Economia & Mercado

Quanto as crianças gastam na internet? Levantamento faz raio X do consumo digital infantil no Brasil

Rovena Rosa/Agência Brasil
Levantamento mostra que 92% das crianças e adolescentes brasileiros usam internet, exigindo atenção redobrada das famílias  |   Bnews - Divulgação Rovena Rosa/Agência Brasil
Verônica Macedo

por Verônica Macedo

veronica.macedo@bnews.com.br

Publicado em 14/01/2026, às 07h45 - Atualizado às 07h46



O Brasil tem hoje mais de 24,6 milhões de crianças e adolescentes conectados. A presença massiva no digital não influencia apenas o comportamento social, mas a forma como essas crianças compreendem consumo, desejo e recompensa. Com telas que oferecem feedback imediato, notificações constantes e compras facilitadas, o cérebro infantil é exposto diariamente a estímulos que favorecem decisões rápidas e emocionais. Os dados são do levantamento realizado pelo Tic Kids Online Brasil 2025.

Priscila Rossi, psicóloga infantil e especialista em Educação Financeira para Crianças, explica que este processo começa muito cedo. “A criança ainda não tem maturidade para diferenciar desejo de necessidade. Quando o digital responde rapidamente ao clique, ao toque ou ao pedido, ela aprende que toda vontade pode ser atendida sem espera. Esse padrão cria impulsos que, no futuro, podem virar dificuldade para planejar, poupar ou lidar com frustração”, afirma.

O ambiente online reforça esse mecanismo com estratégias de engajamento pensadas para adultos, mas consumidas por crianças. São animações, recompensas, moedas virtuais e promoções relâmpago que acionam gatilhos emocionais e tornam o ato de comprar parte do entretenimento. Segundo a PwC, o brasileiro já gasta em média R$118 por mês com streaming, e pesquisas indicam que adolescentes podem chegar a investir até R$250 mensais em games. Esses números ajudam a entender o tamanho da influência financeira que o ambiente digital exerce sobre as crianças e adolescentes e, que recai sobre as famílias.

O universo do gasto “invisível”

O crescimento do consumo digital infantil não está apenas nas assinaturas formais, mas nas microtransações escondidas entre telas e anúncios. Entre compras dentro de jogos, figurinhas, itens especiais, moedas de apps ou upgrades de plataformas, o gasto ocorre em pequenas parcelas que passam despercebidas pelos adultos, mas que somam números relevantes no final do mês.

“A criança não entende valor de dinheiro, entende valor de experiência”, afirma Priscila. “Para ela, gastar cinco reais em uma figurinha digital ou cinquenta reais em um passe de temporada tem o mesmo significado emocional. Se o item é desejado e proporciona diversão, ela percebe como algo barato ou até como um presente que merece.”

O relatório da Comscore reforça que o Brasil é hoje um dos países onde as pessoas passam mais tempo em aplicativos, chegando a 103,9 horas por usuário. Nesse cenário, plataformas de varejo como a Shopee registraram crescimento de 7,9 milhões de visitantes únicos, ampliando o acesso infantil a anúncios de baixo custo com apelo direto a desejos momentâneos.

O resultado é um ecossistema onde crianças estão expostas a compras fáceis, rápidas e altamente estimulantes. Para muitas famílias, o impacto aparece diretamente na fatura do cartão.

O que as telas ensinam sobre dinheiro

Muito antes de lidar com mesada ou economias, crianças aprendem a pensar sobre dinheiro dentro dos ambientes digitais. Elas vivenciam modelos que associam consumo a recompensa, decisão ao impulso e compra ao prazer imediato. Essa combinação influencia diretamente a construção da psicologia financeira infantil.

Priscila reforça que esse aprendizado silencioso precisa ser entendido pelos adultos. “A internet ensina que tudo é imediato. Mas, no mundo real, as pessoas precisam aprender a esperar, negociar, priorizar e entender limites. Se a criança cresce acreditando que basta clicar para ter, teremos futuros adultos com maior dificuldade emocional para lidar com dinheiro.”

O efeito acumulado dessas experiências aparece ainda na adolescência, quando os jovens passam a acessar cartões digitais, contas pré-pagas e benefícios financeiros vinculados a plataformas de streaming e jogos. Embora esses recursos possam ser ferramentas educativas, quando não há acompanhamento, acabam reforçando a ideia de que o dinheiro é infinito.

Como famílias podem reduzir a impulsividade e fortalecer escolhas conscientes

Apesar dos desafios, especialistas afirmam que a solução não está em demonizar telas, proibir acesso ou criar medo em torno do digital. O caminho é educar com consciência, ensinar sobre limites e envolver as crianças em conversas reais sobre dinheiro e emoção.

Priscila aponta que a primeira estratégia é transformar a mesada ou o valor semanal em ferramenta pedagógica. “A mesada não é prêmio e não é punição. É um laboratório para treinar escolhas. A criança que decide entre guardar, gastar ou adiar aprende sobre consequência, não sobre controle.”

Outra orientação importante é estabelecer zonas de segurança digital. Isso inclui desativar compras automáticas, criar permissões em família, revisar assinaturas, acompanhar histórico de compras e explicar sempre o porquê de cada ajuste. A combinação entre conversa, previsibilidade e transparência ajuda a criança a entender que o dinheiro precisa ser planejado.

Priscila reforça ainda que as famílias devem falar sobre publicidade, comparações e algoritmos. “Quando uma criança percebe que um anúncio aparece porque ela clicou em um vídeo, começa a entender que o digital tenta influenciá-la. Essa consciência reduz impulsividade e fortalece decisões mais críticas.”

Construir rotinas offline equilibradas continua sendo parte essencial da educação financeira infantil. Atividades que envolvem troca, espera, colaboração e construção coletiva ajudam a criar repertório emocional para lidar com frustrações e tomar decisões mais maduras.

Por fim, o consumo digital infantil já é parte da rotina de milhões de famílias. Com quase 25 milhões de jovens conectados, não se trata apenas de regular acesso, mas de educar para escolhas conscientes em um ambiente que estimula impulsos e recompensas imediatas. A psicologia financeira começa antes da adolescência e se fortalece dentro das telas. Por isso, quanto mais cedo as famílias entenderem esse processo, maiores serão as chances de formar crianças emocionalmente preparadas para lidar com dinheiro, desejos e limites em um mundo cada vez mais conectado.

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