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De parque aquático a 'boom' de casas de shows: Relembre lugares de lazer de Salvador que a geração Z nunca ouviu falar

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Millennials vão lembrar: do Tamina ao Buk Porão, conheça (ou relembre) os espaços de lazer que marcaram a juventude soteropolitana nos anos 90 e 2000  |   Bnews - Divulgação Reprodução Montagem/Redes sociais
Juliana Barbosa

por Juliana Barbosa

juliana.barbosa@bnews.com.br

Publicado em 23/05/2025, às 06h00



Se você nasceu entre 1981 e 1996, bem-vindo ao clube dos millennials — também conhecidos como Geração Y. Filhos da transição do analógico para o digital, do telefone fixo para o MSN, essa turma cresceu no tempo dos aluguéis de fita VHS, das festinhas de garagem, coleção HQs e da primeira conexão discada com a internet.

Retirava o fio do telefone do aparelho da sua casa e conectava no computador. Depois através de um programa chamado discador, fazia a conexão que permitia navegar na internet - É fechar os olhos e lembrar que toda vez que se fazia essa “ligação”, um barulho inconfundível era emitido pela placa.  

Já os nascidos entre 1997 e 2012 pertencem à chamada geração Z, marcada pela hiperconectividade, redes sociais desde cedo e um consumo cultural diferente do vivido por seus antecessores. Entre eles, há quem se identifique como zillennial — um grupo que ocupa esse limbo temporal e cultural entre as duas gerações. 

Mas há algo que une todos: a curiosidade por como se vivia em outras épocas. E é nessa viagem que convidamos você a embarcar agora. 

Durante os anos 90 e 2000, Salvador viveu um verdadeiro boom de espaços de lazer. Era uma cidade pulsando juventude, criatividade e encontros. Uma Salvador onde se ia aos shows de ônibus “pernoitão”, dormia nas praças depois de uma noite de festa, e onde os bares e casas noturnas ainda carregavam um ar de comunidade e pertencimento. 

Parques aquáticos: verão raiz 

O lendário Wet’n Wild Salvador, na Paralela era outro nível.  A quinta franquia da marca americana e a primeira fora dos EUA, o parque tinha piscina de ondas, toboáguas gigantes e estrutura digna de parque temático. Os preços eram mais inflacionados. Fechou no início dos anos 2000.

O espaço de mais de 150 mil m² ficou abandonado por cerca de cinco anos e atualmente é usado para eventos esporádicos, como shows e festivais. Wet, como apelidaram os soteropolitanos, tem capacidade para receber até 20 mil pessoas, e carrega a nostalgia de quem viveu seus dias de glória.  

Quem cresceu na Região Metropolitana certamente lembra do Tamina Park, em Simões Filho. Inaugurado em 1992, foi um dos primeiros parques aquáticos da região e ponto certo para famílias e excursões escolares. Tudo ia bem até que um boato sobre cobras nas piscinas se espalhou, manchando a imagem do espaço, que acabou fechando em 2005. Alguns brinquedos foram reaproveitados pelo Rolf Park, em Pojuca. 

Tamina Park/Reprodução Facebook @João Filho Único
Tamina Park/Reprodução Facebook @João Filho Único

Aposto que você deve ter um registro da infância se banhando nessas águas!

O shopping céu aberto (e mais cool da cidade) 

Aberto em 1999, o Aeroclube Plaza Show, na Boca do Rio, tinha de tudo: cinema gigante, boliche, minigolfe, pista de kart e até o icônico Rock in Rio Café. Quem não lembra do Café Cancun? — restaurante temático com entrada para maiores de 21 anos — que reunia os playboys descolados da época. Era o point da galera de classe média soteropolitana.

De dia ou de noite, era lá que se encontravam amigos, namorados e famílias. Seja para passear, tomar um vinho de origem duvidosa nos arredores, ou curtir uma balada, o aeroclube era destino certo pelo menos uma vez ao mês. O espaço foi demolido em 2014 para dar lugar ao atual Centro de Convenções.  

Para os alternas: do Idearium ao Buk Porão 

Se você curtia rock, arte e o espírito underground, talvez se lembre da Galeria do Rock, na Carlos Gomes, ou do clássico Idearium, no Rio Vermelho. Esses espaços recebiam shows, festas, debates e apresentações até a madrugada – ou além. 

No Pelourinho, um local que marcou gerações foi o Buk Porão, na Escadaria do Paço. O músico David Accioli resume o sentimento, que revisita ao vender os clássicos vinis, cds, DVDs e K7s: 

“O local que mais sinto falta é o Buk Porão. Porque lá se materializou o conceito de espaço underground, bagunçado, caótico, mas tudo com muito amor ao público e às bandas. [...] Não foi à toa que várias bandas nacionais quiseram tocar lá, e quem tocou fala até hoje!” 

