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Violência doméstica: psicólogas alertam como mulheres podem identificar sinais de abuso

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Psicólogas alertam para comportamentos suspeitos antes da violência doméstica ser consumada  |   Bnews - Divulgação Foto: Ilustrativa / Reprodução/Thinkstock
Natane Ramos

por Natane Ramos

Publicado em 11/01/2026, às 06h00



A violência doméstica raramente inicia-se com um soco. Ela pode se apresentar com pequenos sinais, seja uma expressão, um ciúme excessivo, até chegar aos xingamentos, a quebra da liberdade, até consumar violência física. 

No Brasil, esta é uma realidade que se demonstra cada vez mais urgente tendo em vista o crescente número de mulheres que sofrem violência doméstica. Uma pesquisa do Instituto de Pesquisa DataSenado, em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência, apontou em um levantamento que 3,7 milhões de brasileiras sofreram violência doméstica em 2025. Os dados também apontam que em 71% dos casos, a agressão aconteceu na presença de outras pessoas, sendo 70% destas situações presenciadas pelos filhos das próprias vítimas.

Com o preocupante crescimento, o BNews

entrevistou as psicólogas Sophia Sahd e Rhayanne Sales para destacar como essas mulheres e pessoas próximas podem identificar sinais de violência antes que o caso se torne fatal.

Além da agressão física, a violência começa com "pequenos" sinais

"Muitas mulheres ainda acreditam que só existe violência quando há agressões físicas visíveis. No entanto, a violência emocional e psicológica costuma aparecer muito antes disso", destacou Rhayane.

No entanto, a psicóloga, com tratamento voltado para mulheres, destaca que existem sinais que indicam violência antes da agressão física, sinais emocionais e comportamentais que indicam que uma pessoa é vítima de uma relação abusiva.

Entre os sinais mais comuns, Sales avalia que "a invalidação emocional, quando a outra pessoa diminui o que a mulher sente, dizendo que é 'drama', 'exagero' ou 'sensibilidade demais', e frases como "Você é muito dramática" ou "Você chora por qualquer coisa", dá indícios do começo de um relacionamento abusivo.

A especialista destaca que a culpabilização do agressor contra a vítima, que despeja na mulher suas frustrações de forma agressiva; o medo da vítima em discordar; o controle excessivo e isolamento são sinais de um parceiro abusivo.

Sophia Sahd, psicóloga e neuropsicóloga, reforça que o cuidado excessivo também é uma forma de violência que não é percebida. "Os primeiros sinais costumam ser sutis e, justamente por isso, facilmente confundidos com demonstrações de afeto. Controle disfarçado de cuidado. Outro sinal importante é a invasão de limites! Ler mensagens, decidir rotinas ou fazer a pessoa se sentir culpada por querer autonomia. Quando o amor começa a exigir renúncia constante de si, algo já não está saudável", explica.

Não é sua culpa! Entenda o motivo de vítimas demorarem para perceber relações violentas

A psicóloga Sophia Sahd reforça que há uma tendência das vítimas em demorar a perceber que estão passando por um relacionamento abusivo. "A violência raramente começa de forma explícita. Ela se constrói aos poucos, enquanto a autoestima da vítima vai sendo minada. Muitas pessoas internalizam a culpa, acreditando que o problema está nelas. Além disso, existem fatores emocionais profundos envolvidos, como dependência afetiva, esperança de mudança, medo da solidão, vergonha e, em muitos casos, experiências anteriores de abandono ou violência. A relação passa a ser vivida não a partir do amor, mas da sobrevivência emocional", declarou.

A violência, como abordado por ambas as profissionais, pode começar com a psicológica e evoluir para as agressões. Rhayanne destaca que isso acontece de forma gradual, e que antes do físico, é o emocional e psicológico que é abalado, tornando-se uma rotina difícil de ser percebida pelas vítimas. "É fundamental prestar atenção em comportamentos como empurrões, beliscões, segurar com força, impedir a pessoa de sair de um lugar ou gestos intimidadores, como bater na parede ou quebrar objetos", explica.

