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Para além do Real: Comunidade quilombola do Recôncavo Baiano cria moeda social e ensina educação financeira na prática

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Moeda social homenageia o trabalho das marisqueiras e valoriza a atuação de pequenos empreendedores  |   Bnews - Divulgação Imagem gerada por IA
Vagner Ferreira

por Vagner Ferreira

Publicado em 09/12/2025, às 12h18 - Atualizado às 13h39



Na comunidade quilombola de Kaongé, no Vale do Iguape, em Cachoeira – a 117 km de Salvador – no Recôncavo Baiano, a economia sempre foi marcada pela escassez. O dinheiro entrava pouco, circulava menos ainda e saía rápido do território. Pescadores, marisqueiras e pequenos comerciantes vendiam seus produtos por preços muito abaixo do justo, para assim, ter acesso imediato ao dinheiro vivo. As famílias viviam em ciclos intermináveis de dívida. 

A ausência de um banco de crédito criava um ambiente onde a renda desaparecia antes mesmo de virar sustento. Foi nesse contexto que uma moeda social própria foi criada. Trata-se do ‘Sururu’, nome batizado em consonância a uma atividade predominante na região. A ideia nasceu como uma estratégia para fortalecer o comércio interno e como um mecanismo eficaz de educação financeira na prática. 

A moeda social Sururu

De acordo com a agente de crédito, Jorlane Cabral de Jesus, a moeda surgiu em meio às margens da sociedade. “O nome Sururu foi uma homenagem às marisqueiras, porque é uma profissão muitas vezes esquecida. As pessoas só se lembram delas quando elas passam com o sururu. No entanto, não enxergam o outro lado, que são mulheres que saem de casa às 5h da manhã, com o balaio na cabeça, um punhado de farinha na boca e um chá de ervas para aguentar o dia. Homenagear essas mulheres foi fundamental”, definiu.

Segundo ela, a ideia da moeda social surgiu das observações práticas de trocas ancestrais em trabalhos coletivos, visto que, antigamente, uma família ajudava na roça da outra. Por exemplo: em um dia todos se uniam para trabalhar em uma plantação, e depois, retribuíam. Ao circular apenas dentro da comunidade, o Sururu estimulou os moradores a repensar como gastavam, a planejar compras e a lidar melhor com o que tinham. E um banco comunitário tornou-se responsável por administrar a conversão parcial entre as duas moedas. 

Banco comunitário

O banco comunitário foi inaugurado em 20 de novembro de 2012, Dia da Consciência Negra – uma data proposital – e funciona na segunda, quarta e sexta-feira, das 8h às 12h. Atualmente, a instituição opera dentro da Unidade de Beneficiamento de Pescado e Mariscos, localizada em Santiago do Iguape, uma comunidade próxima. 

A ideia se concretizou quando o grupo conheceu o Banco Palmas, em Fortaleza, o primeiro banco comunitário do país, inaugurado em 1998. A partir disso, com o apoio da Universidade Federal da Bahia (Ufba), da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB) e dos pesquisadores, decidiram implementar uma unidade própria. Aproveitaram um edital do Governo do Estado e, ao serem selecionados, passaram a integrar a Rede Baiana de Bancos Comunitários.

Para obter a moeda social, precisávamos ter uma sede para o banco. Quando conseguimos o espaço físico, pensamos no nome da moeda e do banco. Assim nasce o Sururu, que é predominante na região e o Banco Solidário Quilombola do Iguape (BSQI), o segundo banco comunitário em território quilombola”, explicou Jorlane.

Os integrantes realizaram diversas reuniões comunitárias com associados e comerciantes para assegurar que todo o processo fosse conduzido com o aval da população. A iniciativa foi concedida pelo Conselho Quilombola da Baía do Iguape, uma organização sem fins lucrativos composta por lideranças de 18 comunidades, com representantes eleitos por suas próprias bases. Na prática, os clientes entram no banco comunitário e solicitam o empréstimo, que precisa ser de acordo com a necessidade, para depois, ser justificado na prestação de contas. 

Prestação de contas

A comerciante Elzanir Conceição atua no segmento de temperos, como de pimenta batida e molhos prontos, e realiza as vendas diretamente em sua própria casa, onde os clientes compram utilizando  Sururu. Para ela, o uso da moeda tem sido bastante eficaz para os negócios da região,

No início, foi um pouco difícil, mas agora, a moeda está 99,99% aceita por parte da comunidade no comércio local. Ainda, as condições que dá para a gente investir são muito boas, e beneficia, sobretudo, os pequenos empreendedores”, afirmou Elzanir. 

