Meio Ambiente
por Alex Torres
Publicado em 10/06/2025, às 12h00
Uma das pautas que tem sido mais alvo de controvérsias com relação à condução da atual gestão de Salvador está no modo que tem sido tratada a questão das áreas verdes espalhadas pela capital. Leilões de terrenos para a construção de prédios e outras estruturas tem trazido um importante alerta no que diz respeito a sustentabilidade e também preservação desses históricos locais.
Em conversa com a equipe de reportagem do BNews para o projeto Junho Verde, que traz justamente esse enfoque às pautas de meio ambiente e sustentabilidade, o deputado estadual Hilton Coelho (PSOL-BA), questionou a forma como o debate tem sido tratado por parte da prefeitura e também deixou uma reflexão sobre qual cidade será deixada para as próximas gerações.
"Quando a prefeitura passa a vender seus próprios terrenos, o patrimônio da cidade, colocando à disposição da especulação imobiliária, é um sinalizador desse 'liberou geral' que poderemos ter uma cidade de concreto, com a orla completamente tomada. Situações que geram riscos à população, como alagamentos, deslizamentos, tudo isso tende a piorar", detonou o psolista.
O historiador Rafael Dantas explicou que registros históricos apontam que, muito antigamente, a cidade de Salvador era composta em seu entorno por uma verdadeira "mancha verde". No entanto, todas essas áreas acabaram deixando de existir aos poucos, principalmente com o processo de urbanização ao longo dos anos.
"Salvador era totalmente cercada de verde. Temos alguns registros mais antigos que mostram que quando a cidade-fortaleza foi criada, no século XVI, existia uma grande mancha verde circundando esse entorno , que aos poucos foi desmatada [...] Cada vez mais que a cidade foi crescendo, tanto no eixo sul e norte, e a conquista do miolo com as avenidas de vale, intensificou essa devastação desses locais", explicou.
Em alguns pontos, no decorrer do século XX, existiram iniciativas para proteger algumas árvores centenárias existentes na cidade. Isso nem sempre foi mantido e eu diria que um dos momentos mais danosos da destruição do verde de Salvador seguiu a partir dos anos 2000", completou Rafael.
Recentemente, em abril deste ano, o prefeito de Salvador, Bruno Reis (União), chegou a ser perguntado sobre a realização de leilões, principalmente com relação às áreas no Morro do Ipiranga, na Barra, e também na Orla de Pituaçu, próxima à região do Circo Picolino. A resposta, entretanto, foi de que os locais só causavam despesas para a prefeitura e que não tinham nada de verde.
"Uma área que a população não utiliza e que só gera um ônus para a prefeitura de manter, de estar tirando entulho, como muitas áreas dessas ocorrem. As pessoas estarem jogando entulho, de estarem correndo risco, como essa teve no passado, a prefeitura teve que investir R$ 3 milhões. Vamos lá nas duas praças, se quiser a gente vai lá. Na da orla não tem nada, não tem uma grama. Ná de lá você ainda vai achar três coqueiros e um pouquinho de grama", disse o gestor.
A declaração foi rebatida pelo vereador Hamilton Assis (PSOL): "O prefeito precisa entender de que os espaços que estão vazios podem voltar a ser ocupados se houver um plano de manejo dessas áreas para replantio qualificado, retornando a sua vegetação e respeitando sua vegetação natural [...] Ele diz que aquela área de Pituaçu já estava desmatada, mas foi um processo de degradação que a gente considera planejado para criar essa sensação de descaso e se desfazer de uma forma irresponsável. Todas essas áreas que ele está dizendo, que é inservíveis, que já estavam desmatadas, elas podem ser recuperadas e restabelecidas".
Colega de Câmara e bastante atuante na questão das pautas ambientais, a vereadora Aladilce Souza (PCdoB) destacou, em recente entrevista ao BNews, que esses leilões tem ocorrido, principalmente, nas chamadas 'áreas nobres' da cidade. O processo acaba contribuindo para a chamada especulação imobiliária, valorizando a compra e venda de outros terrenos e imóveis da região.
"Muito grave o que está acontecendo, a cidade está sendo fechada por uma cortina de concreto na orla atlântica. Todas as semana sobe um prédio. Esses terrenos que foram vendidos, a maioria está em Pituba, Itaigara, Caminho das Árvores, Patamares. São as áreas mais valorizadas do ponto de vista imobiliário", disse Aladilce.
Atualmente, Salvador aparece na 2ª posição entre as capitais com pior índice de vias com existência de árvores. Os dados integram a pesquisa sobre Características Urbanísticas do Entorno dos Domicílios, que faz parte do Censo Demográfico 2022 elaborado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Em edição do BNews Premium, em abril deste ano, a reportagem teve acesso ao levantamento que aponta que cerca de 63,5% dos soteropolitanos (aproximadamente 1,5 milhão de habitantes em números absolutos) residem em ruas sem árvores. Inclusive, essa não é a primeira vez que a capital baiana chama atenção negativamente por conta de áreas verdes. Em agosto de 2024, o BNews já havia noticiado que Salvador possui áreas florestadas abaixo da média, de acordo com dados do “Mapa da Desigualdade entre as Capitais”.
Dessa forma, Rafael Dantas finaliza com um alerta pela preservação das áreas verdes que permanecem na capital baiana: "Salvador ainda possui lugares que são importantes pulmões verdes na cidade, como Parque São Bartolomeu, o Parque da Cidade, aquela região onde tem a casa da família dos Mariani, na Barra, algumas áreas na Mata Escura, nas regiões assim mais metropolitanas e com árvores, inclusive, centenárias", finalizou o historiador.
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