Além disso, fatores como a vergonha, culpa e vínculos familiares podem impedir uma vítima de denunciar ou procurar ajuda. "Existem crenças disfuncionais sobre amor e relacionamento, aprendidas ao longo da vida. Em muitos casos, as mesmas pessoas que deveriam oferecer cuidado também foram aquelas que humilharam ou hostilizaram, criando uma vivência confusa, onde afeto e violência coexistem. Na maioria das vezes o abusador/agressor conhece e reforça as vulnerabilidades com ameaças, o que acaba reforçando as crenças da vítima", comenta.

Como saber que está passando por um relacionamento abusivo?

Rhayane destaca algumas perguntas para mulheres que desconfiam de seus parceiros, com reflexões que podem ser decisivas para que a vítima procure ajuda. Confira:

  • Você percebe que se afastou de quem você era antes dessa relação?
  • Você se sente segura para discordar ou propor algo diferente?
  • Como a outra pessoa reage quando você discorda?
  • Você costuma ceder para evitar conflitos e manter a relação?
  • Seu parceiro já bateu na parede, chutou objetos ou fez gestos intimidadores?
  • Você mente sobre onde está ou com quem fala por medo da reação dele?
"Buscar uma escuta segura é essencial, alguém que acolha, valide seus sentimentos e ajude a ampliar a sua visão sobre relacionamentos. É importante reforçar que é possível aprender novas formas de se relacionar, mais saudáveis e respeitosas. Quanto antes esse processo começar, maiores são as chances de não repetir esses padrões no futuro", detalhou a psicóloga.

A quem pedir ajuda e a importância do acompanhamento psicológico

Em casos de violência doméstica, é recomendado ligar para o 180, a Central de Atendimento à Mulher, e denunciar o ocorrido. No entanto, também é importante o acompanhamento psicológico e possuir um ciclo de confiança para relatar as situações, além de entender que esse contato com o profissional não deve ocorrer apenas após a violência física ser consumada.

"Buscar ajuda é decisivo no momento em que a relação começa a gerar sofrimento recorrente, medo, culpa ou perda de si. Não é preciso esperar que a violência se torne física. O acompanhamento psicológico ajuda a pessoa a nomear o que está vivendo, fortalecer sua percepção de realidade e reconstruir limites. Além da psicoterapia, a vítima pode procurar serviços de saúde, centros de apoio à mulher, redes de proteção social e, quando necessário, apoio jurídico. Pedir ajuda sempre será um passo de preservação", declarou a psicóloga Sophia Sahd.

Viver um relacionamento abusivo influencia na saúde física, emocional e psicológica de uma pessoa, gerando ansiedade, depressão, baixa autoestima, confusão emocional, culpa excessiva e sensação constante de inadequação. "Mesmo sem agressão física, a violência psicológica pode deixar marcas profundas, afetando a identidade, a autonomia e a capacidade de confiar em si mesma", relata Sahd.

A psicóloga reforça que outros espaços são necessários para a reconstrução do emocional da vítima. "Para quem sofre a violência, a psicoterapia é um espaço de reconstrução total. Da autoestima, da autonomia e da capacidade de se escutar novamente. Ela ajuda a romper padrões, compreender vínculos e fortalecer escolhas mais seguras. Para quem pratica a violência, o acompanhamento psicológico é essencial para reconhecer responsabilidades, compreender a origem desses comportamentos e desenvolver outras formas de lidar com emoções e frustrações. Sem esse cuidado, o ciclo tende a se repetir. A violência não se rompe apenas com o fim de uma relação, mas com transformação emocional e psíquica", concluiu Sophia.

Em um cenário de 718 casos de feminicídios registrados entre janeiro e junho de 2025, com uma média de cerca de 4 mulheres mortas por dia, segundo o levantamento do Observatório da Mulher Contra a Violência, faz-se necessário um olhar observador para o próximo, pronto para acolher e denunciar essas situações.

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