Entretenimento
por Vagner Ferreira
Publicado em 29/11/2025, às 07h00
“Sou camelô / Eu sou do mercado informal…”. Ops, engana-se quem pensa que esse verso define o homem por trás da voz. Embora nunca tenha sido camelô, o cantor Edson Gomes, que completou 70 anos em 2025, protesta, por meio de suas músicas, os anseios, as dores e as esperanças de comunidades historicamente marginalizadas. Em toda a sua trajetória, seu canto soou como denúncia, memória e resistência.
Nascido em 3 de julho de 1955, na cidade de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, Edson Gomes viveu em um contexto de profundas desigualdades sociais e, desde muito cedo, percebeu que a arte podia ser seu modo de dar voz a quem o sistema preferia silenciar. Essa consciência moldou sua obra desde os primeiros acordes.
Sua carreira artística se tornou pública aos 16 anos, após ganhar um festival de música em sua cidade natal, que fica a 170 quilômetros de Salvador. A virada definitiva de Edson veio no final dos anos 1980, quando lançou o álbum Reggae Resistência (1988), após ter recebido o Troféu Caymmi e ser premiado como melhor intérprete. Em uma cena em que o reggae ganhava força como voz global das populações negras, periféricas e marginalizadas, o cantor encontrou influência em nomes como Bob Marley, Peter Tosh e Jimmy Cliff.
A coordenadora da Casa do Reggae e produtora cultural, Jussara Santana, destaca a influência de Edson Gomes para o reggae na Bahia e no Brasil, ressaltando como o artista impulsionou o ritmo ao longo das décadas.
O reggae já tem a sua importância pelo que traz na essência, sendo música de protesto, com peso social, político e cultural. Edson Gomes foi um dos pioneiros e trouxe isso muito forte nas canções, totalmente conectadas com a nossa militância, com o empoderamento do nosso povo e com a necessidade de falar sobre as injustiças sociais e culturais que existem. Ele traz isso de forma muito potente nas letras”, ressaltou Jussara.
Protesto por meio de música
Durante a carreira, Edson lançou repertórios com canções sobre consciência social, que se perpetuam até os dias atuais, inclusive nas periferias. São apenas algumas: Samarina, Malandrinha, Campo de Batalha, Barrados, Criminalidade, Fala Só de Amor, Árvore, Na Sombra da Noite, Fogo na Babilônia, O País É Culpado e Serpente.
“As letras que ele criou lá nos anos 1980 e 1990 continuam atuais. Os problemas não mudaram e seguem existindo, e é por isso que o reggae segue nessa mesma linha. Edson Gomes continua pontuando os problemas que existem na sociedade, como injustiça, discriminação, ganância pelo poder, e ao mesmo tempo, valorizando o nosso povo, a cultura reggae e a cultura rastafári”, continuou Jussara.
Também no cenário da música baiana há mais de 40 anos, o cantor Lazzo Matumbi destaca que Edson é um dos ícones diferenciados na música. “Além de incorporar o reggae como bandeira musical do seu trabalho, ele demonstrou, ao longo da carreira, através de suas letras, a preocupação com o cotidiano do povo. Por isso, entendo que ele merece o reconhecimento, e todo respeito tanto do público baiano, quanto do público brasileiro”, descreveu o artista baiano.
Novas gerações
Edson Gomes segue influenciando novas gerações de artistas que encontram no reggae uma forma de expressão política, cultural e identitária. Sua obra, repleta de consciência social e crítica, abriu caminho para que jovens músicos encarassem o gênero não apenas como ritmo, mas como instrumento de luta e afirmação.
“A influência de Edson Gomes na minha vida é muito grande. Meu pai me influenciou e continua me influenciando muito, com toda a trajetória dele, com essa postura de resistência, de sempre buscar passar uma mensagem de positividade, de abordar nas canções os problemas sociais que a gente vive na nossa sociedade, como as dificuldades do dia a dia e as coisas básicas que todo cidadão precisa, como saúde, segurança”, descreveu o cantor Jeremias Gomes, filho de Edson Gomes.
