Entretenimento
Integrar o elenco de uma novela da TV Globo ou estampar o cartaz de um filme em exibição nos cinemas, sempre foi o sonho de diversos atores brasileiros. Entretanto, essa possibilidade tem se tornado cada vez mais difícil com a migração dos influenciadores digitais para a televisão e sets de filmagens.
Espaços que antes eram ocupados apenas com participações especiais, que duravam no máximo 2 ou 3 capítulos de uma trama, agora estão sendo levados por mais de 100 episódios, com destaque para o protagonismo, como o caso da ex-BBB Jade Picon, que interpretou a personagem Chiara na novela ‘Travessia’, em 2022, escrita por Glória Perez.
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A estreia da jovem na trama causou tanta polêmica entre os telespectadores, que o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado do Rio de Janeiro (Sated-RJ) foi acionado para impedir a participação de Jade, já que a famosa não possuía o registro profissional de atriz, conhecido como DRT, e nunca havia realizado um curso de atuação.
Na época, o presidente do sindicato, Hugo Gross, se manifestou publicamente sobre o assunto e contou que recebeu mais de 3 mil denúncias contra a influenciadora digital. “Recebemos em torno de 3 mil ligações. A lei é clara: não tem registro, não pode trabalhar”, disse ele, em entrevista ao ‘Estadão’.
Contudo, Jade conseguiu um registro temporário e protagonizou a novela, que recebeu diversas críticas e teve baixa adesão dos telespectadores da emissora. Apesar do fracasso, a jovem seguiu estudando teatro e está prestes a estrelar a personagem Júlia, no filme “Cinco Júlias”.
Revolta ou perseguição?
Recentemente, o assunto voltou à tona após o anúncio de Rafa Kalimann no elenco da novela “Família É Tudo”, também da TV Globo, interpretando a personagem Jéssica, vilã da trama das sete.
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A rejeição à atuação da influenciadora foi grande e, assim como Jade, ela passou a receber diversas críticas nas redes sociais, inclusive de outros colegas da emissora, como o ator Milhem Cortaz, que debochou do título de atriz dado a Rafa.
“Atriz, mano?”, comentou ele na publicação de um perfil do Instagram. O comentário acabou repercutindo e chegou até o ator João Vicente de Castro, que saiu em defesa da ex-affair e amiga.
“Com todo respeito ao Milhem, que considero um grande ator, que sei que é um homem generoso e respeitoso. Sim. Atriz. Uma mulher que estudou. Leu, trabalhou e trabalha. Pode, na sua opinião, ainda estar começando, como todos começamos, ou não ter tanto talento como você. Porém, tem vocação, tesão, amor pela profissão. Atriz sim”, comentou ele em uma página de fofocas.
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O assunto rendeu tanto que outros atores se manifestaram sobre a “invasão” dos influenciadores nas tramas e afirmaram que estão cada vez perdendo mais espaço para quem tem mais seguidores, como a atriz Alice Wegmann, que publicou um desabafo em seu perfil do Instagram e contou que chegou a perder trabalhos por conta do número de seguidores no Instagram.
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“Sou uma atriz. Depois de ser um ser humano, uma cidadã, uma mulher, sou uma atriz. Inspirada pelo discurso do Babaioff que postei nos stories, quero falar sobre o nosso futuro. Somos uma geração que tem que se formar em medicina e Instagram. Em psicologia e instagram. Em atuação e Instagram. Eu fiz 4 anos de teatro e tenho 17 anos de profissão, já aprendi sobre Shakespeare, mas nunca me ensinaram a ser uma it girl”, escreveu.
“[...] Carreira se constrói a longo prazo, bons atores são aqueles que permanecem. Ainda estou entendendo como conciliar a minha verdadeira profissão e essa segunda profissão que o mundo me obrigou a ter. E esse é um relato sincero de quem fica meio perdida às vezes. Eu sou muitas e quero ser todas elas, mas sobretudo quero ser a Alice de verdade”, refletiu.
Sem engajamento, sem trabalho
E não foi só Alice quem sofreu com a falta de trabalhos por causa do baixo engajamento no Instagram. A atriz Sabrina Petraglia revelou que perdeu diversas oportunidades por não ter 1 milhão de seguidores em suas redes sociais.
