em altura de casas e edifícios. A partir desses pilares, foi analisado como o volume construído evoluiu nas diferentes cidades do país, utilizando tecnologias de sensoriamento remoto (satélites e radares), e relacionando essa evolução com os padrões populacionais.
Ao todo, a pesquisa usa imagens de satélite do Map Biomas, radares da NASA para medir a altura das construções, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do programa europeu Global Human Settlement Layer (GHSL), que ofereceram mapas com densidade populacional.
Salvador aparece entre um seleto grupo de cidades que, assim como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte e Fortaleza, lideram o crescimento vertical entre as concentrações urbanas do país. Confira:
Economia impactada
No campo econômico, Edval Landulfo, economista e vice-presidente do Conselho Regional de Economia da Bahia (Corecon-BA), destaca que o processo de verticalização gera impactos variados tanto na arrecadação do Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU) quanto no meio ambiente.
Conforme dados extraídos do portal da transparência da Secretaria da Fazenda do Estado da Bahia (Sefaz), a arrecadação do IPTU entre 2013 e 2024 apresentou um aumento expressivo, o que, segundo Edval, reflete diretamente o avanço da verticalização na cidade. Em 2013, o valor arrecadado foi de R$ 327,01 milhões. No último ano, esse valor saltou para R$ 1,2 bilhão, conforme aponta a Sefaz.
“Hoje o principal atrativo da verticalização é a arrecadação do IPTU que deveria ter a verba alocada na construção de postos, praças e espaços esportivos e culturais”, diz o economista.
Olhando para o viés ambiental, o especialista aponta que a falta de saneamento básico "ainda perturba muitos desses novos bairros ou novos condomínios”.
Uma das principais preocupações em relação ao paisagismo urbano é o risco de comprometer a harmonia visual da cidade. Há uma grande preocupação com o desenvolvimento deste ano do PDDU, pois ele pode alterar os microclimas urbanos e canalizar o vento devido à construção excessiva de edifícios muito altos, especialmente na orla de Salvador ou nas áreas adjacentes. Isso pode resultar em situações semelhantes às que ocorreram em Recife e Fortaleza, levando a uma cidade mais quente”, conta.
“Esses impactos ambientais são significativos, ao resultarem em um maior consumo de energia e em poluição tanto sonora quanto atmosférica. Além disso, há um aumento no desmatamento na própria cidade, contribuindo para a formação de áreas mais quentes. Outro aspecto importante é a sobrecarga na infraestrutura urbana, que compromete a coleta de lixo, o transporte e a distribuição de energia elétrica", diz.
"Em alguns bairros, durante ventos fortes, há dificuldades na manutenção desses serviços. Quanto ao abastecimento de água, em algumas áreas, quando ocorre desabastecimento, o retorno pode demorar de três a quatro dias; em outros casos, há relatos de bairros que ficam até 15 dias sem água. Portanto, tudo isso deve ser considerado ao planejar a verticalização de uma cidade, especialmente em Salvador”, diz.
Em consonância ao especialista, Gabriela Santiago, arquiteta, urbanista e mestranda em Conservação e Restauro pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), aponta que a verticalização também gera dois efeitos populacionais.
“A verticalização tem seus pontos positivos e negativos. Um dos pontos positivos é que conseguimos trazer uma maior quantidade de pessoas morando no mesmo lote. O local onde caberia somente uma ou duas famílias, abre espaço para 10,20 ou 30 famílias, sem que necessariamente precise expandir horizontalmente”, pontua.
“Porém, esse movimento cai numa lógica capitalista e inicia uma crescente construção de Studios [apartamento compacto, com 20 e 50 metros quadrados] que atinge somente uma parte rica da população. Principalmente, porque os Studios atuam numa lógica de ser uma moradia temporária, que os grandes investidores pegam essas casas e investem como Airbnb. Outro ponto, é que a partir da valorização do PIB daquela região, existe uma mudança no pertencimento, comércio e perde o propósito inicial. Assim, acabam “expulsando’ os moradores mais tradicionais, chamados de gentrificação”.
A reportagem do BNews, procurou a Prefeitura de Salvador para se manifestar acerca do assunto. Contudo, não houve retorno, mas os canais seguem abertos.
Classificação Indicativa: Livre
som poderoso
Som perfeito
Smartwatch top
Qualidade JBL
iPhone barato