Meio Ambiente
por Antonio Dilson Neto
Publicado em 02/06/2026, às 05h00
Você já ouviu falar em ESG? O termo é uma sigla para as palavras Environmental, Social and Governance (em inglês: Meio Ambiente, Social e Governança) e tem ganhado cada vez mais protagonismo no debate público mundial.
A sustentabilidade corporativa passou por uma virada de chave definitiva no mercado brasileiro. Se antes falar de ESG consistia basicamente em ‘preencher um capítulo bonito no relatório anual ou criar uma campanha de marketing verde’, como observa a advogada ambiental Gabriela Nogueira, hoje o cenário é de sobrevivência..
Nos últimos cinco anos, a retórica deu lugar a transformações práticas, impulsionadas pelo aperto do mercado financeiro e pelo rigor da Justiça.
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Um dos grandes motores dessa mudança são o bolso e o risco jurídico. No Brasil, a responsabilidade por danos ecológicos é objetiva e solidária. Segundo Gabriela, especialista e mestranda na área, a legislação atual determina que “a conta do prejuízo sempre vai atrás do patrimônio e do atual proprietário da terra”.
Amparada pela Súmula 623 do STJ, a obrigação de reparar adere ao bem, "não importando quem começou a poluição ou o desmatamento lá atrás". Esse cerco legal obriga corporações a realizarem auditorias rigorosas antes de qualquer contrato, sob o risco de responderem como poluidores indiretos.
A pressão também atinge a governança e a remuneração de executivos, cujos bônus agora dependem do cumprimento de metas sustentáveis. Além das regras de mercado, como a Resolução CVM 193/2023 para companhias abertas, há o peso da opinião pública.
Gabriela lembra que hoje não basta a aprovação técnica de um projeto "se os vizinhos não aprovarem a obra", configurando a chamada "licença social para operar", baseada na Convenção 169 da OIT.
O recado para o mundo dos negócios foi claro, pois ignorar o risco ambiental hoje se tornou o caminho mais rápido para contrair uma dívida jurídica impagável e destruir o nome da empresa no mercado".
Na linha de frente da construção civil, setor historicamente impactado, a rotina operacional foi redesenhada. Segundo Nayara Ramos, gerente de Qualidade, Segurança, Meio Ambiente e Saúde (QSMS) da Axxo Construtora, as diretrizes de sustentabilidade da empresa são tratadas no topo da pirâmide organizacional.
"Nossa atuação está estruturada nos três eixos do ESG: redução dos impactos ambientais das obras, valorização das pessoas e fortalecimento de uma gestão ética, transparente e baseada em conformidade legal. No pilar social, buscamos promover ambientes de trabalho mais seguros, saudáveis e colaborativos, além de estimular o desenvolvimento das comunidades onde atuamos, priorizando contratação de mão de obra local, qualificação profissional e ações de saúde e conscientização".
Além disso, a Axxo mantém certificações ISO há mais de 15 anos, atualmente com um Sistema de Gestão Integrado baseado nas normas ISO 9001, ISO 14001 e ISO 45001, que orienta nossos processos, indicadores, metas e monitoramentos internos. Essa estrutura contribui para que as ações relacionadas ao ESG façam parte das decisões estratégicas e operacionais da empresa, e não apenas de iniciativas pontuais.
A construtora faz o inventário de gases de efeito estufa e projeta neutralizar 100% de seus empreendimentos a partir de 2030. No canteiro de obras, a resposta prática envolve o reuso de água pluvial e a reciclagem de resíduos.
Hoje, clientes, investidores e grandes contratantes valorizam empresas comprometidas com sustentabilidade e critérios ESG", pontua Nayara.
No setor de comunicação visual e indústria gráfica, a busca por práticas limpas começou por um fator humano. "O principal motivador foi a preocupação com a saúde dos colaboradores", explica Vitor Barreto, CEO da Blueartes, ao lembrar que maquinários tradicionais utilizavam tintas tóxicas com metais pesados.
Com a meta de eliminar tecnologias baseadas em solvente até 2030, a empresa já substituiu a maior parte do parque gráfico por equipamentos com selo verde, além de migrar para energia solar.
A sustentabilidade continua sendo nosso grande trunfo. Acabamos de trazer para o mercado baiano a primeira empresa homologada para trabalhar com o substrato conhecido como CardBoard ou Ecoboard, material feito a partir da celulose, onde a matéria-prima já é reciclada e que após o uso continua na economia circular por ser reciclável.
