Meio Ambiente

Junho Verde: Número de espécies ameaçadas cresce no Brasil, alertam especialistas

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Especialistas explicam causas como desmatamento, poluição e perda de habitat  |   Bnews - Divulgação Foto: Ilustrativa / FreePik
Natane Ramos

por Natane Ramos

Publicado em 08/06/2026, às 05h00



A cada ano, a biodiversidade brasileira enfrenta um cenário preocupante. De acordo com um relatório divulgado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a fauna no Brasil apresenta 1.264 espécies ameaçadas de extinção.

Neste Junho Verde, o BNews intensifica o alerta sobre a preservação do meio ambiente. Em entrevista ao portal, os especialistas Igor Morais e Iago Junqueira destacaram os principais fatores que estão contribuindo para a perda da biodiversidade no Brasil.

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Ao BNews, o biólogo e mestre em zoologia, Igor Morais , explicou o que está provocando a perda da biodiversidade na Terra. Confira os 5 principais fatores:

  1. Destruição de habitats;
  2. Introdução de espécies exóticas (soltando espécies de forma intencional ou acidental em ambientes pelos quais elas nunca chegariam por conta própria);
  3. Poluição;
  4. Crescimento desordenado da população humana;
  5. Caça ou coleta excessiva.
"Todos esses cinco fatores podem ser vistos no Brasil atual. A destruição do habitat é a mais evidente. Perdemos 93% da Mata Atlântica, 50% do Cerrado e pelo menos 40% da Caatinga, um bioma que não possui, até o momento, qualquer proteção legal. Mas a destruição de habitat, poluição, caça ou coleta excessiva e até mesmo o crescimento desordenado da população são impactos relativamente fáceis de resolver ou mitigar quando comparados à introdução de espécies exóticas. Isso acontece porque o impacto da introdução de espécies exóticas não para ou termina quando paramos de liberá-las no novo ambiente", explicou.

O biólogo e professor, Iago Junqueira, representante da iniciativa educacional The Wild Place: Wildlife and Conservation Education, reforçou outros fatores que impactam a biodiversidade no Brasil, entre eles a perda de habitat e da sua qualidade. "Perda de habitat é quando a gente tem uma área de floresta, por exemplo, e ssa área de floresta é derrubada para dar ali lugar a uma plantação, a uma expansão urbana ou algum outro tipo, né, de uso daquela terra que não seja o original dela ali, que é a permanência da floresta", explica. 

Junqueira também pontua o tráfico como um dos riscos para a biodiversidade. "A gente ainda tem grande volume de extração da fauna silvestre, não só de fauna, mas também de flora silvestre, dessas áreas de proteção para venda no mercado negro", relata.

"A Mata Atlântica, aqui toda nossa costa, ela está sendo perdida não só para fins de produção agropecuária, mas por conta da expansão das cidades, já que é a área mais populosa que a gente tem no país e com crescimento imobiliário significativo", ressalta.

Principais animais ameaçados de extinção no Brasil

Igor Morais, especialista em comportamento animal e ecologia de populações, revelou que, dependendo do grupo de espécies a ser avaliado, "há deficiência de dados ou influências políticas no processo". "Por exemplo, participei de uma oficina para avaliação de espécies do ICMBio que o processo de uma determinada espécie ameaçada ao invés de ser decidido por dados, foi decidido por meio de uma votação. É uma consequência infeliz de uma sociedade composta por 89% de analfabetos científicos. Torna-se muito comum a percepção equivocada de que ciência é 'democracia'. Mas não é. Não adianta fazer uma votação para a gravidade agir ou não. A gravidade age e ponto final", criticou.

Citando a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas no Brasil, o cientista destaca que existem 1.271 espécies em alguma categoria de ameaça. No entanto, "isso não significa que essas 1.271 espécies ameaçadas tenham a mesma proteção legal".

"A política brasileira trata peixes e invertebrados aquáticos como algo diferente e estes, em alguns casos, não recebem proteção ou têm proteção deficitária no âmbito da legislação", explicou.

Nesta categoria, o biólogo revela alguns animais ameaçados que não recebem a devida importância quando analisadas as medidas de proteção legais. São eles:

  • Tubarões;
  • Raias;
  • Mangona;
  • As duas espécies de peixe-serra.