Ele ainda relembra o lado improvisado (e inesquecível) de viver a juventude em Salvador: 

“Você saía sozinho de casa, mas sabia que chegando nos espaços sempre encontrava alguém. Não tinha Uber, o jeito era pegar o ônibus ‘pernoitão’ ou dormir na rua mesmo. Já dormi na Praça da Piedade depois de comer um cachorro-quente do Mestre do Hot Dog...” 

Boemia raiz: do arrocha ao eletrônico 

O Língua de Prata, em Itapuã, tinha aquele clima romântico e intimista, perfeito para amantes e fãs de seresta – a mãe do gênero arrocha. Resistiu até 2015, quando a requalificação da orla decretou seu fim. Já o Coliseu do Forró, com sede em Patamares e posteriormente no Rio Vermelho, era parada obrigatória dos forrozeiros. Antes disso, o espaço funcionou como a casa noturna Bananas Music Bar, muito conhecida na virada dos anos 90 para os 2000.

Foi lá que a enfermeira Daniela Souza, hoje com 38 anos, viveu uma noite inesquecível, há duas décadas:

Arquivo Pessoal
A enfermeira Daniela - de blusa rosa - com as amigas no antigo Bananas.

“Eu lembro que na época foi show de uma banda chamada Colher de Pau, que era a Kiko que estava cantando nessa época, a música Nataly. Então eu tinha 18 anos, trabalhava, saí com todo mundo da loja, as colegas da loja e a gente escolheu lá para poder curtir a noite. Na época era tudo muito barato, então tinham algumas bandas convidadas que eu não me recordo, mas foi maravilhoso. Era um espaço que naquela época era mais seguro, não tinha tanto assalto como é hoje em dia e era bem divertido.”

Outros nomes que marcaram época: a casa de shows Bohemia Music Bar, que levou música eletrônica a Barra; o alternativo Mama Gaia, no Corsário, voltado ao axé e o pegodão, e o clássico Casquinha de Siri, em Piatã, point de artistas e boêmios que curtiam uma Salvador mais autêntica. 

Boate que marcou época foi a Fashion Club, localizada na Avenida Octávio Mangabeira, na orla da Pituba. Nos anos 2000, era sinônimo de glamour, camarotes disputados e noites embaladas por música eletrônica, recebendo DJs renomados e o público mais “arrumado” da cena noturna de Salvador. Anos depois, o espaço deu lugar à Madrre.

David também citou outros endereços de memória afetiva: 

“Santana Vídeo Bar, Nhô Caldos, Bar Babilônia, Creole Cajun, Espaço Novo Tempo... Todos com algo especial, mas o Buk era onde tudo acontecia com coração.” 

Outro clássico que não poderia ficar de fora é o Bahia Café Hall. Localizado na Avenida Paralela, foi uma das casas de shows mais importantes de Salvador entre os anos 2000 e o início da década de 2010. Com capacidade para cerca de 4 mil pessoas, o espaço se destacou por sua versatilidade, recebendo desde festas universitárias e formaturas até grandes shows nacionais e até turnês internacionais. Fechou em 2015 e, desde então, o imóvel enfrenta um cenário de abandono, com estruturas enferrujadas e mato tomando conta do local.

Da periferia ao underground: espaços que também marcaram 

Outros espaços, mais periféricos ou ligados a contextos alternativos, também deixaram sua marca na memória coletiva soteropolitana, como o Marina da Penha, no final de linha da Ribeira, um reduto popular de festas e eventos, ponto importante da boemia da Cidade Baixa. No Cabula, o Batukê atraía multidões, especialmente aos domingos, com apresentações que iam do pagode ao samba-reggae.

A Guest Bahia, no IAPI, recebia nomes do pagode e do axé, reunindo o público da periferia em grandes eventos. Já a Estação Ed Dez, idealizada pelo ex-jogador Edilson "Capetinha", servia de palco para apresentações de artistas populares como a banda Black Style.

E por fim, o Megashow, casa de espetáculos que ficou conhecida por ser ligada a Raimundo Alves de Souza, o Ravengar, um dos primeiros grandes traficantes da Bahia. O local era frequentado por grandes públicos e citado em investigações como ponto de lavagem de dinheiro e comercialização de drogas — retrato sombrio de um momento em que o lazer e o crime dividiam o mesmo espaço. 

O que ficou 

Os tempos mudaram, a cidade também. Muitos desses lugares deram lugar a condomínios, centros comerciais, grandes arenas ou simplesmente desapareceram. Mas para quem viveu, tudo permanece vivo — em fotos desbotadas que outrora foram postadas no orkut , em resenhas contadas entre amigos ou em playlists gravadas em fitas K7. 

Hoje, talvez a geração Z jamais conheça o gosto de um cachorro-quente na Praça da Piedade às 3h da manhã ou de dormir num banco de praça depois de uma noite inteira no Idearium. Mas talvez, só talvez, essa matéria desperte neles a curiosidade por uma Salvador que pulsava de outra forma. 

E para os millennials… bem, isso aqui é só um convite à memória. Porque a cidade muda, mas a lembrança não sai da gente. 

Classificação Indicativa: Livre

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