Toda a trajetória dele, todo o caminho que percorreu e percorre até hoje impacta diretamente em mim, nas minhas ideias, na minha visão de mundo e em tudo aquilo que eu quero dizer. Muito do que penso vem do que eu vi meu pai fazer ao longo de toda uma vida”, continuou Jeremias, que trabalha como Backing vocal na banda do pai, a Cão de Raça, e seguem viajando aos finais de semana.
Ainda, Jeremias destacou que o pai é “um grande representante do povo preto e da cultura negra brasileira”, justamente pelas mensagens que transmite, pela luta que carrega e pelo empenho dedicado ao longo de tantos anos de carreira. Para ele, Edson Gomes sempre valorizou e defendeu essa cultura, “sendo a voz de muitos, a voz dos excluídos, a voz de toda uma comunidade negra”. No mais, ele afirma: “As pessoas se sentem representadas por ele, pela mensagem que ele leva”.
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O cantor e compositor baiano, Jahgun, que está dividindo o palco com a banda The Wailers, que acompanhou Bob Marley e ajudou a espalhar o reggae pelo mundo, tem Edson como uma de suas grandes inspirações.
"Eu tinha uns dez anos, quando ouvi ‘Sistema do Vampiro’ pela primeira vez. Edson Gomes virou parte da trilha sonora da minha vida. Meus tios e meu padrinho, todos reggaeiros, chegavam no fim de semana na casa da minha avó com o vinil de capa amarela debaixo do braço, e ali, entre risadas e conversas longas, o reggae tocava sem parar”, lembrou o cantor.
Foi ouvindo Edson Gomes que aprendi a sentir a força da música, a consciência nas letras e a energia que ele espalhava. Gratidão ao ícone do reggae brasileiro por fazer nascer em nós esse amor pelo reggae", continuou Jahgun.
Já o músico Ícaro Caribé destaca o impacto profundo de Edson Gomes tanto para a música quanto para a construção histórica da luta e resistência no Brasil. "Quando falamos sobre a importância de Edson Gomes na música brasileira no geral e na história do reggae precisamos falar que ele trouxe uma sonoridade única tanto no instrumental como nas suas letras impactantes,e acredito muito que nós brasileiros e principalmente nós soteropolitanos precisamos reverenciar e valorizar melhor esse ícone muito importante da música como um todo", descreveu.
E segue fazendo história
Mesmo após cinco décadas de carreira, Edson Gomes continua ativo. Em 2025, sua agenda de shows permanece intensa, reafirmando a força de seu nome no reggae nacional. A presença constante nos palcos mostra que seu público não só se mantém fiel, como se renova a cada geração.
Prova disso é que, neste sábado (29), o artista está como uma das principais atrações da República do Reggae, que vai acontecer no Wet, em Salvador, na Bahia. Recentemente, ele foi anunciado também como um dos nomes da atração do Lollapalooza Brasil 2026, que vai acontecer no Autódromo de Interlagos, em São Paulo, no mês de março.
Eu enxergo uma importância muito grande de Edson Gomes para a história do reggae baiano e brasileiro, tanto musicalmente quanto socialmente. Ele é um dos artistas nacionais necessários, não só para a cultura negra, mas para a sociedade em geral. É um artista que dedicou 50 anos da sua carreira, e continua dedicando, ainda fazendo grandes shows, com ascensão no Brasil inteiro e rodando com uma turnê muito bonita, levando essa mensagem de paz, amor e conscientização aos quatro cantos do país”, disse o filho, Jeremias.
“Ele segue renovando o seu público com essa mensagem de positividade, lotando shows e mantendo viva a essência do reggae. É um artista realmente necessário”, concluiu. Vida longa a Edson Gomes.
Classificação Indicativa: Livre
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