Além desses animais, o cientista reforça que há grupos de espécies, como anfíbios e répteis, que ainda são pouco estudados. "Esse desconhecimento resulta na não avaliação do seu estado de conservação. Isso afeta, pasme, mamíferos também. O gato-palheiro era considerado como uma única espécie até 2020. Mas um estudo mostrou que, na verdade, são 5 espécies distintas. Uma delas, o gato-do-Pampas (Leopardus munoai), conta com menos de 250 indivíduos e ainda não tem qualquer proteção legal", pontuou.

Iago Junqueira contribuiu para a reflexão, explicando como algumas classes que sofrem ameaça não são tão consideradas quanto outras. "A gente vai ver que a classe que tem a maior quantidade de espécies ameaçadas no Brasil são os peixes, peixes de água doce. A gente tem uma infinidade de peixes ameaçados que, por não serem parte do que eu vou chamar "fofo fauna", que é fauna emblemática e que a gente, tipo, consegue facilmente ter empatia por eles. São geralmente peixinhos cinza, pequenininhos e que ninguém dá muita importância", explicou.

Apesar do descaso com essas espécies, o profissional destaca que cada uma delas possui seu valor. "Elas têm o papel ecológico tão importante quanto a arara-azul e o mico-leão-dourado têm. E elas sumindo, elas vão causar um impacto gigantesco para aquele local onde elas ocorrem, porque ninguém mais vai fazer o papel dela. Isso vai mudar toda a ecologia do rio, o rio inteiro onde ela vive, todo aquele habitat vai ter que se adaptar aí durante os próximos vários mil anos para aquela ausência", relata.

"Isso é um grande desafio para quem trabalha com conservação, mas essas espécies não deixam de estar menos ameaçadas ou de serem menos importantes para a natureza, então, fazer esta entrevista pode ser uma boa oportunidade de chamar atenção para a conservação dessas espécies menos carismáticas e o quanto que elas precisam de investimento e programas de conservação, tanto quanto outras espécies que recebem bastante atenção", retratou Junqueira.

O que a população perde quando uma espécie é extinta?

Muitas pessoas acreditam que a extinção de uma espécie afeta apenas a natureza, sem consequências diretas para a vida humana. No entanto, o desaparecimento de animais e plantas impacta diversos aspectos da vida.

"O desaparecimento de uma espécie, geralmente, não é sentido pela população humana ou tem um efeito sobre a população humana a curto prazo. O ecossistema onde aquela espécie vivia irá perder estabilidade e seus processos ecológicos, as relações entre diferentes espécies, terão de se reorganizar. É triste, mas isso não costuma causar grandes impactos sobre as pessoas. O problema é que, quando se perde uma espécie, a tendência é de perder outras. Caso a perda continue e não seja interrompida, chegará um momento em que o ecossistema não terá mais estabilidade e irá colapsar. Podemos fazer uma analogia com uma parede. Retire um tijolo e a parede não cairá. Continue a retirar tijolos e chegará o momento em que a parede irá desabar. E ninguém quer estar embaixo quando isso acontece", explica o biólogo Igor Morais.

O especialista destaca que o colapso de um ecossistema afeta diretamente a distribuição de água potável, a ciclagem de nutrientes do solo dos quais as plantas dependem e até a polinização. "Sem polinização, perderíamos 83% dos alimentos que consumimos", acrescentou.

Iago Junqueira declarou que a fauna é um patrimônio e deve ser cuidado. "E da mesma forma que eu tenho um equilíbrio, um ecossistema tem um equilíbrio. Cada indivíduo que compõe esse ecossistema, seja ele uma formiga, uma planta, um macaco, um pássaro, qualquer elemento que esteja lá dentro, ele faz parte da composição de equilíbrio", relata.

"Então, a população acaba sendo afetada no final do dia, porque a saúde desse ecossistema, ela vai estar completamente interligada com a saúde da sociedade e com a saúde de todos os seres vivos que estão ali envolvidos", destaca.

O cientista Igor Morais destaca as medidas que precisam ser tomadas com mais urgência para proteger a biodiversidade brasileira, reforçando a necessidade de uma política ambiental de Estado no Brasil. "A construção de uma base científica requer melhorar o sistema educacional. Investir massivamente em educação. Algo que solucionaria ou minimizaria também diversos outros problemas do Brasil. A conclusão que podemos tirar é simples. A conservação da biodiversidade, se feita de forma efetiva e eficaz, resultará em um país melhor para todos", concluiu.

Classificação Indicativa: Livre

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