Meio Ambiente

Junho Verde: Plástico é vilão global ou solução mal utilizada? Especialista faz alerta

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Quando se trata de plástico, o material foi vendido como solução leve, barato, resistente e versátil mas também tornou-se um problema ambiental  |   Bnews - Divulgação Ilustrativa / Freepik
Leonardo Oliveira

por Leonardo Oliveira

Publicado em 11/06/2026, às 05h00



Quando se trata de plástico, durante décadas, o material foi vendido como solução leve, barato, resistente e versátil. No entanto, atualmente, concentra uma das maiores contradições ambientais do planeta. Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) revelam que a produção e o lixo plástico tendem a quase triplicar até 2060, e que apenas 9% do lixo plástico é reciclado globalmente.

Além disso, dados da ONG Oceana Brasil mostram que 45% das 7 milhões de toneladas produzidas atualmente no Brasil são de uso único, como embalagens, copos, canudos e sacolas. Ou seja, gasta-se bastante energia para produzir algo que se consome apenas uma vez e depois é descartado.

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Em entrevista do BNews Junho Verde, o professor Antônio Lobo, doutor em Geografia e docente da Universidade Federal da Bahia (Ufba), explica que o plástico ainda tem utilidade em alguns setores, mas o descarte inadequado e a origem fóssil tornam o material um risco crescente para o meio ambiente e para a saúde humana. 

“O plástico tem uma importância no mercado, principalmente na embalagem de alguns produtos sensíveis, como alimentos, por exemplo. Então, não dá para descartar totalmente o plástico do uso do dia a dia da sociedade. Mas, o plástico produzido a partir do combustível fóssil, produzido a partir de derivados do petróleo, acaba se tornando um resíduo extremamente perigoso e nocivo para a natureza. Ele continua sim tendo uma serventia importante, mas também acaba se tornando um resíduo muito danoso, muito perigoso para a natureza, porque tem grande capacidade de poluição e se transformando em microplástico, de penetrar profundamente nas cadeias alimentares e causar problemas e doenças dos mais diversos”, explica o professor.

Antônio Lobo detalha que qualquer plástico derivado de polímeros sintéticos, se não for reciclado ou reaproveitado, inevitavelmente vira resíduo e passa a contaminar o ambiente. Para ele, o plástico de uso único é o mais problemático porque circula com facilidade, é usado rapidamente e costuma parar em rios, córregos, lixões e oceanos.

“Todo o tipo de plástico, que não seja produzido a partir de polímeros vegetais, todo tipo de plástico que é produzido a partir do combustível fóssil, a partir de polímeros sintéticos, em algum momento, ele vai virar resíduo. E virando resíduo, se não for reciclado, reaproveitado, se esse resíduo não retornar para a cadeia produtiva, vai acabar impactando o meio ambiente, seja se espalhando e contaminando os corpos d'água, seja com a sua presença em lixões e até mesmo em aterros sanitários mal projetados”, afirma.

“Porém, o tipo de plástico mais comum, que se espalha com mais facilidade, principalmente contaminando os corpos d'água e, consequentemente, se transformando em microplástico e ampliando mais ainda o seu potencial poluidor, é justamente o plástico descartável, que a gente chama de plástico descartável, plástico de uso único. Porque eles são muito utilizados no dia a dia, no setor de serviço, no setor de alimento, no setor de embalagem, e o uso é muito rápido. Ele tende a virar resíduo muito rapidamente”, complementa.

Ele lembra que itens aparentemente inofensivos, como copinhos de café, se transformam em lixo em questão de minutos. Na avaliação do professor, a deficiência global na coleta e na destinação adequada faz com que uma grande parcela do plástico de uso único acabe em locais irregulares. 

“Você pega um copinho de cafezinho, por exemplo, ele vira resíduo em menos de 2 minutos. Então, ele tende a virar resíduo muito rapidamente. E como a gente tem uma deficiência global na coleta adequada dos resíduos e na destinação adequada dos resíduos para a economia circular, para a reciclagem, para a própria cadeia produtiva, uma parcela significativa, cerca de 70% desse plástico de uso único, desse plástico descartável, acaba parando em locais irregulares, principalmente contaminando corpos d'água, caindo nos rios, nos riachos, indo parar no oceano, se transformando em microplástico e contaminando as águas e toda a cadeia alimentar, principalmente a cadeia alimentar marinha, que acaba se alimentando do microplástico. E liberando gases, resíduos tóxicos e produtos químicos. Então, de fato, todo plástico, ele tem um potencial nocivo ao meio ambiente, uma vez que se transforma em resíduo, mas nesse caso o plástico de uso único, o plástico descartável, acaba tendo uma presença maior e um impacto também maior no meio ambiente”, explica.

Microplástico impregnado

As pesquisas mais recentes reforçam que o risco é ainda maior do que se imaginava há alguns anos. Segundo Lobo, antes havia a expectativa de que o plástico pudesse se biodegradar. Hoje, a ciência mostra o contrário, no qual ele se fragmenta em partículas cada vez menores, formando microplásticos e nanoplásticos. 

“Duas coisas mudaram. A primeira é que o mundo continua produzindo cada vez mais plástico. Quando a gente olha, a gente não vê um ponto de saturação. A linha é sempre crescente. A outra preocupação é que os estudos mais recentes têm demonstrado, com muita clareza, que o resíduo plástico tem um potencial poluidor ainda maior do que o que se pensava alguns anos atrás”, afirmou. 

