Meio Ambiente

Motivo dos ‘sequestros’ feitos por macacos chocam cientistas; confira

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Macacos-prego foram flagrados sequestrando filhotes de bugio, comportamento nunca antes registrado entre primatas dessa espécie  |   Bnews - Divulgação Reprodução / Youtube
Leonardo Oliveira

por Leonardo Oliveira

Publicado em 23/05/2025, às 09h57 - Atualizado às 11h48



Uma descoberta surpreendente na Ilha Jicarón, no Panamá, vem intrigando a comunidade científica internacional: macacos-prego foram flagrados sequestrando filhotes de bugio, um comportamento nunca antes registrado em primatas dessa espécie.

Como o fenômeno foi descoberto

A pesquisadora Zoë Goldsborough, do Instituto Max Planck de Comportamento Animal, analisava imagens captadas por câmeras ocultas na ilha — localizada a cerca de 55 km da costa do Panamá e parte do Parque Nacional de Coiba — quando percebeu algo estranho: um macaco-prego carregava um filhote de cor diferente nas costas. Após análise detalhada, confirmou-se que se tratava de um bebê bugio, e não de um macaco-prego.

O caso não foi isolado. Durante 15 meses de gravações, entre janeiro de 2022 e março de 2023, foram identificados 11 casos de filhotes de bugio sequestrados por pelo menos quatro macacos-prego machos subadultos e juvenis. Esse comportamento parece ter se espalhado entre eles como uma espécie de “moda cultural”. O primeiro a adotar a prática foi um indivíduo apelidado de “Joker”, reconhecido por uma cicatriz na boca.

Comportamento sem explicação clara

A pesquisa, publicada na revista Current Biology, aponta que os cientistas ainda não sabem o motivo dos sequestros. Não há evidências de que os macacos-prego estejam se alimentando, cuidando ou brincando com os filhotes sequestrados. O fato de o comportamento ter sido repetido por vários indivíduos sugere uma tradição social inédita, mas sem benefício aparente para os sequestradores.

Outro dado preocupante é que a população de bugios na ilha já é considerada ameaçada de extinção, e as fêmeas só dão à luz a cada dois anos, o que agrava o impacto dos sequestros para a espécie.

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Tédio pode ser a causa

Pesquisadores sugerem que o tédio e o excesso de tempo livre podem estar por trás do fenômeno. Na Ilha Jicarón, os macacos-prego vivem sem predadores, com abundância de alimento e pouca competição, o que lhes proporciona uma vida “fácil” e tempo de sobra para experimentar novos comportamentos. Além dos sequestros, esses primatas já são conhecidos por usar ferramentas de pedra para quebrar alimentos duros, outro exemplo de tradição cultural única desenvolvida no local.

Segundo Meg Crofoot, diretora-gerente do Instituto Max Planck, a ausência de desafios naturais pode estimular a criatividade — ou o tédio — desses animais, levando ao surgimento de comportamentos inovadores, mas potencialmente prejudiciais para outras espécies.

Desafios para a pesquisa

A Ilha Jicarón é desabitada, sem eletricidade e de difícil acesso, o que torna as observações presenciais complicadas. Os cientistas dependem de câmeras acionadas por movimento para monitorar os animais e continuam analisando os dados para entender as consequências desse comportamento.

Essa descoberta é o primeiro registro de uma tradição social em que animais sequestram repetidamente filhotes de outra espécie sem benefício evidente, levantando novas questões sobre cultura animal, aprendizagem social e conservação da biodiversidade.

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