O principal investimento é feito nas mercadorias. “Por exemplo, eu trabalho com tempero, aí vou no banco, solicito o auxílio, que é o empréstimo da moeda Sururu, e invisto comprando as coisas”, explicou a comerciante. “Depois do empréstimo, eu tenho um tempo para fazer a devolução desse dinheiro, que pode ser dividido em até três vezes. Então dá tempo de trabalhar, tirar o lucro e devolver", continuou.

Quando chegar o prazo, os comerciantes vão ao banco para fazer a troca da moeda, que pode ser em real ou em Sururu – um real é equivalente a um Sururu. “O sururu é vantajoso para a comunidade e o real para casos em que vão ser feita as compras em um outro local, como na cidade de Santo Amaro, que pode ainda não está aceitando a moeda", complementou Elzanir.

No entanto, nem tudo foi flores. Jorlane ressalta que, no início, houve muita resistência por parte dos comerciantes. “Uma das maiores dificuldades foi aderirem à moeda social, porque não adiantava abrir um banco monetário, ter toda uma estrutura, ter toda uma política inserida dentro do cotidiano e não ser aderida. Diziam que isso não ia funcionar e perguntavam: ‘O que é essa moeda social?’. Foi muito difícil passar toda essa formação política para os comerciantes que não saem do seu berço, que é o próprio bar ou mercearia, mas a gente conseguiu e isso foi uma quebra de protocolo, uma quebra de incerteza”.

Economia para as comunidades

Para o economista Antônio Carvalho, as moedas sociais são um fenômeno que surgiu em diversas comunidades brasileiras, com destaque para a região Nordeste. Segundo ele, esse movimento econômico e cultural revela um alto nível de organização das comunidades, promovendo interação e fortalecendo os vínculos entre seus membros.

“As moedas sociais têm três fatores importantes. O primeiro é o senso de comunidade e de identidade local regional, o que cria identificação, reconhecimento e senso de pertencimento aos moradores; o segundo é a educação financeira, pois, com uma unidade monetária circunscrita à comunidade, a noção de valor e de poder de compra/troca é melhor percebido, o que ajuda ao exercício do controle da renda frente aos gastos do dia-a-dia”, apontou ele.

E o terceiro é o impacto econômico na comunidade gerado pela concentração da compra de bens e serviços junto aos empreendimentos da própria comunidade, onde a moeda é aceita. Uma moeda social pode representar um vetor de desenvolvimento econômico, social e cultural”, continuou.
Segundo dados do Censo 2022 divulgados pelo IBGE, o Brasil possui 8.441 localidades quilombolas, organizadas em 7.666 comunidades distribuídas em 25 unidades da federação. A Bahia aparece como o segundo estado com mais localidades quilombolas, somando 1.814, atrás apenas do Maranhão. Apesar disso, é a Bahia que concentra a maior população quilombola do país, com cerca de 397 mil pessoas — quase 30% de toda a população quilombola brasileira. 
Já o Nordeste é a região com maior presença dessas localidades, concentrando 63,81% do total nacional. O IBGE explica que “localidade” representa agrupamentos geográficos de domicílios quilombolas, enquanto “comunidade” corresponde ao vínculo étnico e social — e uma mesma comunidade pode ocupar mais de uma localidade. Esta foi a primeira vez que o Censo incluiu perguntas específicas para identificar pessoas quilombolas, baseando-se na autoidentificação dos moradores e na autodeclaração dos nomes de suas comunidades.

Inclusão financeira 

O economista ressalta que as moedas sociais, assim como as moedas digitais que surgiram na última década, são novas alternativas frente ao sistema financeiro tradicional. “De maneira geral, complementam o sistema já que, em algum momento das transações realizadas, com moedas sociais ou criptomoedas, precisam ser convertidas em moeda nacional corrente, ou seja, em real”, disse.

Entretanto, segundo ele, diferente das criptomoedas, as moedas sociais não incomodam o sistema financeiro e os grandes bancos, pois, “são transacionadas em pequenos volumes, restritas às comunidades e referenciadas na moeda nacional”. Ainda, ressalta que são “usadas apenas para o consumo de bens e serviços, não sendo possível a realização de compras de bens de grande valor, financiamento ou capitalização financeira (aplicações com rendimentos)”, continuou. 

Por fim, a agente comunitária do banco, Jorlane, ressalta que a proposta é justamente acolher e praticar inclusão financeira no convívio social. “Sabemos que hoje, no Brasil, cerca de 80% das famílias enfrentam dificuldades. Não podemos achar que estamos bem enquanto outros irmãos estão precisando. O olhar do banco comunitário é voltado justamente para esse público, aquele que o SPC e o Serasa excluem, aquele que os bancos convencionais não querem ou atendem cobrando juros absurdos", destacou.

"Nós não somos um banco convencional, somos um banco comunitário. Abrimos as portas para quem o sistema financeiro tradicional não acolhe. É esse público que buscamos atender aqui”, concluiu ela.

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