O professor alerta que essas partículas já fazem parte da cadeia alimentar humana. Ele cita estudos que encontraram microplástico em camarões, placenta, cordão umbilical, vias respiratórias e até no cérebro de bebês. “O microplástico hoje, ele tá totalmente inserido na nossa cadeia alimentar. Se você abre um camarão, coloca no microscópio, você vai encontrar resíduo de microplástico ali”, explicou. 

Tem vários estudos que já localizaram microplástico na placenta da mulher gestante, no cordão umbilical, nas vias pulmonares, respiratórias, nas artérias das pessoas e até mesmo no cérebro de bebês. E a ciência tem se debruçado sobre isso para mensurar o impacto disso na saúde humana, principalmente a médio e longo prazo. Então, eu acho que essas duas vertentes de uma concepção da geração de impactos mais nocivos a partir do plástico, uma vez que ele se transforma em microplástico e nanoplástico, e o aumento progressivo da produção do uso do plástico cada vez maior no mundo”, alerta.

Impacto na fauna e flora

Além da saúde humana, Lobo aponta efeitos graves sobre a fauna e a flora, especialmente no ambiente marinho. O plástico libera gases tóxicos e produtos químicos, contamina as águas e causa mortes de animais que confundem o resíduo com alimento. 

“O impacto do plástico na saúde humana e na fauna e na flora, principalmente na fauna marinha, é imenso. O microplástico e o nanoplástico entram na cadeia alimentar de toda a fauna e, consequentemente, chega na nossa cadeia alimentar também”, afirmou.

Ele cita casos de tartarugas encontradas com canudos plásticos nas narinas e aves que morrem com o intestino cheio de tampinhas, pedaços de plástico e outros resíduos.

“Tem situações de vários animais que são abertos, como gaivotas, por exemplo, que morrem, e quando se abre para investigar, o intestino tá cheio de tampinha de garrafa, pedaços de plástico. De toda a natureza e de vários lugares do mundo. Então, o impacto tanto para a saúde humana quanto para a fauna e para a flora, do resíduo plástico é um impacto extremamente destrutivo e que tem se tornado cada vez mais preocupante na sociedade”, explica.

Desafio global

Para o professor, a poluição por plástico não é apenas um problema local. Parte expressiva do lixo que chega aos oceanos vem do continente asiático, sobretudo do Sudeste Asiático, onde o consumo é alto e a coleta é insuficiente. Esses resíduos, levados pelas correntes marinhas, circulam por todo o planeta. 

Segundo ele, o enfrentamento precisa ocorrer em duas frentes, uma globalmente, com articulação internacional para reduzir produção e consumo e outra localmente, com educação ambiental, políticas públicas e sistemas eficientes de coleta seletiva.

"Eu acho que primeiro, é tratar o desafio na escala global, tem que haver uma concertação de nível global para que a gente possa reduzir produção, consumo e a presença de resíduo plástico na natureza. E na escala local, a gente precisa trabalhar a sensibilização, educação ambiental, para que as pessoas comecem a entender cada vez mais que o plástico é extremamente nocivo ao meio ambiente, que a gente precisa evitar ao máximo o uso do plástico, principalmente do plástico descartável", explica.

É preciso que haja essa consciência coletiva para que cada um seja um agente de combate ao uso do plástico, do plástico descartável. E na outra ponta, a gente precisa ter políticas públicas que viabilize um sistema de coleta de resíduos, principalmente do resíduo plástico, que seja eficiente e que possa coletar o resíduo plástico de forma seletiva. E que possa reencaminhar esse plástico para a produção, para evitar que mais matéria-prima seja retirada da natureza. Que possa colocar esse plástico na economia circular, para que, na medida do possível, ele possa ser reaproveitado, e a médio e longo prazo, desenvolver outras políticas públicas, desenvolver normas jurídicas e desenvolver um forte trabalho educativo que possa, de fato, eliminar o uso e, consequentemente, a produção do plástico produzido a partir de derivados do petróleo", complementou.

Lobo citou o programa Recicle UFBA como exemplo prático de atividade local. Coordenado por ele, o projeto já recebeu prêmios nacionais e internacionais por promover coleta seletiva solidária em parceria com cooperativas e ONGs.

“Quase 100% do resíduo plástico que é produzido na UFBA hoje, ele é coletado de forma seletiva e encaminhado para as cooperativas parceiras, para que ele retorne para a indústria e, consequentemente, evite que mais matéria-prima seja utilizada para produzir plástico”, explica.

Para o professor, catadores e cooperativas precisam ser reconhecidos como agentes ambientais fundamentais. Ele defende que políticas públicas também incluam remuneração por serviço ambiental prestado por esses trabalhadores.

Quando eu falo aqui de criar políticas públicas, quando eu falo aqui de criar programas educacionais, tudo isso precisa ser feito com a participação desses agentes ambientais. Inclusive a criação de políticas públicas que possa remunerar os catadores, remunerar as cooperativas que atuam na coleta seletiva por prestação de serviço ambiental. Porque quando eles estão atuando na coleta seletiva, principalmente os catadores espalhados pela cidade, eles estão prestando um serviço ambiental de extrema importância para a cidade, para o município e para toda a comunidade que vive na cidade. Então, a participação desses agentes é fundamental e não tem como a gente pensar em qualquer tipo de política pública que possa melhorar a gestão dos resíduos, sem inserir as cooperativas, as ONGs que atuam nesse setor, os catadores, as catadoras, ou seja, todos esses agentes envolvidos com a coleta seletiva”, finaliza.

Classificação Indicativa: Livre

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