Economia & Mercado

O que está acontecendo na Argentina? Entenda a crise que pressiona o governo Milei

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Uma sequência de decisões políticas e reações sociais colocou o país em um novo patamar de instabilidade  |   Bnews - Divulgação Ilustrativa | Pixabay
Redação Bnews

por Redação Bnews

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Publicado em 20/02/2026, às 08h20 - Atualizado às 08h39



A Argentina vive, neste momento, um embate que vai além da economia. A inflação voltou a pressionar, a credibilidade estatística está sob questionamento, a reforma trabalhista redesenha direitos históricos e as ruas demonstram que a resistência sindical continua organizada. Com os confrontos nas ruas de Buenos Aires, o governo de Javier Milei enfrenta um dos momentos mais delicados desde que assumiu a Casa Rosada.

O governo aposta que o ajuste e as reformas criarão bases para estabilidade futura. A oposição e os sindicatos alertam para aprofundamento da recessão e erosão social. Já que o cenário combina dados econômicos frustrantes, paralisação nacional, embate institucional e reação dura do Executivo.

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Inflação volta a acelerar e reacende desconfiança
O dado que abriu a semana já indicava turbulência. O Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC), órgão público técnico do país que é responsável por conduzir as atividades estatísticas oficiais, informou que a inflação subiu 2,9% em janeiro, quinto mês consecutivo de alta. Em 12 meses, o índice acumula 32,4%.

O número veio acima do esperado pelo mercado, que projetava 2,4%, segundo levantamento do Banco Central da República Argentina (BCRA). O avanço foi puxado principalmente por alimentos, restaurantes e hotéis.

O dado, por si só, já seria relevante em um país historicamente marcado por crises inflacionárias. Mas ganhou contornos políticos após a saída de Marco Lavagna do comando do INDEC e a decisão do governo de adiar a atualização da metodologia do índice.

O IPC segue sendo calculado com base em padrões de consumo de 2004, e não na cesta mais recente de 2017/2018. Para economistas críticos, a postergação reforça dúvidas sobre a autonomia técnica do órgão e afeta a credibilidade dos números — tema sensível na Argentina, que já enfrentou escândalos de manipulação estatística no passado.

Reforma trabalhista sob pressão nas ruas
Enquanto os dados de inflação eram divulgados, o Congresso avançava na reforma trabalhista defendida por Javier Milei. O projeto prevê mudanças estruturais:

  • Jornada diária de até 12 horas;
  • Banco de horas para compensar extras;
  • Redução de indenizações por demissão;
  • Fracionamento de férias;
  • Ampliação da lista de serviços essenciais, limitando o direito de greve;
  • Possibilidade de pagamento salarial em diferentes moedas ou até em espécie.

Câmara aprova reforma trabalhista após protesto
Na madrugada desta quinta-feira (20), a Câmara dos Deputados aprovou a reforma trabalhista defendida por Javier Milei por 135 votos a 115, após mais de 10 horas de sessão. Como o texto havia sido alterado pelo Senado, a proposta retorna agora para nova análise dos senadores.

A votação ocorreu sob forte tensão nas ruas. Ao menos 10 pessoas foram presas durante protestos nos arredores do Congresso, após confrontos entre manifestantes e forças de segurança, que utilizaram balas de borracha, gás lacrimogêneo e jatos d’água para dispersar o grupo.

A reforma, considerada “regressiva e inconstitucional” pela Confederação Geral do Trabalho (CGT), reduz indenizações por demissão, amplia a jornada para até 12 horas diárias e restringe o direito de greve. O governo sustenta que as mudanças ajudarão a reduzir a informalidade, que supera 40% do mercado de trabalho, e a estimular a geração de empregos ao aliviar encargos sobre empregadores.

A aprovação ocorre em meio à quarta greve geral enfrentada por Milei em dois anos de mandato. Segundo a CGT, o país já perdeu mais de 200 mil postos de trabalho entre setor privado, público e trabalho doméstico desde o início do atual governo, números que embasam a crítica sindical de que a crise social decorre da política econômica, e não da legislação trabalhista.

Greve geral paralisa transporte, bancos e aeroportos
Em resposta, a Confederação Geral do Trabalho (CGT) convocou uma greve geral de 24 horas. O transporte público foi interrompido, bancos fecharam, indústrias reduziram atividades e o setor aéreo registrou cancelamentos em massa.

A Aerolíneas Argentinas informou que cancelou 255 voos, afetando cerca de 31 mil passageiros. No Brasil, pelo menos 62 voos foram suspensos nos aeroportos do Galeão e de Guarulhos. Companhias como LATAM Airlines e Gol Linhas Aéreas orientaram passageiros a remarcar ou pedir reembolso.

A central sindical estimou adesão superior a 90% e classificou a paralisação como a maior contra Milei até agora.

Confrontos e denúncia por terrorismo elevam tensão
Os protestos nos arredores do Congresso começaram de forma pacífica, mas terminaram com confrontos entre manifestantes e forças de segurança. Houve lançamento de pedras e coquetéis molotov, a polícia respondeu com gás lacrimogêneo, spray de pimenta e jatos d’água.

O governo anunciou a denúncia de ao menos 17 pessoas por terrorismo, com base na Lei Antiterrorista argentina. A tipificação transfere o caso à esfera federal e prevê penas mais severas.

A decisão marcou uma escalada institucional. Para o governo, houve tentativa de desestabilização da ordem constitucional. Para opositores, a medida representa endurecimento excessivo e possível criminalização do protesto social.

Milei fora do país e apoio do FMI
No auge das mobilizações, Milei estava nos Estados Unidos para compromissos internacionais. O Fundo Monetário Internacional manifestou apoio às reformas estruturais, mas pediu atenção aos custos sociais da transição.

Desde que assumiu, em dezembro de 2023, o presidente implementa um programa de ajuste fiscal severo, desregulamentação e abertura econômica. Sindicatos afirmam que centenas de milhares de empregos foram perdidos no período e que milhares de empresas fecharam, números contestados pelo governo.

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