Contudo, o pioneirismo tecnológico também cobra seu preço. Vitor relembra que a Blueartes enfrentou prejuízos ao adquirir uma máquina de tinta látex que não performou como esperado e parou a produção.
Às vezes, a estratégia de seguir pioneiros é mais adequada para minimizar essas dores de quem abre o mercado. O pioneirismo traz dores, chegar primeiro não é sinônimo de [beber] água limpa", analisa o CEO.
Desafios
Implantar a cultura de ESG nas empresas não costuma ser tarefa fácil e, o desafio aumenta em alguns setores o desafio é dobrado. Nayara, da Axxo Construtora, observa que a construção civil é um deles e o tamanho da cadeia produtiva é um grande obstáculo à execução plena dessa cultura empresarial. São muitos produtores, fornecedores e prestadores de serviço, analisa a gerente.
Outro ponto importante é a resistência à mudança. A construção civil ainda é um setor bastante tradicional e muitas vezes existe dificuldade em alterar hábitos e processos já consolidados,
desde a gestão até a operação nos canteiros.
Mobilizar a cadeia produtiva é, também, um fator de complexidade para aderência ao ESG. Vitor Barreto registra que, muitas vezes é a empresa que leva a cultura ao cliente e também aos fornecedores.
Essa é uma mudança que vem acontecendo de forma tímida, ainda somos nós vendedores que estimulam os clientes a conhecerem e adquirirem produtos e serviços
sustentáveis. Nossos fornecedores ainda não nos exigem produtos e serviços que estejam vinculados a uma estratégia ambiental", observa.
Vitor também analisa que a mudança no meio empresarial não é fácil e que há uma resistência cultural quanto às inovações. "Existem duas grandes barreiras, a barreira da consciência cultural de se permitir testar novas soluções, saindo da rotina e do costume já estabelecido".
Olhando para o futuro
A sustentabilidade é, além de uma reconstrução de práticas do presente, uma formação de práticas e atitudes para o futuro. E, na cultura do ESG, planejar é uma atividade fundamental.
Na Axxo, os próximos passos já estão bem desenhados. Nayara Ramos detalhou que um dos grandes focos de médio prazo será consolidar e amadurecer tecnicamente o Programa Carbono Neutro, ampliando gradativamente o percentual de obras contempladas pelo inventário e compensação das emissões.
Com o objetivo de compensar as emissões de CO₂ geradas pelas atividades da empresa, o programa integra um conjunto de medidas que incluem controle rigoroso de resíduos, incentivo à reciclagem e reuso de materiais, além de práticas de consumo consciente de água, energia e matérias-primas.
"Paralelamente, queremos evoluir na qualidade dos dados ambientais, estruturar indicadores mais consistentes e fortalecer ações voltadas à redução de resíduos, reaproveitamento de materiais e uso mais eficiente dos recursos naturais. Outra frente importante é ampliar o uso de soluções tecnológicas que aumentem a eficiência operacional e reduzam desperdícios, além de avaliar oportunidades relacionadas ao uso de energia renovável e novas tecnologias sustentáveis aplicadas à construção civil", enumera a gerente.
As iniciativas voltadas à saúde e segurança ocupacional, qualificação profissional e desenvolvimento das equipes também estão no radar da empresa, que mantém o entendimento de que a evolução da agenda ESG depende tanto de processos quanto das pessoas envolvidas neles.
Na Bluearts, a inovação continua no plano ESG para os próximos anos. "Acabamos de trazer para o mercado baiano como a primeira empresa homologada para trabalhar com o substrato conhecido, o CardBoard ou Ecoboard, material feito a partir da celulose, onde a matéria prima já é reciclada e que após o uso continua na economia circular por ser reciclável", comenta Vitor Barreto, que já anuncia uma novidade. "Para 2027 traremos mais uma tecnologia sustentável, mas que ainda não pode ser divulgada pois ainda estamos na etapa de homologação".
Por fim, a advogada Gabriela Nogueira relembra que a sustentabilidade deixou de ser apenas um conceito para ser um compromisso diário.
A conformidade ambiental, portanto, deixou de ser apenas uma fachada ética. Na atual engrenagem dos negócios, criar uma política ambiental sólida, transparente e protegida pela lei não é mais um diferencial para sair na frente; é a única base possível para garantir que a empresa continue funcionando".
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