“Já perdi oportunidades por não ter 1 milhão de seguidores. Alegaram que precisavam de um nome mais forte para trazer o público da internet. Fiquei arrasada. Já disputei papéis com quem tinha muitos seguidores e sabia que poderia não pegar o trabalho por ser menor no Instagram”, contou ela, em entrevista ao portal ‘Splash’, do UOL.
“Fico muito preocupada e movimento minhas redes porque sei que é preciso ter seguidores para trabalhar hoje em dia. Eu fico triste porque, com a valorização dos seguidores, você perde o valor do estudo. Ser ator não é ser famoso. Ser escalado por número de seguidores é muito cruel”, completou.
Em entrevista à reportagem do BNews, a atriz Letícia Laranja, que fez sucesso como a personagem Flor, na novela ‘Terra e Paixão’, da TV Globo, confessou que também foi mais uma vítima da falta de números expressivos em seus perfis na internet.
“Com certeza eu já perdi trabalho por causa disso, já perdi sim e continuo perdendo. É um pouco desesperador, mas o que me resta é acreditar no meu trabalho. Eu sou uma pessoa que, apesar de gostar de estar na rede social, de às vezes postar uma coisa, de compartilhar uma coisa ou outra da minha vida, eu não sou uma pessoa tão midiática assim, nesse sentido. Esse não é o meu caminho”, disse ela.
“O meu caminho não é produzir conteúdo para o meu Instagram para que eu tenha cada vez mais seguidores, o meu caminho é estudar atuação, estudar teatro, estudar técnica e me aprimorar enquanto artista. Então é nele que eu vou acreditar, e apesar de perder trabalhos por conta disso, eu acredito muito que eu vou ganhar trabalhos por conta da minha eficiência, do trabalho que eu faço e não pelos seguidores que eu tenho”, reforçou.
Tem espaço para todos?
Apesar da discussão, que tem sido pauta em diversas conversas nas redes sociais, há alguns atores que defendem a participação dos influenciadores na TV, nas séries e nos filmes, reforçando que há espaço para todos expressarem a arte.
Em entrevista ao programa 'Roda Viva', da TV Cultura, o ator Antônio Fagundes, que possui mais de 50 anos de carreira, expressou sua opinião. “Na minha época não eram influencers, eram modelos e surgiu o preconceito. Depois, o preconceito veio contra os ‘BBBs’. Agora, contra influencers. Honestamente, eu não tenho o menor problema com isso, até porque o Paulo Autran era advogado”, confessou.
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“Então, não pode existir preconceito. Quem tem que resolver é o mercado. Se o influencer for bom, ele vai continuar como ator. Se não for bom, vai voltar a ser influencer”, completou ele.
Outra veterana das telinhas que se manifestou foi Betty Faria. A famosa condenou as críticas aos influenciadores e chamou a atitude do público de discriminatória. “Repare bem nos filmes e veja as faixas etárias dos protagonistas. Esse discurso de ‘os autores têm que escrever para os velhinhos’, ‘os influenciadores não podem trabalhar’, isso acho horrível. Acho discriminatório”, declarou, em entrevista à coluna Play, do jornal ‘O Globo’.
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Contrapondo a opinião dos atores veteranos, o representante do Sated- RJ (Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Rio de Janeiro), Hugo Gross, afirmou que o público da TV não é o mesmo da internet e isso deve ser respeitado.
“Nada contra os influencers, eles vendem um produto muito bem, mas não entendem da interpretação, e o público que segue 'fulano de tal' não entende que quem assiste televisão não é o mesmo público da internet. Principalmente os idosos, que amam e amavam as novelas das emissoras de televisão, não entendem isso, que não é o mesmo segmento que já foi”, disparou ele, em entrevista ao colunista Leão Lobo, do ‘Splash’.
O artista ainda reforçou que os atores, que estudam e se dedicam de verdade, merecem mais oportunidades. “Mas o que a gente tem de talentos que realmente batalham, fizeram faculdade e que estão lutando por uma sobrevivência é descomunal. A gente está aqui para defender esse pessoal, desculpa, não são essas 'pessoas do glamour', mas estamos aqui por pessoas que estão precisando trabalhar, que têm a humildade de batalhar, de pedir teste”, disse.
“Pessoas que têm registro, que começaram há muito tempo, têm que ter essa oportunidade. Quantos idosos eles não chamam? Os idosos estão sendo deixados de lado. A gente tem que combater isso”, completou ele, deixando claro que o espaço deve ser dado para quem realmente merece.
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